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terça-feira, 21 de maio de 2013

EMPRESA NÃO É VAMPIRO!

Há pessoas que confundem trabalhar, dedicar-se à empresa, aos clientes, ao mercado, à marca, com “dar sangue...” pela empresa. Essas pessoas são as chamadas “ativistas”. Matam um leão por dia como elas próprias dizem, trabalham, trabalham, trabalham. São muito “ativas”, vivem correndo para cima e para baixo.

A pergunta é a seguinte: Será que o que essas pessoas demasiadamente “ativas” estão fazendo é o que elas deveriam estar fazendo? Será que o que elas estão fazendo está criando a empresa de amanhã, aumentando a fidelização de clientes à marca? Será que o que elas estão fazendo está agregando valor para os clientes da empresa? Será que o que elas estão fazendo não é apenas uma grande “poeira” para que todos vejam e que não tem eficácia alguma? Será que o elas estão fazendo não é simplesmente atormentar a vida de todos?

Empresa não é vampiro. Ela não precisa do “sangue” dos seus funcionários para sobreviver. Ela precisa muito mais da inteligência, do comprometimento, da participação, da atenção aos detalhes. Uma empresa precisa de funcionários que realmente reinventem as relações empresa-mercado-marca-clientes.

É claro que funcionários dedicados e sempre presentes são avaliados positivamente. É claro que funcionários que trabalham muito são valorizados. Porém, é preciso que tenhamos uma preocupação genuína com a qualidade de utilização de nosso tempo. Não basta ficar 12 horas na empresa fazendo coisas irrelevantes para o sucesso da empresa e seu mercado.

Sempre desconfiei de pessoas que dizem “dar sangue” pela empresa. Sempre desconfiei de pessoas que nunca tiram férias. Sempre desconfiei de funcionários que se acham insubstituíveis.

Gostaria de sugerir que você fizesse uma análise das suas atividades e visse se você anda fazendo coisas realmente relevantes para o sucesso da sua empresa. Veja se o que você faz realmente agrega valor para a marca, para o mercado, para os clientes. Não use este texto como desculpa para trabalhar menos, para se comprometer menos. Pelo contrário. A mensagem é de comprometimento total e para que isso seja realidade é preciso que demos à empresa muito mais nossa inteligência e vontade do que nosso “sangue”.

Pense nisso. Sucesso!
PROF. LUIZ MARINS

Antropólogo. Estudou Antropologia na Austrália (Macquarie University/School of Behavioural Sciences) sob a orientação do renomado antropólogo indiano Prof. Dr. Chandra Jayawardena e na Universidade de São Paulo (USP), sob a orientação da Profa.Dra. Thekla Hartmann;

- Licenciado em História (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba); estudou Direito (Faculdade de Direito de Sorocaba); Ciência Política (Universidade de Brasília - UnB); Negociação (New York University, NY, USA); Planejamento e Marketing (Wharton School, Pennsylvannia, USA); Antropologia Econômica e Macroeconomia (Curso especial da London School of Economics em New South Wales) e outros cursos em universidades no Brasil e no exterior. 
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segunda-feira, 13 de maio de 2013

SALMO 6 – SALVAÇÃO PELA GRAÇA

Há muitas coisas que podem acontecer com um homem de Deus. Davi era um homem singular: ele era um rei, era um profeta, e, portanto, era um grande líder espiritual e o povo esperava muito dele. Sua responsabilidade era imensa e ele sabia disso. Mas as coisas não estavam indo muito bem com ele, pelo que se pode ler e concluir dos seus próprios escritos. Mas as coisas podiam mudar; assim cria o grande poeta e cantor de Israel.

Muitas vezes não podemos senão ver sombras em nossa vida; as trevas se avizinham, e não temos nenhuma perspectiva de como ver uma luz no fundo do túnel. Muitas vezes sentimos que as coisas podem piorar, e entramos em pânico. Mas aqui neste Salmo 6, vemos 4 coisas que aconteceram com Davi, e 4 coisas que podem acontecer com você, 4 coisas que podem acontecer com um cristão sincero.

I – MEDO (v. 1-3)

Davi tinha medo da ira divina. Ele orou: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.” No salmo 3:6, ele dissera: “Não tenho medo de milhares do povo que tomam posição contra mim de todos os lados!” Mas agora, ele tinha medo da ira de Deus. E isso pode acontecer com qualquer cristão, que tenha um pouco de sensibilidade espiritual.

De onde vem o medo da ira de Deus? O medo vem por causa do pecado. Adão e Eva estavam felizes no Jardim do Éden. Então, eles cometeram o pecado. Mas Deus não tinha abandonado os Seus filhos e foi procurá-los pela viração do dia, como de costume, mas eles estavam escondidos. E Deus chamou ao homem e lhe perguntou: “Adão, onde estás?” A resposta veio com muitos receios: “Ouvi a Tua voz no Jardim e tive medo e me escondi!” (Gn 3:10).

E agora vemos a Davi, um homem “segundo o coração de Deus”, que estava com medo de Deus! Não é incrível? Um homem que possuía muita luz do conhecimento do seu Benfeitor, agora estava temendo ser repreendido e castigado pela ira de um Deus vingador! Mas como podia acontecer isso com Davi? A razão era a mesma de Adão. Ele havia pecado contra Deus e sabia da gravidade do seu pecado. Ele sentia uma profunda convicção de pecado e temia que Deus o castigasse. Ele sabia que a ira de Deus é despertada pelo pecado. Ele sabia que a ira de Deus era a manifestação da Sua justiça contra o seu pecado.

Ele sentia o peso da culpa, e ele temia a repreensão e o castigo de Deus. Ele foi repreendido por Natã, ele foi repreendido por sua esposa Mical, ele foi repreendido por Joabe, o comandante do seu exército. A repreensão humana, ele podia suportar. Mas tinha medo e grande pavor de ser repreendido e castigado por um Deus irado por causa dos seus pecados. Portanto, ele tinha muitos motivos para orar desse modo: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.”

A grande pergunta é esta: Será que Deus castiga? Ele nos pune por causa de nossos pecados? Há muitas pessoas nesse mundo que tem medo de Deus. Elas foram ensinadas desde a infância a temer um Deus que fica muito irado quando erramos. E muitos pregadores, para contrapor-se a este sentimento, para consolar os que são assim atribulados, adquirem a fama de populares pregando que Deus não castiga a ninguém, porque é um Deus de amor e um pai de amor não castiga os seus filhos pelos erros que cometem.

Mas qual é a verdade? O que a Bíblia diz sobre esse assunto? A Bíblia diz que Adão foi punido pelo seu pecado, e a ira de Deus se manifestou, quando eles foram expulsos do Paraíso. Deus castigou o mundo antediluviano, e destruiu a todos os pecadores. Deus castigou a Sodoma e Gomorra, e Sua ira se manifestou com fogo e enxofre. Deus castigou ao povo de Israel, mandando-os para o exílio assírio e babilônico por causa de seus muitos pecados e transgressões.

E isso não se limita ao Antigo Testamento, porque logo na Igreja primitiva, vemos a Ananias e Safira sendo mortos por causa de sua hipocrisia, mentira e roubo. Vemos Herodes sendo morto, por causa de sua blasfêmia e orgulho. E podemos ainda adicionar a ira de Deus se manifestando nas 7 últimas pragas contra o mundo inteiro por causa de seus pecados.

Davi conhecia a Deus e teve de ser castigado algumas vezes por seus erros, porque ele era um rei teocrático, e tinha de ser exemplo de justiça para o povo, além de ter uma grande luz acerca do caráter divino. E a Bíblia ensina que quanto mais luz tivermos, maior será a repreensão e o castigo (Lc 12: 47-48). E agora, vamos pregar que Deus não castiga, enganando o povo com falsas insinuações? A resposta não é esta. O consolo é outro. A esperança se encontra na Cruz de Cristo, porque lá “o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas feridas fomos sarados” (Is 53:5). Jesus Cristo foi castigado por causa dos nossos pecados, e, portanto, não precisamos mais ser castigados.

Entretanto, Paulo ainda nos adverte: “Se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários... Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” Hb 10: 26-27,31. Se continuarmos em pecado conhecido, estaremos calcando aos pés o Filho de Deus e ultrajando o Espírito Santo da graça e só podemos esperar um castigo severo (v. 29).

Entretanto, a grande resposta para as nossas almas aflitas é o próprio exemplo de Davi. Ele sabia de tudo: ele reconhecia o seu pecado, sabia do castigo que merecia, conhecia o caráter justo de Deus, sabia que Ele não faz acepção de pessoas.  Mas ele também sabia como Deus age diante de alguém que lhe suplica a misericórdia, e se humilha, reconhecendo o seu pecado e se arrependendo sinceramente. Sabia por experiência que Deus Se inclina para ouvir e atender aos que tem fé suficiente para crer no Seu amor extraordinário, e que está sempre nos dizendo: “Com amor eterno Eu te amei; por isso, com benignidade te atraí.” (Jr 31:3). Davi é um exemplo de um pecador tremente diante da ira de Deus, mas que vence o seu temor por uma fé inquebrantável na misericórdia de Deus.

Muitas vezes, por causa de nossos erros, o Senhor nos repreende em Sua justiça, mas mistura Sua repreensão com a misericórdia e nos fala por Seus agentes. Pode ser através da esposa, dos amigos, do pregador, ou até por nossos filhos, ou pela simples leitura da Bíblia. Ninguém gosta de ser repreendido. Mas muitas vezes a repreensão de humanos é uma obra de Deus, misturada com Sua compaixão, a fim de velar a Sua ira, e nos fazer voltar aos caminhos da justiça.

O que faz o medo da ira divina? Temos que nos livrar desse temor que conspira contra a nossa alma.

1- O medo da ira de Deus enfraquece todo o sistema. V. 2: “Tem compaixão de mim, Senhor, porque eu me sinto debilitado.” Davi suplica pela compaixão divina, porque se sentia enfraquecido, abatido. A compaixão de Deus pode desviar a Sua ira, de tal modo que nos sentimos fortalecidos. O medo da sua ira pode abater a nossa força física, como um resultado geral de todas as coisas ruins que podem advir desse temor.

2- O medo da ira de Deus debilita a saúde dos ossos. V. 2: “Sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão abalados.” O medo originado pelo pecado causa a doença do corpo e chega a atingir os ossos. Davi estava com esse grande problema, doente e com dor nos ossos.

Certa vez, enquanto um pastor adventista estava fazendo uma conferência em uma grande cidade, um homem coxo, de meia idade, e que sofria intensamente, foi levado à plataforma após a conferência. Disse ele para o pregador adventista que todo aquele dia estivera pensando seriamente no suicídio como fim para as suas misérias. Mas agora, um de seus filhos lhe levara um convite para a conferência que estava sendo pronunciada aquela noite.

Disse ele: “O título de sua conferência me atraiu, e decidi ouvi-lo antes de meter uma bala na cabeça. Talvez o senhor tenha uma feliz solução para a minha vida angustiosa. Nos últimos catorze anos venho sofrendo de reumatismo agudo. Às vezes fico na cama três meses seguidos. Não há remédio que possa curar-me ou aliviar-me.”

Marcaram um encontro para o dia seguinte, e ele contou ao conferencista sua triste história. Vinte anos antes estivera no caminho da prosperidade. Casara com uma linda jovem e possuía sua casa própria. Então seu pai, um rico homem de negócios, confiou ao filho alguns encargos comerciais. Este tirou vantagem da situação e, mediante processo estritamente legal, privou o pai de grande quantidade de títulos, apropriando-se deles.

Desesperado afinal, o pai levou o próprio filho diante dos tribunais, sem nenhum resultado. Oprimido pela dor, o pai morreu alguns meses depois. O filho sentiu que havia sido a causa da morte do pai. Depois disto, graças à má administração, e como uma condenação a suas más obras, perdeu tudo, até mesmo o que havia ganho licitamente antes de antes de arruinar o pai. Assim privara a mãe e as irmãs de uma boa herança.

Agora tinha uma grande família. Nos últimos catorze anos, vinha sofrendo de reumatismo que lhe inutilizaram os dedos e causavam tanta dor que muitas vezes ficava meses sem poder sair da cama. Sua culpa o perseguia e o atormentava cada minuto de sua vida.

Acrescentou ele que sua mãe e uma irmã casada estavam vivendo na mesma cidade, de maneira que o conferencista mandou chamá-las no dia seguinte. Depois de haver-lhes falado sobre o assunto, conseguiu que o pobre enfermo fosse recebido. Ali, humildemente pediu perdão a sua mãe e a Deus. Depois de ouvir as palavras de perdão da mãe, um sorriso aflorou-lhe nos lábios, e ele disse: "Este é o meu primeiro momento feliz em vinte anos.”

Como resultado, dois dias mais tarde ele pôde andar com o auxílio de uma bengala, e pouco depois se locomovia como um jovem! Nunca mais sofreu de reumatismo. Normalizando a situação de sua consciência, ele conseguiu ver melhorada sua saúde e começou a encontrar alegria na vida. O que os médicos e os remédios não puderam fazer, a confissão da culpa logrou alcançar. Agora, ele leva uma vida contente e próspera. Não tem mais ansiedade ou medo de si mesmo, dos outros e de Deus.

3- O medo da ira de Deus aflige a alma: V. 3: “Também a minha alma está profundamente perturbada.” Davi tinha um problema psicológico, que afetava o seu ser completo. A sua alma estava “profundamente perturbada”, com remorso, angústia e dor. E como nós somos unidades indivisíveis, há uma estreita relação entre a mente e o corpo: “A relação existente entre a mente e o corpo é muito íntima. Quando um é afetado, o outro se ressente” (E.G.White, Mente, Caráter e Personalidade, vol. I, pág. 60). Quando a alma está em profunda angústia, o corpo sofre e adoece. Assim se encontrava Davi. A culpa do seu pecado trouxe a doença, o remorso, e o medo de Deus.

Então, ele suplica angustiado: “Tem compaixão de mim, Senhor!” (v. 2). A saúde vem pela compaixão de Deus. Precisamos de restauração do corpo, da alma e do espírito. Precisamos de mais saúde e isso depende da compaixão divina. Muitas vezes, nós perdemos a saúde por causa de nossos erros e extravagâncias. Necessitamos da compaixão divina, a fim de sermos sarados de nossas loucuras. Mas também não devemos abusar da Sua misericórdia.

Ellen White, certa vez foi convidada a orar por um homem casado que apesar das relações conjugais com a esposa, ainda vivia se masturbando, e danificando o seu sistema nervoso e debilitando a sua energia vital. Agora que se encontrava fraco e doente, alguns membros da sua igreja pediram que ela orasse por esse homem vítima de suas paixões baixas, embora ninguém soubesse do que estava acontecendo. Ela, no entanto, foi avisada por Deus que não orasse por esse homem, porque não seria atendida, porque se ele fosse curado, apenas continuaria no pecado, e usaria a saúde para continuar no vício. Seguramente, não devemos abusar da graciosa misericórdia divina que nos mantém vivos para sermos reflexos da Sua glória.

O desespero de Davi estava esmagando a sua alma, e ele faz uma pergunta inquietante: “Senhor, até quando?” (v. 3), diz o salmista. “Até quando?” é o indicador de que as forças do justo estão se exaurindo, se esgotando. “Até quando?” significa o desespero da alma que não aguenta esperar mais. “Até quando?” é o clamor do justo que já suplicou muitas vezes, mas não encontrou a resposta para as suas angústias.

II – SALVAÇÃO (v. 4-5)


A outra coisa que pode acontecer a um cristão em angústia por seu pecado e pelo seu medo é salvação.

1- Davi queria salvação da ira de Deus. Ele sabia por experiência própria o que significava ser castigado por Deus, e ele agora pedia salvação da ira e do furor de Deus contra ele por causa de seu pecado. Então, Davi faz um veemente apelo: v. 4: “Volta-Te, Senhor”. Ele estava com receio e medo da ira de Deus e agora pede que Ele volte da ira para a misericórdia. Que Ele faça o caminho de volta, desviando-Se do Seu furor para a compaixão de que tanto ele precisava.

De fato, salvação é da ira divina. Deus nos salva de Sua própria ira. O apóstolo Paulo disse: “Sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira!” (Rm 5:9). Quando chegar o grande Dia do Juízo, quando a ira divina se manifestar nas 7 últimas pragas sobre esse mundo ímpio, nós seremos salvos dessa ira. Mas esta é uma promessa que se aplica também para o tempo presente (Rm 3:26). Somos salvos de Sua ira agora mesmo, porque Deus pode contemplar a Cruz de Jesus Cristo e ver o Seu sangue derramado, fazendo propiciação por nós, que clamamos pela Sua salvação.

2- Davi queria livramento do pecado. Davi disse, no v. 4: “Livra a minha alma”. O pecado aprisiona a alma, o medo encerra o pecador em remorsos. O pecado escraviza o homem e daí ele se encontra sem poder, fraco, abatido, “sem ar, sem luz, sem razão”. “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”, disse Cristo. Mas Ele também disse: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (Jo 8:34,36). Podemos crer na libertação do pecado pelo Filho de Deus. Ele nos liberta do pecado completamente, e agora Se encontra no Céu e intercede por nós.

3- Davi queria salvação de graça. As suas palavras textuais são estas: V. 4: “Salva-me por tua graça.” Davi ora por salvação pela graça. Davi conhecia o Evangelho. Não é admirável? Muitos teólogos populares poderiam se surpreender com uma oração rogando salvação pela graça registrada no Antigo Testamento. Dizem muitos teólogos modernos que há duas dispensações, a Dispensação da Lei, que era a dispensação do Antigo Testamento, quando todos os homens se salvaram pela observância dos mandamentos de Deus; e a Dispensação da Graça, que é a nossa dispensação, do Novo Testamento, quando todos os cristãos podem se salvar pela livre graça de Deus.

Mas isso é uma falsa doutrina. Essa teoria cria a necessidade da existência de duas classes de pessoas redimidas. A 1ª classe formada de pessoas que se jactam de suas realizações; a outra, seria formada de pessoas humildes. Entretanto, jamais teremos no Céu duas classes de salvos, uns que se salvaram pelas obras, e poderiam dizer: “Nós fomos salvos graças aos nossos esforços, porque praticamos as obras da Lei”, e outra classe de cristãos humildes que teriam de confessar: “Nós, pelo contrário, nada temos de mérito em nossa salvação, porque estamos aqui por causa da graça de Deus através de Jesus Cristo, que morreu para nos salvar!”
De fato, tanto o Novo quanto o Antigo Testamento testificam que todos os homens serão salvos pela graça. O apóstolo Paulo disse: “A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2:11). Portanto, não pode haver duas dispensações, não pode haver divisões no que se refere ao meio de salvação; todos se salvarão do mesmo jeito como está planejado por Deus, “porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3: 22-24).

O salmista temia a ira de Deus e agora, ele pede que Deus o salve pela Sua graça. Assim é o Evangelho. A salvação nos é dada gratuitamente. “Pela graça sois salvos, mediante a fé.” (Ef 2:8), disse o apóstolo Paulo. Como você se sente quando eu falo da graça? Será que as cordas de sua alma vibram de emoção pela graça maravilhosa de Deus? Você sente o coração cheio de esperança?

Então, Davi argumenta com Deus. V. 5: Ele dá uma razão por que deveria ser salvo: “Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” Davi dirige uma pergunta poderosa para Deus: “Senhor, se eu morrer, como poderei continuar a Te louvar, como poderei me lembrar dos Teus poderosos feitos?” Aqui temos um dos segredos da oração eficaz. Quando você orar e pedir salvação, argumente com Deus nos Seus termos e diga: “Senhor, salva-me por Tua graça, porque se eu morrer, não poderei continuar Te louvando!”, e Deus atenderá à sua oração, pois esse é um argumento muito forte, que fere a sensibilidade do próprio Deus. Se quiser ser atendido, use os argumentos que Deus inspirou.

“Na morte não há recordação de Ti”. Muitos hoje ensinam a consciência após à morte, dizendo que a morte é o momento em que a alma sai de sua prisão corpórea, a fim de estar sempre se lembrando de Deus no Céu, para nunca mais esquecê-lO. Mas se isso fosse verdade, a morte seria uma bênção, procurada pelos filhos de Deus como um meio de recordar a Deus por toda a eternidade. Mas o salmista diz exatamente o contrário: “Na morte, não há recordação de Ti!” Na morte não há consciência de Deus. Portanto, ele quer ser livrado da morte!

Davi não cria na imortalidade da alma. Se ele cresse na teoria de que os mortos justos vão para o Céu após a morte, a fim de louvar a Deus, ele jamais teria dito: “No sepulcro, quem te dará louvor?” Estas palavras não fortalecem o ensino da imortalidade incondicional. Se ele cresse assim, ele teria dito: “No sepulcro, teremos o início de um louvor eterno. Senhor, se eu morrer, haverei de me lembrar de Ti todos os dias da eternidade; se eu descer ao sepulcro, não haverá nenhum problema, porque eu tenho uma alma imortal, e O louvarei para todo o sempre!”

Mas Davi não escreveu isso. Ele declarou que na morte não há consciência, não há sabedoria, não há nenhum conhecimento, nem do que se passa na terra, como também do que se passa no Céu. Ele falou que ao morrer, o homem perde a sua capacidade espiritual de louvar a Deus.

Se aquela teoria popular fosse verdade, a morte seria muito bem-vinda. Mas a morte não é a libertação da alma que se desprende do corpo para festejar a sua liberdade, a fim de subir ao Céu, e dar ao crente a oportunidade de louvar a Deus no Paraíso eternamente. A morte é uma maldição que o pecado trouxe da qual somos salvos por graça de Deus.

Davi não ensina a imortalidade da alma. A única coisa neste salmo que ele ensina sobre a natureza do homem é que a sua alma está “profundamente perturbada”, que o seu espírito está debilitado e que os seus ossos estão abalados fisicamente. Ele sentia a aproximação da morte, mas não pôde dizer que logo iria louvar a Deus no Céu, eternamente, porque não cria nisso, e nem podia crer, por não ser verdade. Portanto, ele ensina muito mais a fragilidade da alma do que a sua imortalidade.

III – O CANSAÇO (6-7)

1- Davi estava cansado de tanto gemer. Davi sentia a sua alma cansada dos resultados fatais do pecado, que incluem o gemido da alma. Isso também pode acontecer com você. O cristão também está cansado de tanto gemer. Disse o apóstolo Paulo: “Também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” Rm 8:23.

Os cristãos sentem os impulsos da natureza pecaminosa, as insinuações da carne, e muitas vezes cometem pecado e gemem, embora possuímos as “primícias do Espírito Santo”, os Seus primeiros frutos da salvação. Portanto, aguardamos o dia em que teremos o nosso corpo redimido, transformado. Estamos cansados de tanto gemer pelos nossos pecados e pelos de outros irmãos e pelos do mundo? Mas logo virá o Dia de Cristo. 

2- Davi estava cansado das noites indormidas. V. 6: “Todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago.” Ele tinha insônia, e muitas vezes era surpreendido com muitas lágrimas. Davi usa uma figura de linguagem, chamada hipérbole, que ocorre no texto quando o autor fala com exagero, figuradamente. Como disse Olavo Bilac, certa vez: "Rios te correrão dos olhos, se chorares!" 

“Todas as noites”, disse o salmista. Um famoso artista grego, artista do balé, festejado em todo o mundo como um dos maiores artistas do balé internacional, em palavras dramáticas traduziu a angústia de seu espírito, quando ele disse o seguinte: "Todas as noites me inquieto e não durmo! Jamais tenho me encontrado sozinho sem que as minhas mãos tremam, sem que os meus olhos se encham de lágrimas, sem que o meu coração se angustie." E completava: "Não tenho paz."

3- Davi estava cansado de tantas mágoas. Os relacionamentos de Davi eram muito complicados, porque ele era rei, profeta, pai e esposo. Ele era um líder espiritual do povo de Deus. Ele certamente, ocupando essa posição, ele tinha muitos adversários e inimigos. Ele transparecia em seus olhos as mágoas produzidas por tantos adversários. Ele se sentia amortecido e velho, desprezado e infeliz, vitimado pela mágoa da ingratidão.

Davi continua a sua queixa, e desabafa, no v. 7: “Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus adversários.” Os olhos são um reflexo do corpo inteiro; se o corpo está abatido e fraco, certamente, isso será visto nos olhos. Davi estava envelhecendo prematuramente, mais rápido do que ele esperava. Seus olhos não enxergavam mais com a lucidez da juventude; sua cabeça se enchia de cabelos brancos; seus braços não tinham mais a força digna de heróis. Ele se sentia fraco, abatido e velho.

Por que isso? “Por causa dos meus adversários”, diz ele. As suas ameaças, suas perseguições, as suas calúnias, as suas traições – tudo isso conspirava contra a saúde de Davi. Mas quantos eram os seus adversários? Ele fala de “todos”. No Salmo 3:1, ele faz essa declaração: “Senhor, como tem crescido o número dos meus adversários! São numerosos os que se levantam contra mim.” Como não envelheceria Davi com tantos inimigos?

Nós também temos uma multidão de inimigos. Lutero enfrentou milhares de demônios em sua grande obra de Reforma, conspirando contra ele e seu trabalho. E ele sentiu a presença desses demônios, que procuravam matá-lo. A 6 de março de 1521, Lutero foi intimado a comparecer perante a Dieta Imperial em Worms, sendo-lhe assegurado salvo-conduto. Então, quando ele ia chegando àquela cidade, ele disse: “Ainda que houvesse em Worms tantos demônios como há telhas sobre as casas, contudo lá entrarei.” Nós sabemos que muitos deles estão prontos para nos desanimar e nos derrotar e até nos fazer envelhecer prematuramente.

IV – CERTEZA (8-10)

A 4ª coisa que aconteceu a Davi e pode acontecer com você foi a certeza.

1- Certeza de boas companhias. Davi sabe o que são boas companhias e toma providências para que as más companhias não se acheguem a ele. Davi queria ter certeza de que os seus amigos eram sinceros primeiramente com Deus. Então, se dirige aos seus adversários em tons de reprovação, como se estivesse diante deles. V. 8: “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade.”

Este é o segredo para você ter boas companhias: Escolher os que são amigos de Deus e “quando os pecadores quiserem seduzir-te” pode dizer para eles com determinação, sem nenhum receio: “Apartai-vos de mim os que praticais a iniquidade!” Estas palavras se servem para que saibamos escolher as nossas amizades. O perigo das más companhias é sempre muito grande especialmente para a juventude, mas também para todos. 

2- Certeza do Juízo divino. Davi profeticamente antecipou as palavras que serão pronunciadas no futuro. Cristo as usou no Seu famoso sermão do monte, ao se referir aos perdidos no Dia do Juízo, que pretensamente faziam a obra de Deus, mas a realizavam hipocritamente. Disse Cristo que muitos naquele dia hão de procurar se justificar. “Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mt 7:22-23). De fato, os ímpios dentre o povo de Deus não prevalecerão no Juízo. Não podemos pertencer ao mundo e ao reino de Cristo. Todos quantos não querem abandonar o pecado, todos que se apegam ao pecado ouvirão um dia as palavras da eterna reprovação divina: “Apartai-vos de Mim, os que praticais a iniqüidade!”

Estas palavras foram muito próprias para os inimigos de Davi, em seu tempo. Muitos deles reconheceram que estavam em um caminho perigoso, ao se colocarem contra o rei de Israel, e se arrependeram de suas rebeliões. Outros continuaram em sua teimosia e foram mortos, no início do reino de Salomão.

Estas palavras tem uma força muito grande para produzir um verdadeiro arrependimento. Quando uma pessoa está vivendo em pecado, quando um cristão está acariciando um pecado predileto e ouve estas palavras, e pensa na triste possibilidade de ficar fora da companhia de Cristo eternamente, ele ainda tem a oportunidade de voltar atrás e se arrepender para deixar o pecado e praticar a justiça. “Apartai-vos de Mim todos os que praticais a iniquidade”, serão as palavras de Cristo, o grande Juiz naquele dia memorável.

3- Certeza de salvação. O salmista termina o salmo com esta certeza: “O Senhor ouviu a voz do meu lamento; o Senhor ouviu a minha súplica; o Senhor acolhe a minha oração.” (v. 8-9). Davi tinha orado: “Senhor, salva-me por Tua graça!” Agora, ele declara a certeza de sua salvação: “O Senhor me ouviu.” No início do salmo 5 (5:1), o salmista pede por 3 vezes que a sua oração seja atendida. No final do salmo 6, ele afirma que Deus atendeu a sua oração e isso ele repetiu num paralelismo tríplice.

Davi poderia dizer com certeza que Deus atendia as suas orações. Ana podia dizer: “O Senhor ouviu a minha súplica” e eu tive o meu filho Samuel; Daniel podia dizer: “O Senhor ouviu a minha súplica” e nos revelou o sonho de Nabucodonozor e nos livrou da morte; Pedro podia dizer: “O Senhor ouviu a minha súplica” e me salvou da fúria da tempestade.

Nós também podemos dizer: “O Senhor ouviu a minha súplica” e agora estamos salvos do pecado e da morte, e temos a esperança da salvação e a certeza da vida eterna. Porque a oração que Deus atende mais prontamente é a súplica por salvação pela graça e misericórdia. Você também possui esta certeza? Deus ouve as suas orações? Se isso não acontece, você pode saber por quê? Há alguma coisa que você pode mudar, a fim de conseguir as respostas para as suas orações?

Você tem esta certeza? Você já passou pelo medo, pela salvação, pelo cansaço, e pela certeza? Você está baseado na graça de Jesus Cristo para a sua salvação? Tem o sangue de Cristo para libertá-lo? Se não, por que não dizer: “Senhor, tem compaixão de mim!”, e “Salva-me por Tua graça!”? 

Pr. Roberto Biagini
Mestrado em Teologia
prbiagini@gmail.com
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sexta-feira, 10 de maio de 2013

CONDUTA CRISTÃ


INTRODUÇÃO

A verdadeira religião é essencialmente prática. Cristo a definiu como sendo a dedicação de amor supremo a Deus, e ao próximo como a si mesmo (Mat. 22:27-39).

Na verdade, "a amabilidade do caráter de Cristo se manifestará em Seus seguidores" (Caminho Para Cristo, p. 51); pois "como se poderia viver do amor de Deus e não amar?" (Gaugler, citado em : Franz J. Leenhardt. Epístola aos Romanos, p. 317).
"Religião não consiste meramente num sistema de áridas doutrinas, mas na fé prática, que santifica a vida e corrige a conduta no círculo familiar e na igreja." (Testimonies, vol. 4, p. 337).

"A influência da religião bíblica não é uma influência entre outras: tem de ser suprema, penetrando em todas as outras e dominando-as." (O Desejado de Todas as Nações, p. 312).

Significa exemplificar o caráter de Cristo na vida diária.

Santificação é comunhão e conduta – comunhão com Deus e uma conduta em conformidade com a Sua vontade.

"A oração de Cristo por Seus discípulos pouco antes da Sua crucifixão foi: 'Santifica-os na verdade; a Tua palavra é a verdade.'
A influência da verdade deve afetar não meramente a compreensão, mas também o coração e a vida. A genuína religião prática levará o seu possuidor a controlar suas afeições. Sua conduta exterior deve ser santificada pela verdade." (Testimonies, vol. 4, pp. 371 e 372).

Mas quais são as orientações bíblicas sobre a conduta cristã ideal?

I – A  CONDUTA  CRISTà IDEAL

A – As Virtudes Recomendadas

a)Em Rom. 12:9-21 encontramos algumas das evidências da aplicação prática da doutrina da justificação pela fé na vida do cristão e em seu relacionamento com os seus semelhantes:

1. O amor deve ser plenamente sincero. Não deve haver no amor cristão hipocrisia, simulação ou motivos ocultos (verso 9).
2. Devemos aborrecer a mal e amar o bem (verso 9).
3. Devemos ser afetuosos uns com os outros em amor fraternal (verso 10).
4. Devemos dar-nos uns aos outros a prioridade da honra (verso 10).
5. Não devemos ser remissos no zelo (verso 11).
6. Devemos ser fervorosos de espírito (verso 11), pois Cristo não pode suportar os que são frios ou mornos (Apoc. 3:15 e 16).
7. Devemos agir sempre como servos do Senhor (verso 11).
8. Devemos regozijar-nos na esperança cristã (verso 12).
9. Devemos enfrentar as tribulações com paciência (verso 12).
10. Devemos perseverar na oração (verso 12).
11. Devemos compartilhar com os outros que estão em necessidade (verso 13).
12. Devemos ser hospitaleiros (verso 13).
13. O cristão deve suportar a perseguição, orando por aqueles que o perseguem (verso 14).
14. Devemos simpatizar com os sentimentos de nossos semelhantes, alegrando-nos com os que se alegram e chorando com os que choram (verso 15).
15. Devemos viver em harmonia (verso 16).
16. Devemos evitar todo esnobismo e orgulho (verso 16)
17. Devemos ser humildes (ver. 16).
18. Devemos fazer com que a nossa conduta tenha boa aparência. A conduta do cristão não só deve ser boa, como deve também demonstrar isto (verso 17).
19. Devemos, se possível e quanto depender de nós, viver em paz com todos (verso 18).
20. Devemos afastar de nossa mente todo e qualquer pensamento de vingança (verso 19).
21. Devemos retribuir o mal que nos é feito com o bem (versos 20 e 21).

b) Essas virtudes que o apóstolo São Paulo recomenda em Rom. 12:9-21 são uma ampliação e uma elucidação do fruto do Espírito, que encontramos em Gál. 5:22 e 23.

c) Nesta seção o apóstolo S. Paulo apresenta princípios semelhantes aos que Cristo apresentou no Sermão da Montanha (Mat. 5 a 7).

"O apóstolo Paulo mostra-nos que esse princípio do amor cristão deve ampliar-se, abarcando até mesmo o mundo exterior, não servindo de regra de conduta apenas para a vida religiosa da comunidade cristã. Deus amou o 'mundo', isto é, a comunidade inteira; e espera-se dos crentes a mesma amplitude de amor. E isso lhes compete até mesmo quando os objetos amados são seus perseguidores." (Russell N. Champlin. O Novo Testamento Interpretado Versículo par Versículo, vol. 3, p. 819).

ILUSTRAÇÃO

"Há muitos anos, dois amigos muçulmanos, Abdala e Sabat, Partiram da Arábia para tentar a sorte. Dentro de algum tempo, Abdala foi designado para uma elevada posição no governo de Zeman Shah, rei de Cabul. Enquanto isso, Sabat, foi a Bucara em busca de riqueza e posição, e os dois amigos perderam o contato um com o outro.

Um dia Abdala recebeu uma Bíblia, provavelmente de um missionário americano. Leu-a e se converteu. Naquele tempo, a aceitação do cristianismo por um muçulmano de alta posição social significava a morte. Portanto, Abdala procurou cuidadosamente ocultar o fato de que mudara de religião. A despeito, porém, de seus esforços, seu segredo acabou sendo descoberto, e sua vida corria perigo. Ele decidiu fugir e buscar segurança numa comunidade cristã situada perto das praias meridionais do Mar Cáspio. Saiu disfarçadamente de Cabul, mas encontrou-se casualmente com seu velho amigo Sabat, numa das ruas de Bucara, e foi reconhecido por ele.

Sabat, devoto maometano, ouvira falar da conversão de Abdala. Repreendeu-o por tornar-se cristão e ameaçou entregá-lo às autoridades, esperando que isso levasse seu amigo a abandonar o cristianismo. Receoso de perder a vida, Abdala implorou que Sabat o deixasse fugir, mas este último foi inexorável. Mandou que prendessem a Abdala e o conduzissem a Marad Shah, rei de Bucara. Ele foi julgado e condenado à morte, e anunciou-se a hora e o local da execução. Grande multidão, entre a qual se achava Sabat, reuniu-se para observar a cena. Ofereceram a vida a Abdala sob a condição de que rejeitasse o cristianismo, mas com inesperada coragem recusou fazê-lo. Cortaram-lhe uma das mãos e novamente lhe ofereceram a vida sob a condição de que se retratasse. Replicou que nunca poderia fazer isso, e deceparam-lhe a outra mão. Ofereceram a vida a Abdala pela última vez. Sua única reação foi olhar para Sabat com lágrimas de perdão nos alhos. Curvou então a cabeça e recebeu o golpe de morte.

Sabat não pôde apagar da memória o olhar perdoador de seu amigo. Cheio de pesar e remorso, ele saiu de Bucara e vagueou dum lugar para o outro buscando paz, mas não conseguia encontrá-la. Finalmente foi para a Índia, onde travou conhecimento com alguns missionários cristãos e aprendeu o significado do perdão. Aceitou o Cristo de Abdala e acabou encontrando a paz que vinha procurando há muito tempo." (Donaldo E. Mansell. Meditações Matinais – 1982, p. 336) .

d) Que exemplo maravilhoso o de Abdala, do genuíno amor que leva a amar os próprios inimigos! . . . Na verdade, "o mundo necessita de ver nos cristãos uma evidência do poder do cristianismo." (Obreiros Evangélicos, p. 29).

II – CONSELHOS  BÍBLICOS  SOBRE  AS  RELAÇÕES  SOCIAIS

A – Quanto ao Relacionamento Familiar

a) Maridos – Efés. 5:25 e 28
– "Quando o esposo tem a nobreza de caráter, a pureza de coração, a elevação de espírito que cada cristão deve possuir, isto se revelará na associação matrimonial." (O Lar Adventista, p. 125).
b) Esposas – Efés. 5:22
– A submissão da esposa ao seu marido "deve estar na base da indicação de Deus: 'Como ao Senhor.'. . . Mas não foi desígnio de Deus que os maridos dominassem como cabeça do lar, quando eles próprios não se submetem a Cristo." (Idem, pp. 116-117)
c) Filhos – Efés. 6: 1 e 2
– A expressão "no Senhor" indica que os filhos devem preferir a vontade do Senhor à de seus pais, caso esta não esteja em conformidade com a vontade divina.
d) Pais – Efés. 6: 4
– A verdadeira disciplina é o equilíbrio entre o amor e a justiça.

B – Quanto ao Relacionamento Entre Empregados e Patrões
a) Empregados – Efés. 6:5-8
– Portanto a greve, que é tão comum em nossos dias, não é de forma alguma compatível com o espírito cristão a ser demonstrado pelos empregados.
b) Patrões – Efés. 6:9
– A Bíblia declara que "digno é o trabalhador do seu salário" (Luc. 10:7), e ela condena severamente os salários injustos: - Tiago 5:4

C – Quanto às Companhias (Amizades)
a) I Cor. 5:9 e 11
b) "Como uma corrente participa sempre das propriedades do solo que atravessa, assim os princípios e hábitos dos jovens tomam invariavelmente a cor do caráter de suas companhias." (Conselhos aos Professares, Pais e Estudantes, p. 198).
c) "Os jovens que estão em harmonia com Cristo, escolherão companheiros que os auxiliem a proceder bem, esquivando-se à sociedade que não contribui para o desenvolvimento dos retos princípios e desígnios nobres." (Mensagens aos Jovens, p. 422).

D – Quanto ao Namoro
a) 1 Tess. 4:4-7
b) Prov. 5:3 e 8
c) "Se desejas sinceramente a glória de Deus, agirás com decidida cautela. Não tolerarás que um doentio sentimentalismo amoroso te cegue a visão por tal forma, que não possas discernir os altos direitos de Deus sobre ti como cristão." (Mensagens aos Jovens, p. 438)

E – Quanto ao Casamento
a) I Cor 7:39
b) Deut. 7:3 (II Cor. 6:14)
c) "Os filhos de Deus não devem nunca aventurar-se a pisar terreno proibido. O casamento entre crentes e incrédulos é proibido por Deus." (Mensagens aos Jovens, p. 436).

F – Quanto às Reuniões Sociais
a) Tiago 4:4
b) I João 2:15-17
c) Há vários anos um bispo católico romano declarou que dentre vinte mulheres caídas, dezenove atribuíam sua queda ao baile. (D. Peixoto da Silva. Quinhentas Ilustrações Escolhidas, p. 333).
d) "Nos Estados Unidos uma pesquisa realizada entre alunas de escolas públicas do norte do Estado da Flórida revelou que em 1977, de mil garotas solteiras grávidas, 964 conceberam enquanto ouviam música 'rock'." (Revista Mocidade, Nº 303, março de 1983, p. 7).
e) Há um princípio que diz: "Pela contemplação somos transformados." E os locais de divertimentos mundanos, tais como o cinema, o baile, o teatro, os locais de jogos competitivos não são apropriados para o cristão freqüentar.

G – Quanto à Relação do Cristão com as Autoridades
a) Rom. 13:1-7
b) A função a ser exercida pelas autoridades foi instituída por Deus, porém isto não significa que todo o indivíduo que exerce essa função tenha sido aí colocado por Deus; pois há casos em que indivíduos usurpam o poder, como foi o caso de Hitler, na Alemanha.
c) Quando as autoridades são submissas à vontade divina, é dever do cristão submeter-se a elas; porém quando isto não ocorre, a sua atitude deve ser a mesma de Pedro e dos demais apóstolos diante do Sinédrio, em Jerusalém: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens." (Atos 5:29)
d) Por outro lado, não cabe à igreja envolver-se em questões políticas, pois Cristo mesmo declarou: – João 18:36

III – ORIENTAÇÕES  BÍBLICAS  SOBRE  O  VESTUÁRIO  E  OS  ADORNOS


A – Deve Haver Simplicidade, Decência e Bom Gosto
a) Tiago 4:4
b) I Ped. 3:3
c) "O caráter de uma pessoa é julgado pelo aspecto de seu vestuário." (Educação, p. 248).
d) "Não poderá ser completa nenhuma educação que não ensine princípios corretos em relação ao vestuário." (Idem, p. 246)
e) "Cristo nos advertiu contra o orgulho da vida, mas não contra sua graça e beleza naturais." (Mensagens aos Jovens, p. 352). Portanto deve havei bom gosto no vestir-se.

B – A Mulher não Deve Usar Roupa de Homem e nem o Homem Roupa de Mulher
a) Deut. 22:5
b) "Há uma crescente tendência das mulheres se aproximarem do sexo oposto, tanto quanto possível, no vestuário e na aparência, e adaptarem suas roupas de maneira bem mais semelhante às dos homens; porém Deus afirma ser isto abominação." (Testimonies, vol. 1, p. 421).

C – A Consagração e a Dedicação da Vida a Deus Envolve Também o Abandono do Uso de Jóias
a) O povo de Israel após o êxodo: – Êxo. 33:6
b) Jacó e a sua família, antes de subirem a Betel: – Gên. 35:2-4
c) "Na maioria dos casos a submissão às reivindicações do evangelho requer uma mudança decisiva em matéria de vestuário. Cumpre não haver nenhum desleixo. Por amor de Cristo, cujas testemunhas somos, devemos apresentar exteriormente o melhor dos aspectos." (Mensagens aos Jovens, p. 358).

CONCLUSÃO


Muitos cristãos desejam sinceramente mudar a sua conduta, porém parecem não possuírem forças suficientes para fazê-lo. Mas a Bíblia declara que em Jesus encontramos esse poder que tira de nós o desejo de pecar, colocando a nossa vontade em conformidade com a Sua vontade: – I João1:7; II Ped. 1:4

Que a nossa conduta exterior exemplifique a atuação interior da graça salvadora de Cristo! . . .

(Alberto Ronald Timm)
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sexta-feira, 3 de maio de 2013

SALMO 5 – DEUS É RICO EM MISERICÓRDIA

Por acaso você já fez alguma oração que não foi atendida? Você já clamou a Deus para que a sua oração fosse ouvida? Que a sua voz fosse escutada nos altos Céus? Já foi decepcionado por não ter tido uma resposta pronta e imediata de Deus?

Muitas vezes os filhos de Deus se defrontam com esse tipo de problema. Oramos a Deus e não somos atendidos como esperávamos. Clamamos ao Senhor em busca de respostas, e parece que não somos ouvidos. Os Céus se nos afiguram de bronze e nossas orações são incapazes de penetrá-los. Uma jovem, profundamente angustiada, disse ao seu pastor, num tremendo desabafo: “Pastor, as minhas orações não passam do teto. O que eu devo fazer?”

I – DEUS OUVE AS NOSSAS ORAÇÕES (v. 1-3)

Davi estava em profunda aflição. Este salmo ainda foi escrito no contexto da revolta de Absalão contra o seu pai. Então, Davi faz uma oração singular: “1 Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras e acode ao meu gemido. 2  Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a ti é que imploro.”

Ele ora para que Deus ouça a sua oração. Ele já havia orado para que Deus se manifestasse em livramento dos seus inimigos; “Salva-me, Deus meu” (Sl 3:7). Agora, ele pede, ele suplica, ele implora que Deus atenda à sua prece.

Será que Deus ouve as nossas orações? Ele sempre ouve as nossas preces. Seus ouvidos estão sempre, dia e noite, se inclinando para nos ouvir em todo o nosso mais íntimo desejo da alma. Pode ser que nem sempre vai responder exatamente como nós queremos, mas Ele vai nos atender seguramente através dos recursos infinitos da Sua onipotente graça.

Deus atendeu ao clamor do povo de Israel que vivia as maiores angústias em escravidão sob o domínio de Faraó no Egito. Ele atendeu à Ana, que era estéril, dando-lhe um filho que se tornou no profeta Samuel. Ele atendeu à oração mais curta do evangelho, quando Pedro, afundando nas águas revoltas do mar da Galiléia, clamou: “Salva-me, Senhor!” Ele atendeu à igreja primitiva quando orou pela libertação do mesmo apóstolo Pedro que dormia na prisão. E seguramente, há de responder à nossa prece, elevada ao Céu com fé humilde, para que se cumpra a soberana vontade divina.

Davi se dirige a Deus como “Rei meu e Deus meu.” Ele sempre reconheceu o reinado soberano de Deus. Ele sabia que era apenas um representante do Rei celestial, e estava pronto a depor a sua coroa diante do Eterno. A rainha Elizabeth II, quando pela primeira vez ouviu a Aleluia de Händel, quebrou o protocolo e, para admiração de todos os seus oficiais, levantou-se em humilde reconhecimento diante de Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
 
II – DEUS ODEIA AOS ÍMPIOS? (v. 4-6)

Aqui temos a base da oração de Davi para que fosse atendido: “Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal” (v.4). Deus é tão puro de olhos que não pode contemplar o mal. E os inimigos de Davi estavam praticando a maldade, e portanto, a sua oração, o seu clamor era justo.

Davi sabia argumentar com Deus, e muitas vezes nós oramos sem apresentar esses argumentos inspirados. Se a nossa causa é justa e está de acordo com a verdade e a justiça de Deus, então devemos dizer isso mesmo na nossa oração para Aquele que sonda os corações, e estamos certos de que seremos atendidos. Davi dizia: Senhor, ouve-me, porque Tu não podes permitir que os meus inimigos continuem na prática de suas perversidades! Isso não está de acordo com os Teus atributos de justiça!

O verso 5 (Sl 5:5) é uma passagem difícil: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade.” A palavra “aborreces” é uma tradução de “sâné” que significa “odiar” (Dicionário Heb. de Strong). Deus odeia a todas as formas do mal; mas não é isso o que o salmista está dizendo. Ele disse: “aborreces (odeias) a todos os que praticam a iniquidade.” Sabemos que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. De fato, a Bíblia confirma isso no texto mais extraordinário em Jo 3:16: “Porque Deus amou o mundo...”

Mas como pode Davi afirmar que Deus odeia aos ímpios? Não disse Cristo “Amai os vossos inimigos”? (Mt 5:44). Semelhantemente, como nosso Pai celestial, que ama aos Seus inimigos, fazendo nascer o Seu sol sobre maus e bons, e envia as chuvas sobre justos e injustos (v. 45), assim devemos amá-los. Não parece contradição? Há 3 maneiras para se entender isso:

1- Na Bíblia, odiar significa “amar menos”, independentemente de quem se refere. Lemos as palavras de Cristo: “Se alguém vem a mim e não aborrece (gr. miséô = detestar, odiar) a seu pai, e mãe ... não pode ser meu discípulo.” (Lc 14:26). Muitas pessoas ficaram perplexas ao ler estas palavras: como pode Cristo nos recomendar que odiemos aos pais, quando a própria Lei nos manda honrá-los? (Êx 20:12). A palavra original do grego (miséô), significa “odiar, detestar”, mas também significa “amar menos” (Cf. Dic. Grego de Strong). Mas se lermos a mesma passagem em Mateus, notamos a coerência de tal interpretação: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10:37). No caso do Salmo 5:5, Davi estaria dizendo que Deus ama menos aos ímpios do que aos justos. E todos poderiam justificar a Deus nessa atitude. Mas como funciona isto, julgo que ninguém sabe, senão só Ele. Mas ainda Ele os ama muito, dando-lhes vida, saúde, prazer, felicidade e muitos anos prósperos.

2- O segundo ponto de vista: Davi está personificando o mal que Deus abomina. Deus odeia a iniquidade. Entretanto, quando os ímpios se identificam com a iniquidade, são personificados no próprio mal que praticam. Então, dizer Davi que Deus odeia os malfeitores é o mesmo que dizer que Ele odeia o mal. E quando Ele destruir o mal num sentido escatológico, também destruirá a todos os que estão identificados e personificados com o mal. Esse fato apocalíptico e escatológico se pode ver claramente na versão de Almeida Antiga, nas palavras do v. 6: “Destruirás (futuro) aqueles que proferem a mentira; o Senhor aborrecerá o homem sanguinário e fraudulento”.

3- Outro modo de ver como pode Deus odiar aos ímpios, é pelo antropomorfismo: é uma forma de pensamento que atribui características ou aspectos humanos a Deus; é explicar a divindade em linguagem humana. Se não entendermos a Bíblia nos seus termos, jamais conheceremos a verdade. Mas é difícil traduzirmos a Divindade, em nosso idioma, porque não conhecemos a linguagem divina. Portanto, temos que usar a nossa própria linguagem, embora seja ela muito limitada para esse propósito. Se “Deus é justo” (Sl 7:11), a Sua ira e ódio tem que se manifestar contra o pecado e pecadores; mas se, ao mesmo tempo, e em igual intensidade, “Deus é amor” (1Jo 4:8), tem que revelar a misericórdia mesmo àqueles a quem odeia, sem ser contraditório. Por isso, disse Paulo: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11:33-34).

III – DEUS É RICO EM MISERICÓRDIA (v. 7)

“Porém eu, pela riqueza da tua misericórdia, entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor” (V. 7).

Davi desejava ardentemente se prostrar diante de Deus, em seu santo templo. Mas isso Ele não considerava apenas um grande privilégio, mas o resultado da riqueza da misericórdia de Deus. Ele estava bem lembrado dos seus hediondos e graves pecados, mas o seu argumento era cheio de fé, exaltando o excelso atributo do caráter de Deus que é a Sua misericórdia. Mas ele não pára aqui; ele conhece por experiência a “riqueza” da misericórdia divina.

Há sempre um “porém” na vida de Davi, pelo que ele diz: “porém eu...”. Os outros me caluniam, me perseguem, me amaldiçoam, me traem; por eles, eu estou perdido. “Porém eu, pela riqueza da Tua misericórdia...”. Os cristãos, semelhantemente, são perseguidos, roubados, caluniados, aprisionados. Mas há sempre um “porém” na vida do cristão. Há sempre um “mas Deus”. É por isso que o apóstolo Paulo dizia aos efésios: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Misericórdia é compaixão despertada pela miséria alheia. Davi se encontrava em miséria: era um rei destronado, pobre, perseguido de morte pelo seu próprio filho Absalão, ainda no contexto do Salmo 3. Ademais disso, ele estava oprimido por suas culpas, além de ouvir seus adversários dizerem que não havia escape para ele. Mas ele tem a esperança de que por essa misericórdia, ele entraria na Casa de Deus e se prostraria diante do Seu santo templo, em temor, ou em reverência. O grande anseio de Davi era poder entrar no templo que ele considerava santo, a fim de adorar ao Senhor na reverência que lhe é devida, no temor que Ele merece, por Sua glória e majestade.

Mas o que vemos em nossos dias? O que fazem os adoradores? Conversam animadamente, comentam negativamente a vida dos outros, observam as pessoas ricas e bem trajadas, menosprezam os pobres e incultos não muito bem vestidos, criticam os líderes e apresentadores, julgam os que erram, sentam e levantam várias vezes, divertem-se com um celular ligado, distraem-se com alguma criança, e a lista vai longe. Parece mais um encontro social. Onde estão os cristãos que chegavam à igreja, cumprimentavam os irmãos sem excessos, procuravam os assentos, se ajoelhavam em oração, tomavam a sua Bíblia para lê-la em silêncio e meditação, procurando um encontro com Deus? 

Mas o que falta a esses adoradores? Falta reconhecer a necessidade que eles tem da misericórdia, falta reconhecer a santidade do templo e a necessidade de reverência. Falta reconhecer o temor de Deus no Seu santo templo. “A verdadeira reverência para com Deus é inspirada por um sentimento de Sua infinita grandeza, e de Sua presença. Com esse sentimento do Invisível, todo coração deve ser profundamente impressionado. A hora e o lugar da oração são sagrados, porque Deus Se encontra ali, e, ao manifestar-se reverência em atitude e maneiras, o sentimento que inspira essa reverência se tornará mais profundo. ‘Santo e tremendo é o Seu nome’ (Sal. 111:9), declara o salmista.” (E.G.White, Mensagens aos Jovens, 251).

IV – DEUS É ÚNICO EM JUSTIÇA (vs. 8-10)

Davi faz uma petição coerente após declarar a riqueza da misericórdia divina. “Senhor, guia-me na Tua justiça!” (v. 8). Muitos pedem a misericórdia, se deleitam nela, pregam sobre ela, sonham com ela, e param nisso. O Senhor deseja que o cristão cresça, como disse o apóstolo Pedro: “antes crescei ...” (2Pe. 3:18). Ele deseja que não só reconheçamos a misericórdia divina, mas que tenhamos os nossos olhos voltados para o caminho da justiça, rogando que Deus seja o nosso Guia soberano para a justiça, a fim de que possamos andar no caminho de Deus.

O que significa a justiça de Deus e qual é o Seu “caminho”? Deus é a Fonte da justiça. Só Ele pode ser completamente justo porque só Ele é plenamente sábio e poderoso. É por isso que o salmista recorre a Ele para guiá-lo na justiça. Ele designou o Messias como “Senhor, Justiça Nossa” (Jr 23:6). Ademais, o próprio Davi no Salmo 119, nos declara o que mais é justiça: “A minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justiça.” (Sl 119:172). A Lei de Deus e todos os seus mandamentos são justiça, porque se revelam como uma expressão do caráter de Deus que igualmente é justo.

Mas por quanto tempo? Alguém poderia afirmar que essa Lei é uma questão do Antigo Testamento e que logo seria substituída na nova era messiânica. Então, Davi afirma claramente: “A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade.” (Sl 119:142). Alguém poderia ser desviado do caminho da verdade e então, duvidar da eternidade da Lei. Portanto, Davi declarou inspirado por Deus, não só o que é a justiça, como a veracidade e a eternidade da Sua santa Lei.  

Mas por que Davi roga a Deus que o guie na justiça? “por causa dos meus adversários” (v. 8). Davi não pode confiar na sua sabedoria quanto à justiça de seus atos e suplicava para ser guiado e dirigido por Deus, a fim de não se desviar em nada da justiça, por causa dos seus adversários. Ele não podia estar à vontade diante deles. Mas por quê? Como eram os seus adversários?

1- Os adversários eram falsos: “não tem sinceridade nos seus lábios” “e com a língua lisongeiam” (v. 9). Davi não podia confiar neles, nem quando se aproximavam com muitos elogios, porque sabia que eram falsos, “e proferem mentira” (v. 6). Com efeito, a sinceridade era uma virtude apreciável, no tempo de Davi e em todos os tempos. A hipocrisia, a lisonja, o falso elogio, a mentira e o suborno das palavras sempre foram censuráveis, separando os amigos verdadeiros. Davi se lembrava de alguns de seus oficiais que se diziam fiéis a ele, mas que agora estavam engrossando a fileira dos seus inimigos, zombando e escarnecendo de sua situação aflitiva.

2- Os adversários eram criminosos: “o seu íntimo é todo crimes” (v. 9), eles eram “sanguinários” (v. 6). Eles planejavam nos seus pensamentos mais secretos, e executavam a morte de inocentes. Um exemplo disso foi Joabe, que era comandante do exército de Davi. Ele era um traidor, porque fazia as coisas “sem que Davi o soubesse”, além de ser assassino: ele matou a Abner e a Amasa, grandes oficiais, à traição, com uma espada com a qual os feriu no abdômem, sem que sequer desconfiassem de suas intenções homicidas (2Sm 3:26-27; 20:10).

3- Os adversários de Davi eram corruptos: “a sua garganta é (como) sepulcro aberto”. A sepultura fechada gera a corrupção (Sl 16:10); a sepultura aberta está pronta para receber as suas vítimas e corrompê-las e destruí-las completamente; assim, os adversários estão prontos para receber-nos e levar-nos à perecer na mais sórdida corrupção. Estas palavras, entre outras, foram usadas pelo apóstolo Paulo, a fim de ilustrar a depravação universal da humanidade (Rm 3:13).

4- Os adversários de Davi eram ímpios, ou seja, também eram inimigos de Deus. Nem todos os nossos adversários são ímpios; há aqueles que nos perseguem, mas se dizem cristãos. Mas estes eram desprezadores da graça de Deus: eles eram acusados de “muitas transgressões” (v. 10). Isso indica a paciência divina frente à indiferença deles quanto à Sua misericórdia e tolerância. Deus dá muitas oportunidades para os ímpios se converterem de sua posição contrária a toda a justiça. Mas eles respondem com “muitas transgressões”, adicionando pecado a pecado e assim enchendo a sua medida da graça, que um dia se esgotará. 

5- Os adversários eram rebeldes: “pois se rebelaram contra Ti”. Ao se rebelarem contra o rei de Israel estavam se rebelando na realidade contra Deus porque Davi era um rei teocrático. O grande tema do Salmo 2 sobre a rebelião universal contra o Ungido de Deus ainda pode ser visto nestas palavras. Rebelar-se contra um representante de Deus aqui na terra, não é rebelar-se contra homens, mas contra o próprio Deus e Seu Ungido, Jesus Cristo. E isso pode ser contra uma autoridade qualquer, seja política, paterna, educacional ou eclesiástica. Muitos estão se rebelando contra políticos ou contra professores, ou contra os administradores ou pastores da obra de Deus. 

Portanto, a oração do salmista é esta: “Declara-os culpados, ó Deus! Caiam por seus próprios planos; rejeita-os... pois se rebelaram contra Ti!” Ele pede que Deus aja como o Juiz de toda a terra, a fim de aplicar a Sua justiça e dar a cada um conforme as suas merecidas obras. Ele ora para que Ele aplique a Sua sentença judicial, numa declaração legal, e sejam os adversários finalmente condenados e “caiam por seus próprios planos”, que sejam enforcados na forca que eles prepararam para os justos. Que sejam finalmente destruídos.

V – DEUS É A NOSSA PROTEÇÃO (v. 11-12)

Mas o que tem Davi para dizer sobre os justos? “Mas regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome. Pois tu, Senhor, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência.” (V. 11-12)

Esse texto é tão cheio de riqueza, que é mais claramente percebida ao respondermos a algumas perguntas:

1- O que fazem os justos? (1) Eles confiam em Deus. Aconteça o que acontecer, a sua confiança é o sinal distintivo no meio da multidão de ímpios. (2) Eles amam o nome de Deus. Quando muitos debocham, zombam, ridicularizam, tomam em vão o nome de Deus, os justos amam esse nome e são capazes de dar a própria vida por esse nome que é Maravilhoso (Is 9:6).

2- Como são protegidos os justos? (1) O justo é protegido diretamente por intervenção de Deus. “Tu os defendes”, disse o salmista. Quando Satanás nos acusa, quando os inimigos nos perseguem, quando estamos em tribulação, quando todos estão contra nós, Deus nos defende. Ele é o nosso Advogado, como disse João (1Jo 2:1). (2) O justo é protegido pelas bênçãos de Deus: “Tu, Senhor, abençoas o justo”, e “a bênção do Senhor enriquece” (Pv 10:22), e quando temos riqueza, somos protegidos. (3) Os justos são cercados de bondade: “como escudo, o cercas de Tua benevolência”. Deus é o nosso escudo. Isso nos lembra de um soldado dos tempos antigos que só se considerava realmente seguro e protegido quando tinha o seu escudo no braço esquerdo, para proteger o corpo inteiro. Assim são protegidos os justos por Deus, que ainda nos cerca de Sua bondade. Como nos cerca a Sua bondade? Qual é a fonte de Sua bondade? Estas são as palavras inspiradas do apóstolo Paulo: “a suprema riqueza da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.” (Ef 2: 7).

3- Como vivem justos? (1) Eles se regozijam. Eles são alegres, mesmo em tempo de tribulação, como acontecia com Davi. (2) Eles descansam em alegria eterna: Eles folgam de “júbilo para sempre”. “Alegria eterna coroará as suas cabeças” (Is 35: 10). (3) Eles se gloriam em Deus: “Em Ti se gloriem”. Uma coisa é se gloriar nas bênçãos; outra coisa é se gloriar no Benfeitor. O noivo se gloria na noiva; os justos se gloriam em Deus. Eles são realmente muito felizes, porque tem a Deus como supremo Salvador e Senhor.

Certo homem tinha um hábito muito desagradável para a sua família e para outras pessoas de sua igreja. Cada vez que ele ficava animado com um assunto da Bíblia, ele gritava com toda a força dos seus pulmões: "Glória aleluia!" E os outros olhavam e ficavam meio constrangidos; e os filhos pensavam: "Por que é que o papai não fica quieto?"

E não era somente na igreja. Às vezes na rua alguém falava alguma coisa da Palavra de Deus, e ele ficava animado, e de repente ele começava a gritar e dizia: "Glória aleluia!"

E às vezes, dentro do ônibus, ele pegava a Bíblia começava a ler e quando encontrava alguma coisa maravilhosa, de repente, sem se importar com quem estava olhando, sem se importar com quem estava perto, ele dizia: "Glória aleluia!" E todo o mundo ficava rindo. E os seus filhos diziam: "Por que papai não fica quieto? Todo o mundo está olhando, nós estamos envergonhados."

E um dia o seu filho o levou para um consultório médico. E o seu filho foi lá fazer uma consulta. E olhou logo de relance para ver se tinha alguma Bíblia, porque ele disse: "Se tiver alguma Bíblia aqui, o meu pai vai começar a gritar e eu vou ficar envergonhado."  E o deixou ali na sala de espera. E encontrou um livro de Geografia e entregou esse livro para o seu pai. E ele disse: "Ah, o meu pai não vai encontrar nada neste livro para gritar."

Então o seu filho foi fazer a consulta. E ele estava lá dentro com o médico, fazendo a consulta, quando de repente ouviu lá da sala de espera o seu pai gritando: "Glória aleluia!" E então ele saiu correndo e disse: "Papai, o que houve? Por que é que o senhor está gritando agora? O que é que este livro tem que desperte todos esses gritos?"  "Ah – disse o pai – eu li neste livro que há um lugar no Japão em que o mar tem milhares de quilômetros de profundidade. E a Bíblia diz que os nossos pecados estão lançados lá nas profundezas do mar. Veja, meu filho, quanta água em cima dos meus pecados."

Amigo, você já aceitou esse perdão maravilhoso de Deus em Jesus Cristo, que morreu para me salvar e salvar a você também? Já deu glórias a Deus por Seu perdão, lançando os seus pecados nas profundezas do mar? Você está se gloriando e se regozijando em Deus? Confia nEle que o ama com eterno amor.

Pr. Roberto Biagini
Mestrado em Teologia
prbiagini@gmail.com
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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Gematria: uma numerologa bíblica na genealogia de Jesus em Mateus

O relato do evangelho de Mateus inicia com uma genealogia[1]. Para muitos na atualidade uma genealogia é lida de forma apressada, passada por alto ou simplesmente ignorada.  Entretanto, devemos ter em mente que o escritor do evangelho, Mateus, foi um judeu, logo, precisamos refletir sob a importância da genealogia para um hebreu.

Segundo Mounce (1996, p.15), “o povo judeu dos dias de Jesus atribuía grande importância a registros genealógicos. Tais registros eram guardados pelo Sinédrio, e utilizados com o objetivo de manter a pureza da descendência”.Barclay expõem  que Flávio Josefo, o conhecido historiador judeus que serviu a corte de romana, iniciou uma autobiografia com uma listagem de seus ancestrais. Segundo Hendriksen, as genealogias para um judeu sempre foi considerada de grande importância por vários motivos, entre eles:

1º Transferência de propriedade

Depois da conquista de Canaã, a principal importância estava relacionada a posse de terras. A genealogia era fundamental para determinar o local de residência da família visto que a ocupação da terra era orientada por mandamento divino segundo as tribos, as famílias e as casas dos pais (Nm 26:52-56; 33:54). Caso alguém viesse a estabelecer-se em num outro território que não fosse o vseu próprio, poderia ser qualificado como desertor (Jz 12:4). Sob tais condições, a transferência de propriedade requeria acurado reconhecimento da linhagem (Rt 3:9, 12, 13:4:1-10).

2º Sucessão real

Outro fator de relevância da genealogia deu-se mais tarde, em Judá, quando a sucessão real estava vinculada à linhagem davídica (1Rs 11:36 15:4). Todo e qualquer representante monárquico da nação judaica deveria antes de ser entronizado, ser submetido a uma análise de sua genealogia. Se ele não fosse do tronco de Davi, não poderia assumir o reino.

3º Prerrogativas sacerdotais

Durante o cativeiro babilônico os israelitas no exílio deixaram de ter a prática sacrifical e manutenção do templo. Ao término do cativeiro caso uma pessoa pretendesse possuir prerrogativas sacerdotais tinha que provar sua linhagem sacerdotal. Segundo Esdras 2:62, caso a pessoa não conseguisse provar sua linhagem ela ficaria excluída do ofício de sacerdote.

4º Registro

No período da diáspora outra característica se somou a importância da genealogia. O cumprimento do dever em conexão com o registro geral ou “alistamento” descrito em Lc 2:1-4, este requeria conhecimento do rol de ancestrais.

No AT encontramos genealogias em muitos capítulos como: Gn 5, 10, 22, 25, 29, 30, 35 e 46; Êx 6; Nm 1, 2, 7, 10, 13, 26, 34; Js 7, 13; Rt 4; 1Sm 1, 14; 2Sm 3, 5, 23; 1Rs 4; 1Cr 1 a 9, 11, 12, 15, 23 a 27; 2Cr 23, 29; Ed 2, 7, 8, 10; e Ne 3, 7, 10, 11, 12. Tantos relatos demonstram, entre outras coisas,  a grande importância que a genealogia tinha para um judeu.  Como visto a genealogia para um judeu era de grande importância, seja para negociação de propriedades, instituição do rei, ter prerrogativas para o ofício sacerdotal  ou cumprimento do dever de registro.

Porém é tudo que a genealogia de Cristo apresentada no evangelho segundo Mateus tem oferecer? Existiria algo a mais na relação genealógica relatada por Mateus?

O propósito do evangelho de Mateus nos ajuda a compreender um pouco melhor sobre outros objetivos de sua genealogia.

Para Andanez[2] o publico alvo do evangelho de Mateus são seus irmãos judeus, portanto, escreveu seu relato com alguns pontos de contato com os escritos rabínicos. Tais similaridades com os textos rabínicos ajudavam a diminuir a resistência de seu público alvo, sendo assim seu propósito poderia ser melhor atingido.

Propósito do evangelho de Mateus

Segundo Shedd[3], Mateus “descrevendo as origens de Nosso Senhor até Davi, vê-se que o propósito era o de mostrar que as promessas feitas a Davi, como progenitor do Messias, são cumpridas em Jesus Cristo”.

Andanez apoia afirmando que o principal objetivo de Mateus é apresentar a nação judaica que Jesus é o Messias, o novo Moisés e o novo Israel. O cumprimento de Lei e dos Profetas.

Em seu evangelho Mateus quer apresentar Jesus como o Messias prometido e tão aguardado. E isto ele o faz desde a primeira frase de seu escrito.

“Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” (Mt 1:1)

Logo no início Mateus estabelece três pilares de grande importância para à história da família de Jesus:

1º Jesus era filho de Davi (portanto, da linhagem real);

2º Jesus era filho de Abraão (pertencia ao povo de Deus);

3º Jesus é o Cristo. Terminologia grega equivalente ao termo hebraico Messias[4];

O título filho de Davi ocorre com frequência em Mateus. Para Mounce a expressão “filho de Davi” era um costume judaico que correspondia a um título messiânico, o qual apontava para a vinda do Messias tão esperado da linhagem davídica.

O primeiro verso é apresentado com uma linha, a qual será responsável pela tecelagem de todo o evangelho de Mateus, durante todo o evangelho é apresentado que Jesus é o messias davídico. Na genealogia isto também é notável.

Particularidade da genealogia

Após a relação de nomes Mateus finaliza seu relato da genealogia de Jesus dizendo:

“Assim, ao todo houve catorze gerações de Abraão a Davi, catorze de Davi até o exílio na Babilônia, e catorze do exílio até o Cristo” (Mt 1:17)

A genealogia de Jesus é organizada de uma maneira no intrigante. Por que fazer três divisões? E, por que aparece três vezes o quantitativo catorze?

Segundo Barclay as divisões não foram produto do acaso, foram pensadas pelo autor.

  • A primeira etapa culmina com Davi. Davi foi o homem que fez do povo de Israel uma nação poderosa, foi o responsável por converter os judeus em uma potência mundial. A primeira seção leva a história até o momento do rei maior dos judeus.
  • A segunda seção descende até o exílio em Babilônia. É a etapa que registra a vergonha, tragédia e desastre da nação hebraica.
  • A terceira seção chega até Jesus Cristo. “Jesus Cristo foi a pessoa que liberou os homens de sua escravidão e os resgatou de seu desastre, em quem a tragédia se converte em triunfo”.

Ainda para Barclay o arranjo de listas com 14 “Trata-se de uma lista mnemotécnica, quer dizer, ordenada de maneira que seja fácil memorizá-la.” p. 16. Este agrupamento apresentado pelo escritor foi feito de modo arbitrário por conveniência.

Tal situação pode ser confirmada com a omissão de alguns nomes[5] de destaque na história dos descendentes de Davi, nomes como dos reis de Judá Acazias, Joás e Amazias. Tal arranjo realizado pelo autor foi feito sob o objetivo de manter-se o numero de 14. Ou seja, a lista é seletiva.

Isto dito, devemos voltar a nosso questionamento anterior. Por que agrupar a genealogia de Cristo em 3 grupos com 14 pessoas cada? Alguns eruditos apontam que a real e melhor solução esteja apoiada na criatividade do escritor bíblico. Segundo Paroschi, o escritor bíblico pode estilizar sua mensagem para alcançar determinado propósito. Para Paroschi ainda, a insistência no numeral 14 comunica uma mensagem muito peculiar aos hebreus.

Qual o significado de numero 14 para um hebreu?

Os hebreus não possuíam números em seu sistema de escrita, assim sendo,  usavam as letras como numerais cada uma com um valor estabelecido (como se nós representássemos o 1 mediante A, o 2 mediante B, etc.).

Por vezes o resultado do somatório dos numerais correspondentes a um nome  tomavam proporções maiores do que de um simples número, passava a simbolizar, indicar ou representar a própria pessoa ou palavra.

Segundo Sakenfeld, a enorme variedade de maneiras em que o mundo antigo compreendia  a potência mágica e religiosa de números e numeração pode ser ilustrado pelo método de gematria.

Ainda para Sakenfeld a gematria é “uma abordagem comum utilizada em todas instâncias convencionais e triviais na vida do dia-a-dia para as sofisticadas especulações religiosas numerológicas de escribas e mestres”.

Para Paroschi, gematria é “uma antiga forma de numerologia, uma mistura de matemática com literatura. No caso da bíblia, uma mistura de matemática com teologia. Um numeral é um acessório para reforçar ideias, porém não em uso místico”.

Tal situação ocorre algumas vezes ao longo do texto bíblico, como:

  • No livro Eclesiastes: em todo o livro do Eclesiastes apalavra que mais se repete é vaidade, tal palavra em hebraico[6] corresponde a hebel, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: H=5, B=2, L=30. Se somarmos as consoantes H+B+L, ou seja, 5+2+30, a resultante é 37 e a palavra vaidade (hebel) aparece 37 vezes no livro.
  • No livro de Gênesis, no capitulo 46 é citado Gade filho de Jacó. As consoantes em hebraico são transliteras para G e D, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: G=3, D=4. Se somarmos as consoantes G+D, ou seja, 3+4, a resultante é 7. É interessante notarmos que Gade foi o sétimo filho de Jacó e que ele também teve sete filhos.
  • O fundador da dinastia Davídica também apresenta uma interessante relação numérica que ajuda a dar luz sobre a genealogia de Jesus em Mateus. O substantivo próprio Davi, possui seu original em hebraico como David, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: D=4, V=6, D=4. Se somarmos as consoantes D+V+D, ou seja, 4+6+4, a resultante é 14. Tal número é tratado com destaque em Israel por simbolizar o grande rei Davi, o qual de sua linhagem viria o Messias davídico.

A genealogia de Jesus relatada em Mateus apresenta esta realidade. Através dos numerais catorze, o autor transmite uma mensagem muito importante para todo o seu relato. Ele relaciona Jesus a um personagem muito importante na história de Israel, conforme visto, o rei Davi. E Jesus seu sucessor, poderia ser o Messias tão aguardado.

Considerações finais

Conforme aqui abordado, uma genealogia é de grande validade para os judeus, entre os fatores de importância estão a transferência de propriedade, a sucessão real, prerrogativas sacerdotais e o registro e alistamento. O propósito do evangelho de Mateus foi conquistar os judeus para Cristo, aproximando aqueles que ainda não haviam se convertido ao cristianismo e fortalecendo a fé dos judeus que já tinham aceitado. Para tanto, ele apresenta Jesus cumprindo todas as prerrogativas e requisitos do Messias. Em última instância ele apresenta Jesus como o Messias davídico por tanto tempo aguardado.

Para os judeus, os números assumem uma expressão muito maior do que meramente algarismos. Em grande medida eles estão relacionados com mensagens de fácil interpretação para qualquer judeu familiarizado com história e cultura da nação hebreia. Ou seja, um numeral assume o papel de um acessório para reforçar ideias, o que é classificado como gematria.

Tal situação é presente em várias partes do texto bíblico, como na referência a palavra vaidade em Eclesiastes, onde o somatório das consoantes totalizam 37 e tal palavra aparece 37 vezes no livro. No caso de Gade, cuja consoantes é totalizada em 7. Ele foi o sétimo filho de Jacó, e possuiu sete filhos.

O relato da genealogia de Jesus em Mateus está organizado propositalmente,agrupando os participantes desta genealogia em três grupos com catorze nomes em cada. O qual faz uma relação direta com o fundador da dinastia davívica, Davi possuiu o somatório de suas consoantes em catorze. Tal grupamento se deve ao propósito do livro de Mateus de apresentar Jesus como o Messias davídico.

Mateus em todo seu evangelho apresenta Jesus como o salvador do mundo, o grande prometido, o Rei do qual o seu reino jamais passará. E ele o faz desde o primeiro capítulo de seu livro. A genealogia relatada, além de apresentar os ancestrais de Jesus, tem o objetivo de gritar a todos os leitores que Jesus é o filho de Davi, o Messias davíco, o Salvador do mundo.

Thiago Maillo

Aluno do quarto ano de teologia - UNASP 2

 Bibliografia

MOUNCE, Robert H. Novo comentário Bíblico Contemporâneo, São Paulo: Vida, 1996.

BROWN, Raymond E.; FITZMYER, Joseph A.; MURPHY, Roland E. Comentario  Bíblico San Jeronimo, Madri: Ediciones Cristiandad, 1972.

COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Discionario Internadional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2009.

HAGNER, Donald A. Word Biblical Commentary, New York: Since, 1993.

HENRY, Matthew. Commentary on The Whole Bible, Michigan/USA: Zondervan,1975.

PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everett F. The Wycliffe Bible Commentary, Chicago: Moody Press, 1968.

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Hagnos, 2009.

LUZ, Ulrich. Matthew 1-7 a Commentary. Augsburg Fortress/MN:   , 1989.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testameno, Belo Horizonte/ MG: Atos, 2008.

DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia, São Paulo: Vida Nova, 1997.

HENDRIKSEN, William. Comentário Novo Testamento Mateus Volume 1, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo Novo Testamento Volume 1, Santo André/SP: Geográfica, 2006.

HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento, Curituba/PR: Evangélica Esperança, 1996.

TASKER, R. V. G. Mateus Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova, 1991.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo,      : Candeira,     .

BARCLAY, Willian. Comentário do Novo Testamento,

VINE, E. W.; UNGER, Merril F.; JR, Willian White. Discionário Vine, Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

[1] Genealogia:

[2] Comentário bíblico San Jeronimo

[3] O Novo comentário da Bíblia, p 948.

[4] Beacon bible commentary, 27.

[5] A segunda divisão da genealogia de Jesus inicia em Davi e finda no exílio, no evangelho de Mateus é somado apenas 14 gerações, entretanto segundo relato de1Cronicas 1-3, que corresponde ao mesmo período indicado por Mateus, o total de gerações são 18.

A terceira divisão, a qual parte do exílio e é concluída em Jesus, é apresentado por Mateus como que somando 14 gerações, entretanto segundo Lucas 3:23-27 – nos é mencionado 22 gerações.

[6] Hebraico
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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A importância das datas de 508 e 538 d.C. para a supremacia papal

Resumo: As datas de 508 e 538 d.C. são muito significativas para os adventistas do sétimo dia. A primeira é tradicionalmente reconhecida como o início dos 1.290 e 1.335 dias/anos de Daniel 12:11 e 12, e a segunda, como ponto de partida dos 1.260 dias/anos de Apocalipse 11:3 e 12:6. O presente artigo descreve o contexto histórico dessas datas, bem como o papel exercido por eventos importantes no processo de estabelecimento da supremacia papal.

Abstract: The dates of A.D. 508 and 538 are very significant for Seventh-day Adventists. The first is traditionally aknowledged as the beginning of the 1,290 and 1,335 days/years of Daniel 12:11, 12, and the second, as the starting point of the 1,260 days/years of Revelation 11:3 and 12:6. The present article describes the historical background of those dates, as well as the rule played by major events in the process of establishment of papal supremacy.
Introdução

Uma das principais características da teologia adventista é a interpretação historicista das profecias apocalípticas das Escrituras fundamentada no assim chamado princípio dia-ano de interpretação profética.2 Baseado na ideia de que cada dia profético representa um ano literal, as 70 semanas de Daniel 9:24-27 devem ser vistas como sendo 490 anos; os 1.260 dias de Apocalipse 11:3 e 12:6 (ver também Dn 7:25; 12:7; Ap 11:2; 12:14; 13:5), como sendo 1.260 anos; os 1.290 dias de Daniel 12:11, como sendo 1.290 anos; os 1.335 dias de Daniel 12:12, como sendo 1.335 anos; e as 2.300 “tardes e manhãs” de Daniel 8:14,3 como sendo 2.300 anos.

Tradicionalmente, os adventistas do sétimo dia apontam o ano 508 d.C. como sendo o início dos 1.290 e dos 1.335 anos, e, 30 anos depois, o ano 538 d.C. como sendo o início dos 1.260 anos.4 A principal data de referência para esses cálculos tem sido o ano de 1798 d.C., quando o papa Pio VI foi capturado e aprisionado na França, vindo a morrer no exílio.5 Subtraindo os 1.260 anos de 1798, os intérpretes adventistas chegaram até o ano de 538. Tirando 1.290 anos de 1798, eles chegaram ao ano de 508. Enquanto que os 1.290 e os 1.260 anos tiveram seu término no mesmo ano de 1798, os 1.335 anos são contados como terminando 45 anos depois, entre 1843-1844 (veja o diagrama abaixo).

Embora a data de 1798 esteja bem estabelecida pelo importante evento que foi o aprisionamento do papa, o significado de 508 e 538 tem sido questionado por diversos intérpretes críticos que consideram essas datas como destituídas de um sentido histórico mais relevante.6 Mas, se vistas dentro do amplo contexto de estabelecimento da supremacia papal, as datas tomam sentido como importantes expressões desse processo.

Entre os estudos mais relevantes das fontes históricas que sustentam essas datas figuram os de Uriah Smith, intitulado The Prophecies of Daniel and the Revelation (1944),7 e a dissertação de mestrado de C. Mervyn Maxwell, sob o título “An Exegetical and Historical Examination of the Beginning and Ending of the 1260 Days of Prophecy with Special Attention Given to A.D. 538 and 1798 as Initial and Terminal Dates” (1951).8 Mas parece evidente que essas investigações poderiam ser ampliadas, levando-se em consideração uma perspectiva histórica mais ampla.

Diante disso, a presente investigação visa a prover uma contextualização histórica progressiva, que nos permita ver mais claramente o grau de validade das datas de 508 e 538 no contexto da interpretação profética. Devido às limitações de tempo e espaço, esta investigação se detém apenas nos principais desenvolvimentos históricos relacionados com o assunto em discussão. A pesquisa bibliográfica se limitou basicamente às fontes disponíveis em língua inglesa. Estudos futuros deveriam abranger também as fontes existentes em outras línguas, especialmente em latim, alemão, francês e italiano.
O contexto histórico de 508 d.C.

Eventos históricos não podem ser analisados com propriedade sem que se reconheçam os desenvolvimentos prévios que os geraram. É evidente, portanto, que nenhuma análise crítica séria pode ser feita quanto ao uso dos anos 508 e 538 d.C. sem que se leve em consideração alguns passos significativos, prévios, rumo à união entre a Igreja e o Estado, e o crescimento da autoridade temporal do bispo de Roma. O contexto histórico do ano 508 inclui importantes eventos como a conversão de Constantino, a publicação do livro de Agostinho De Civitate Dei (A Cidade de Deus) e a conversão de Clóvis.
A conversão de Constantino

Analisando-se a história dos primeiros séculos da Igreja Cristã, percebe-se que a conversão do Imperador Constantino, em 312 d.C., não apenas se tornou um importante referencial nas relações entre a Igreja e o Estado, mas também gerou uma mudança radical no status do Cristianismo. Tendo sido perseguido no passado, o Cristianismo conseguiu certa tolerância a partir de 311 por meio de um edito imperial.9 Foi, porém, o Edito de Milão, promulgado em 313 pelos imperadores Constantino e Licínio, que concedeu aos cristãos completa liberdade de culto.10

Durante os anos seguintes, sob a liderança de Constantino, as propriedades eclesiásticas confiscadas foram restauradas à Igreja, e o “Dia do Sol” (domingo) foi imposto “como um dia de descanso e culto”. Além disso, Constantino assumiu “uma posição de liderança teológica no concílio de Nicéia, em 325, quando arbitrou a controvérsia ariana”.11

Depois que Constantino mudou a capital do império de Roma para Constanti-nopla em 330, a liderança do bispo de Roma acabou sendo deixada sozinha “durante muito tempo”, e os romanos passaram a encará-lo naturalmente como o seu legítimo “líder temporal e espiritual” em situações de crise.12

A despeito do fato de Constantino jamais haver resignado sua posição como Pontifex Maximus, principal sacerdote da religião pagã estatal,13 suas decisões já eram “um grande ponto crucial”14 na história do Cristianismo. De acordo com Daniel Walther, “embora antes de 313 fosse difícil ser um cristão, era difícil não ser um cristão após essa data”.15

O processo de conceder privilégios à Igreja foi seguido pelos imperadores subsequentes. O título de Pontifex Maximus não foi mais usado pelo Imperador Graciano. Em 380, Teodósio I promulgou “um edito tornando o Cristianismo a religião exclusiva do Estado”, e “qualquer pessoa que seguisse outra forma de culto seria punida pelo Estado”. Por meio do Edito de Constantinopla, em 392, os cultos pagãos tornaram-se ilegais. Portanto, o Cristianismo acabou se transformando finalmente na religião do Estado, e começou a perseguir o paganismo da mesma forma como o paganismo o havia perseguido antes.16
A Cidade de Deus de Agostinho

Ao mesmo tempo em que a Igreja Romana se tornava cada vez mais poderosa, o Império Romano enfrentava uma crescente fraqueza interna. Cônscio dessa realidade, Alarico invadiu a Itália com os visigodos em 401. Como as autoridades romanas não tinham mais condições de recrutar forças militares suficientes para deter as invasões desses povos bárbaros, os visigodos saquearam Roma em 410. Que a “Roma Eterna”, amada pelos deuses, fosse tratada dessa forma apenas podia ser interpretado pelos pagãos como a consequência do abandono dos seus antigos deuses, cuja adoração havia sido considerada ilegal desde 392.17

Em resposta a essa acusação, Agostinho escreveu, entre 413 e 426, sua famosa obra intitulada De Civitate Dei (A Cidade de Deus).18 Embora o livro fosse escrito originalmente para solucionar um problema específico da época, sua influência na história da Igreja Cristã vai muito além do seu tempo. Thomas Merton enfatiza o fato de que “a visão de Santo Agostinho da história é a visão mantida pela Igreja Católica e por toda a tradição católica”.19

Os historiadores concordam que Carlos Magno “encontrou na Cidade de Deus, de Santo Agostinho, uma inspiração para o Império Cristão que ele esperava reerguer no mundo transformado dos séculos 8º e 9º”.20 R. W. Collins vai além em declarar que “foi, sem dúvida, a Cidade de Deus que proveu a teoria do poder temporal do papado, com suas pretensões de domínio mundial”.21 L. P. Qualben explica que a “Cidade de Deus” exerceu uma profunda influência sobre o Cristianismo ocidental. Ela formou o pano de fundo religioso para a teoria do papado medieval. A Cúria Romana da Idade Média transformou realmente a Civitas Dei [cidade de Deus] na Civitas Terrena [cidade terrestre], representada pelo império visível da Igreja governado pelo Bispo de Roma. A “Cidade de Deus” acentuou também a forte distinção entre o sagrado e o secular, que ainda continua exercendo tão grande influência sobre a civilização ocidental.22
A conversão de Clóvis

As invasões das tribos bárbaras trouxeram não apenas um problema político para o Império Romano, mas também muitas dificuldades para as pretensões do bispo de Roma. Além da tarefa de converter muitas tribos do paganismo, havia também o problema de converter os visigodos e os lombardos do arianismo para a ortodoxia cristã.23

Mas um evento muito significativo ocorreu quase no fim do quinto século. Em 493, Clóvis I, rei dos francos, casou-se com Clotilde, princesa católica de Borgonha.24 Mesmo permitindo que seus filhos fossem batizados, ele próprio hesitava abjurar “a fé dos seus ancestrais”.25 Mas ele viu também que a Igreja Católica Romana se tornaria “o grande poder eclesiástico do futuro”, e se defrontou com a questão básica: Deveria o seu grande poder político crescer “em aliança com esse outro poder ou em oposição a ele?”26

À semelhança de Constantino,27 Clóvis começou a perceber “a força que ele ganharia se aceitasse o Cristianismo”,28 e, durante uma batalha com os alamanos, ele jurou aceitar o Deus de Clotilde e se tornar um cristão se saísse vitorioso.29 Em decorrência de sua vitória, ele foi batizado no dia de Natal de 49630 “com três mil de seus soldados pelo Bispo Remígio de Reims”31 que proferiu na ocasião as conhecidas palavras: “Inclina a tua cabeça em humildade, ó sicambriano; adora o que havias queimado e queime o que havias adorado”.32

De acordo com E. E. Cairns, “a aceitação do Cristianismo por Clóvis teria efeitos duradouros na história futura da Igreja”.33 H. Rosenberg afirma que “a conversão de Clóvis lançou os fundamentos para uma importante aliança entre o papado e os francos”.34 É evidente que “isto não significa que o papa teve imediatamente grande influência sobre a política real”, mas o fundamento foi lançado naquela ocasião, pois “foram apenas os francos que se tornaram, de todas as tribos germânicas, um amplo poder na história geral da Idade Média”.35

E. Emerton declara que

o papa ficou, por conseguinte, cheio de satisfação ao ouvir que o recém converso franco havia assumido a sua forma de fé cristã. Ele estava pronto a abençoar qualquer empreendimento deles como a obra de Deus, se apenas fosse em oposição aos pagãos arianos. Assim começou, já no ano 500, um acordo entre o papado romano e o império franco que haveria de amadurecer em uma íntima aliança, e de fazer muito para forjar toda a história futura da Europa.36

Para W. J. Courtenay, a conversão de Clóvis “transformou automaticamente as guerras de Clóvis em guerras santas contra os hereges e os descrentes”.37 Gwatkin e Whitney explicam que os bispos da Igreja de Roma exerceram a mais poderosa influência para apoiar a Clóvis em suas lutas contra as tribos bárbaras pagãs, e mesmo contra aquelas que aderiram à heresia ariana. Com tal apoio, suas guerras assumiram “o caráter de guerras religiosas – cruzadas, valendo-nos do termo usado posteriormente”.38
O ano de 508 d.C.

Em 507, Clóvis declarou guerra contra os visigodos. Ele era o agressor, e acreditava que “era uma guerra religiosa para libertar a Gália dos hereges arianos”. Reunindo suas tropas, ele fez a elas um vigoroso discurso, no qual declarou: “Entristece-me o fato desses arianos dominarem uma parte da Gália. Marchemos, com a ajuda de Deus, e subjuguemos o seu país”.39

Sem dúvida, “o elemento religioso foi muito poderoso nessa guerra”,40 “da qual dependia, humanamente falando, a supremacia do credo católico ou do ariano na Europa ocidental”.41 Após a sua vitória, em 508, Clóvis recebeu honras especiais de Roma. De acordo com Auguste Dumas, em 508, enquanto retornava daquela conquista, Clóvis veio a Tours, oferecendo suas dádivas a São Martinho. Ele viu uma embaixada vindo de Constantinopla. “Ele recebeu, de acordo com Gregório de Tours, do Imperador Anastácio, o diploma de cônsul. Na basílica de São Martinho, ele vestiu-se com uma túnica púrpura, a clâmide, e colocou um diadema sobre a sua cabeça. Então, montado em um cavalo, ele jogou alguns pedaços de ouro e de prata para as pessoas reunidas na estrada. Daquela época em diante, ele era chamado de cônsul e Augusto.” (Hist. Franc., ii, 38).42

Em realidade, Clóvis “aparece como um dos grandes gênios criativos que dão um novo rumo ao curso da história”.43 Ele “foi o fundador da primeira monarquia bárbara plenamente capaz de resistir vitoriosamente aos últimos choques de invasão e de permanecer por muitos séculos”,44 e que “se tornou um sustentáculo vigoroso do papado na baixa Idade Média”.45

Victor Duruy enfatiza apropriadamente o importante papel desempenhado por Clóvis como um grande unificador. Ele diz: Clóvis foi o primeiro a unir todos os elementos dos quais a nova ordem social seria formada, a saber, os bárbaros, aos quais ele colocou no poder; a civilização romana, à qual ele rendeu homenagem ao receber a insígnia de patriarca e cônsul da parte do Imperador Anastácio; e a Igreja Católica, com a qual ele estabeleceu a frutífera aliança que foi continuada pelos seus sucessores. O Concílio de Orleans havia sancionado essa aliança, reconhecendo a Clóvis como o protetor da Igreja, cujas isenções ele confirmou nesse mesmo concílio. O papa já havia escrito a ele: “O Senhor proveu as necessidades da Igreja por lhe conceder como defensor um príncipe armado com o capacete da salvação: sejas sempre para ela uma coroa de ferro, e ela te concederá a vitória sobre os teus inimigos”.46

George B. Adams também enfatizou o fato de que Clóvis uniu os romanos e os germanos em termos iguais, preservando cada um deles as fontes de sua força, para formar uma nova civilização. Ele fundou um poder político que haveria de unir em si quase todo o continente, e dar fim ao período das invasões. Ele estabeleceu uma íntima aliança entre as duas grandes forças controladoras do futuro, os impérios que continuaram a unidade criada por Roma, o império político e o eclesiástico.47

O mesmo autor explica o significado eclesiástico dessa aliança, na seguinte declaração:

É provável que o Império Franco poderia ter sido formado sem essa aliança. É possível também que uma organização eclesiástica comum poderia ter sido criada para todas as suas partes; mas teria sido impossível para tal igreja realizar a obra –tão importante fora das fronteiras francas como dentro delas – que a Igreja Católica levou a cabo.48

Do que foi dito até aqui, podemos concluir que (1) a conversão de Constantino foi o ponto crucial que permitiu que o Cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano; (2) A Cidade de Deus, de Agostinho, proveu o ideal filosófico que inspirou o papado a construir um poder temporal para conquistar o mundo; (3) a conversão de Clóvis I abriu as portas para a unificação político-eclesiástica que era necessária para apoiar as pretensões católico-romanas durante a Idade Média; e (4) a guerra de Clóvis e a vitória final sobre os visigodos arianos, em 508, representa um passo extremamente importante em prover um exército efetivo para a Igreja Católica Romana punir os assim chamados “hereges”.

Portanto, o que ocorreu em 508 pode ser considerado um dos passos mais significativos no processo de consolidação das pretensões temporais da Igreja Católica Romana, que atingiu sua culminância nas fortes perseguições da Idade Média.
O contexto histórico de 538 d.C.

Muitos eventos importantes ocorreram no longo processo de fortalecimento do papado. Tendo em mente o que foi dito até aqui, passaremos agora a considerar mais especificamente alguns desses eventos ocorridos desde o início do sexto século até o ano de 538. De especial relevância foi a eleição do papa Símaco e o apoio do imperador Justiniano I.
O papa Símaco

No período inicial da Igreja Cristã, todos os bispos possuíam quase que a mesma autoridade. Mas “entre 313 e 590, o bispo romano passou a ser reconhecido como o primeiro entre os iguais”. Com a ascensão de Leão I ao trono episcopal, em 440, o bispo de Roma começou a reivindicar mais explicitamente sua supremacia sobre os demais bispos. Alguns dos bispos romanos da segunda metade do quinto século eram homens poderosos, e “não deixavam passar nenhuma oportunidade que pudesse aumentar o seu poder”.49

Na passagem do quinto para o sexto século, o Papa Símaco foi “acusado de muitos crimes”, dentre os quais se destacavam o de “adultério” e o de “dissipar as propriedades da Igreja”. As acusações foram levadas ao herético rei ariano Teodorico, que convocou, com o consentimento do papa, um sínodo em 501 para tratar da questão. A despeito do fato de algumas pessoas argumentarem “que o bispo romano não podia ser julgado por qualquer outra pessoa, mesmo que fosse acusado de crimes como aqueles dos quais Símaco era acusado”, o problema não foi solucionado imediatamente. Mas finalmente, os membros de um sínodo realizado em 503 “exigiram que os oponentes e os acusadores do papa deveriam ser punidos, e saudaram a ele com altos brados de alegria”. Teodorico, rei dos ostrogodos, que estivera diretamente envolvido na solução do problema, “ordenou agora que todas as igrejas em Roma fossem entregues a Símaco, e que somente ele fosse reconhecido como bispo desta cidade”.50

Embora essas discussões tratassem mais especificamente da integridade moral pessoal de Símaco em ocupar o trono papal, a questão básica da autoridade papal também estava envolvida: poderia um papa ser julgado por um rei ou por outros bispos?

Em resposta a essa questão, havia pelo menos um “infame e extravagante bajulador de Símaco”, chamado Enódio, que chegava mesmo a ponto de asseverar “que um pontífice romano era constituído juiz em lugar de Deus, posição por ele ocupada como o subgerente do Altíssimo”.51

Embora o próprio Símaco admitisse obedecer “aos poderes temporais quando estes se limitam à esfera deles”, ele era também capaz de condenar o imperador por “apoiar a heresia”, enfatizando a sua própria superioridade sobre o governante:

Você imagina que, por ser um imperador, é permitido a você desprezar as ordenanças de Deus, e exaltar-se contra o poder de São Pedro? Compare a dignidade dos imperadores com a de um pontífice. Entre eles existe tanta diferença como entre um administrador das coisas terrestres e outro das celestiais. Embora você seja um príncipe, você recebe do pontífice o batismo e os sacramentos, e seu pedido de penitência. Em resumo, enquanto você é encarregado apenas de questões humanas, ele dispensa a você os bens celestiais. A dignidade dele, por conseguinte, é pelo menos igual à sua, para não dizer superior a ela.52
O imperador Justiniano

Justiniano I tornou-se em 527 o único imperador do segmento oriental do Império Romano, conhecido como Império Bizantino. Seus ideais políticos e eclesiásticos são bem definidos por Daniel D. McGarry na seguinte declaração: Ele era inspirado por dois grandes projetos: [1] restaurar o Império Romano ao redor do Mediterrâneo Ocidental, e [2] restabelecer a unidade da Igreja Cristã. O primeiro alvo postulava a reconquista do ocidente do Mediterrâneo; o segundo, a erradicação da heresia no Egito e na Síria.53

Mas Justiniano não via esses dois alvos como dissociados um do outro. Em realidade, ele reconhecia que uniformidade em questões seculares só poderia ser bem-sucedida com “a mesma uniformidade em questões de fé.” Portanto, “Justiniano desejava reunificar todas as ramificações da Igreja Cristã e abolir todas as heresias”.54 De acordo com James Bryce: Não apenas orgulhava-se de sua ortodoxia, como vários soberanos anteriores haviam feito, mas tinha também grande confiança em sua própria capacidade como teólogo, e tomou parte ativa em todas as controvérsias da época. Sendo um estudante diligente e uma pessoa de algumas pretensões literárias, ele leu e escreveu consideravelmente sobre assuntos teológicos.55

Algumas decisões eclesiásticas muito significativas foram tomadas por Justiniano.56 Como um “campeão da ortodoxia”, ele “proibiu impiedosamente tanto o paganismo quanto a heresia”.57 R. W. Collins explica que os devotos das divindades pagãs foram privados de todos os direitos civis; assim eles não podiam exercer ofícios públicos, deixar como herança suas propriedades, ou servir como testemunha num julgamento. A pena de morte foi decretada a todos os que secretamente praticassem um culto pagão ou, uma vez convertidos, retornassem à sua antiga fé. Os filhos de pais pagãos deveriam ser tomados destes, batizados e instruídos na religião cristã. Todos os templos restantes eram convertidos em igrejas cristãs ou destruídos. Como um sopro final contra o paganismo, a Academia de Atenas, o último refúgio da filosofia pagã, foi fechada [em 529], seus professores foram dispersos, e suas doações, confiscadas.58

Considerando “a unidade da fé em um estado bem-organizado tão essencial quanto a unidade política”,59 Justiniano realizou um trabalho incomparável como “codificador e consolidador das leis preexistentes”, e como legislador, preparando “novas leis” que foram incorporadas em sua famosa Corpus Juris Civilis.60 Essa obra inclui não apenas leis civis, mas também leis eclesiásticas, por meio das quais a supremacia eclesiástica do papa foi oficialmente legalizada.61

Na segunda edição do seu Codex, publicado no dia 16 de novembro de 534,62 aparece uma carta escrita por Justiniano ao Papa João II, em 53363, na qual ele reconhece o papa como “o cabeça de todas as Sagradas Igrejas”. Justiniano inicia sua carta com as seguintes palavras:

Justiniano, Vitorioso, Pio, Feliz, Renovado, Triunfante, sempre Augusto, a João, Patriarca, e o mais Santo Arcebispo da justa Cidade de Roma: Com honra à Sé Apostólica, e à Vossa Santidade, que é e sempre tem sido lembrada em Nossas orações, tanto agora como anteriormente, e honrando vossa alegria, como é próprio no caso de alguém que é considerado como um pai, Nós nos apressamos em trazer ao conhecimento de Vossa Santidade tudo o que esteja relacionado com a condição da Igreja, uma vez que sempre tivemos o maior desejo de preservar a unidade da Sé Apostólica, e a condição das Santas Igrejas de Deus, como elas existem no tempo presente, para que permaneçam sem distúrbios ou oposições. Portanto, Nós Nos empenhamos em unir todos os sacerdotes do Oriente e sujeitá-los à Sé de Vossa Santidade, e, em consequência das questões levantadas presentemente, embora elas sejam evidentes e livres de qualquer dúvida, e, de acordo com a doutrina da vossa Sé Apostólica, são observadas constantemente com firmeza e pregadas por todos os sacerdotes, Nós ainda consideramos necessário que elas sejam trazidas à atenção de Vossa Santidade. Pois não permitimos que nada que diga respeito à condição da Igreja, embora o que cause as dificuldades seja claro e livre de dúvida, seja discutido sem que seja trazido ao conhecimento de Vossa Santidade, porque Vós sois o cabeça de todas as Santas Igrejas, pois Nós Nos empenharemos de todas as formas (como já mencionado) para aumentar a honra e a autoridade da Vossa Sé.64

É importante notar também a maneira como o papa enfatizou sua própria autoridade em uma carta escrita a Justiniano:

João, Bispo da Cidade de Roma, ao seu mais Ilustre e Misericordioso Filho Justiniano: Entre as conspícuas razões para louvar a vossa sabedoria e nobreza, Mais Cristão dos Imperadores, e um que irradia luz como uma estrela, se encontra o fato de que pelo amor do Pai, e movido pelo zelo pela caridade, tu, instruído em disciplina eclesiástica, tens mantido a reverência pela Sé de Roma, e tens subjugado todas as coisas à sua autoridade, e lhe tens dado unidade. O seguinte preceito foi comunicado ao seu fundador, isto é, ao primeiro dos Apóstolos, pela boca do Senhor, a saber: “Apascenta os meus cordeiros”. Esta Sé é, em realidade, a cabeça de todas as igrejas, como assegurado pelos preceitos dos Pais e decretos dos Imperadores, e testificado pelas palavras de vossa mais venerável piedade.65

No mesmo ano (533), Justiniano promulgou um edito “contra todos os hereges”.66 Também em 533, um acordo de paz foi firmado entre os persas e os romanos, e os laureados filósofos pagãos, que se refugiaram entre os persas após Justiniano haver decretado o fechamento da escola deles em Atenas (529), “desapareceram gradativamente nas escolas públicas e seminários de erudição, que deixaram, com o passar do tempo, de estar sobre a direção deles”.67

Uma das maiores evidências do interesse de Justiniano nas questões da Igreja pode ser observado, entretanto, “nos edifícios que ele construiu por todo o império”.68 O maior deles foi a Igreja da Hagia Sophia, ou a Igreja da Sagrada Sabedoria, que “foi designada para ser o símbolo visível do poder imperial”, e da qual o imperador considerava-se a si mesmo o representante terrestre”.69 Construída em Constantinopla e dedicada no dia de Natal de 537, esse edifício tem sido considerado “o mais magnífico monumento da arte bizantina da época” e “o mais importante edifício na história da arte cristã”.70
O ano de 538 d.C.

Como visto anteriormente, muitos eventos importantes ocorreram durante o período anterior a 538, preparando o caminho para a supremacia papal da Idade Média. Embora Justiniano houvesse reconhecido oficialmente em 533 a primazia eclesiástica do papa, a Igreja de Roma ainda não tinha liberdade política para exercer sua supremacia. Desde a queda do Império Romano (476), Roma estava sempre sob domínio de um rei ariano. Os hérulos dominaram Roma até o tempo em que o seu rei Odoacro foi assassinado por Teodorico, em 493.71 Em 534, os vândalos foram completamente derrotados por Belisário e o seu exército. Mas Roma ainda não havia sido libertada do domínio dos ostrogodos.

Em realidade, Roma, de acordo com Hodgkin, foi bloqueada por 374 dias, durante 537 e 538, pelo grande cerco dos ostrogodos. Mas por volta de 12 de março de 538, “os godos resolveram abandonar o seu cerco a Roma.”72 Herwing Wolfram esclarece que “no dia 21 de junho de 538, Belisário deixou Roma. Pouco depois, Narses, com sete mil homens, desembarcou em Picenum, provavelmente no porto de Firmum-Fermo. A superioridade numérica dos godos era agora uma coisa do passado.”73

Por conseguinte, “em 538, pela primeira vez desde o fim da linhagem imperial ocidental, a cidade de Roma estava livre do domínio de um reino ariano”.74 Isso não significa que naquela época o Império Ostrogodo sucumbiu, “mas a sepultura da monarquia ostrogoda na Itália foi cavada pela derrota desse cerco”.75

Também em 538 foi realizado o Terceiro Sínodo de Orleans,76 no qual “os bispos reunidos declararam a sua intenção de restabelecer as antigas leis da Igreja e aprovar novas leis”.77 Entre os 33 cânones, havia um (Cânone 13) no qual é dito que “os cristãos não devem se casar com judeus, nem mesmo comer com eles”;78 e outro (Cânone 28) diz:

É uma superstição judaica a noção de que é ilegal cavalgar ou dirigir no Domingo, ou fazer qualquer coisa para decorar a casa ou a pessoa. Mas os trabalhadores do campo são proibidos, de maneira que o povo tenha condições de vir à igreja e adorar. Qualquer que agir de outra forma será punido, não pelos leigos, mas pelos bispos.79

No dia 29 de junho de 538, o Papa Virgílio respondeu uma carta de Profuturo, Bispo de Braga, na Lusitânia, na qual ele “condena aqueles que se abstêm de certos tipos de carnes, alegando serem proibidas, ou más em si mesmas, como se procedessem de um princípio mau; que foi a doutrina dos maniqueus”.80

O fato de Virgílio ser levado a Constantinopla e mantido lá por sete anos (547-554),81 por não haver obedecido à vontade imperial, não significa que naquela época não houvesse um poder eclesiástico para apoiar as ambições católico-romanas. O verdadeiro problema foi que Justiniano, “que se orgulhava de seu conhecimento teológico e que tinha um amor apaixonado por sutis debates teológicos”, não estava satisfeito apenas em convocar concílios, sancionar ou revogar seus decretos, formular confissões de fé, e proferir veementes anátemas; ele estava determinado mesmo “a dominar o Papa, bem como a Igreja oriental”.82

De acordo com Bémont e Monod, À medida que o bispo de Roma estava se tornando, desta maneira, o primata indisputável da Itália, e exercendo uma função de liderança na Igreja universal, ele começou a se envolver em questões temporais, não apenas em Roma, mas também no Império, e mesmo entre os reinos bárbaros. Até o sexto século, todos os papas são declarados santos nas martirologias. Virgílio (537-555) foi o primeiro de uma série de papas a não mais trazerem esse título, que foi conferido parcimoniosamente desde aquele tempo. Dessa época em diante, os papas, cada vez mais envolvidos em assuntos temporais, não pertenciam apenas à Igreja; eles são homens de Estado, e, então, governantes do Estado.83

Platt e Drummont declaram que “poucos imperadores da Roma antiga tiveram tanto poder como o Papa durante a Idade Média”.84

Do que foi dito sobre o contexto histórico de 538 d.C., podemos concluir que (1) a despeito do fato de Símaco ter legalmente de se submeter algumas vezes ao herético rei ariano Teodorico, ele não apenas se considerava superior ao governante secular, mas chegou mesmo a se auto-denominar “juiz em lugar de Deus” e “subgerente do Altíssimo”;85 (2) Justiniano I não apenas chamou o papa de “o cabeça de todas as Sagradas Igrejas”,86 mas também legalizou oficialmente a supremacia eclesiástica do papa; e (3) foi somente em 538 que a cidade de Roma se tornou livre do domínio de qualquer reino ariano “herético”, e a Igreja de Roma foi capaz de desenvolver mais efetivamente a sua supremacia eclesiástica.

A seguinte declaração é muito significativa para se obter uma clara idéia do relacionamento entre 533 e 538, como mencionado anteriormente:

Embora esse reconhecimento legal da supremacia eclesiástica do papa seja datado de 533, é óbvio que o edito imperial não pôde se tornar efetivo para o papa enquanto o reino ariano dos ostrogodos controlava Roma e grande parte da Itália. Foi somente após o domínio dos godos ter sido quebrado que o papado teve liberdade para desenvolver plenamente o seu poder. Em 538, pela primeira vez desde o fim da linhagem imperial ocidental, a cidade de Roma estava livre do domínio de um reino ariano. Naquele ano, o reino dos ostrogodos recebeu o seu golpe mortal (embora os ostrogodos sobrevivessem mais alguns anos como um povo). Esta é a razão porque 538 é uma data mais significativa do que 533.87
Resumo e conclusões

Uma análise da história do Cristianismo revela que vários passos importantes ocorreram entre os séculos quarto e sexto no processo pelo qual a Igreja Romana tornou-se cada vez mais influente em questões seculares. Esse processo culminou na união entre a Igreja e o Estado.

No tempo de Constantino, o Cristianismo obteve liberdade de culto, tornando-se uma das religiões oficiais do Estado. Os imperadores subsequentes avançaram mais e mais na direção de transformar o Cristianismo na religião exclusiva do Estado. Após o saque de Roma pelos visigodos em 410, Agostinho escreveu sua famosa obra A Cidade de Deus, na qual ele expôs “o ideal católico de uma igreja universal em controle de um estado universal”, provendo “a base teocrática para o papado medieval”.88 A conversão de Clóvis, rei dos francos, foi um evento muito significativo em prover a unificação da Europa Ocidental para apoiar o papado durante a primeira metade da Idade Média. E a guerra de Clóvis contra os visigodos arianos e sua vitória sobre eles em 508, representa um passo importante em prover um exército efetivo para a Igreja Católica Romana punir os “hereges”.

A despeito do fato de o Papa Símaco ser fortemente acusado e ter de se submeter ao julgamento do herético rei ariano Teodorico, ele se considerava superior ao governante secular e foi chamado até mesmo de “juiz em lugar de Deus” e “subgerente do Altíssimo”.89 Já em 533, Justiniano, imperador do Império Bizantino, reconheceu a supremacia eclesiástica do papa quando o chamou de “a cabeça de todas as Sagradas Igrejas”,90 e, no ano seguinte (534), esse status foi legalizado oficialmente na segunda edição do Codex. Mas foi somente em 538 que a cidade de Roma acabou sendo libertada do domínio de um “herético” reino ariano, e a Igreja Romana foi capaz de desenvolver mais efetivamente sua supremacia eclesiástica.

Podemos concluir, com base nas discussões anteriores, que, se tomarmos os eventos ocorridos em 508 e 538 isoladamente, sem levar em consideração os seus respectivos contextos históricos, poderemos ser tentados a negar a validade de se escolher essas datas como pontos de partida para os períodos proféticos dos 1.290 e 1.335 anos, e para os 1.260 anos. Mas se considerarmos os anos de 508 e 538 à luz dos seus respectivos antecedentes históricos, perceberemos que não existe qualquer razão para negarmos a importância histórica de tais datas no longo processo de estabelecimento da autoridade temporal do Bispo de Roma.
Referências

1 Uma versão preliminar deste artigo foi publicada na Revista Teológica do Salt-Iaene 3 (janeiro-junho de 1999): 40-54. ↑

2 Conceitos úteis sobre o princípio “dia-ano” de interpretação profética são providos em William H. Shea, Selected Studies on Prophetic Interpretation, Daniel and Revelation Committee Series, vol. 1 ([Washington, DC: Biblical Research Institute, General Conference of Seventh-day Adventists], 1982); Alberto R. Timm, “Miniature Symbolization and the Year-Day Principle of Prophetic Interpretation,” Andrews University Seminary Studies 42 (primavera de 2004):149-167; publicado em português sob o título “Simbolização em miniatura e o princípio ‘dia-ano’ de interpretação profética”, Parousia 3 (nº 1): 33-46. ↑

3 Siegfried J. Schwantes demonstrou que, de acordo com Gênesis 1, a expressão “tardes e manhãs” representa “dias.” Ver S. J. Schwantes, “‘Ereb Boqer of Dan 8:14 Re-examined”, Andrews University Seminary Studies 16 (outono de 1978): 375-385. ↑

4 O desenvolvimento da compreensão inicial dos adventistas do sétimo dia dos 1.260, 1.290 e 1.335 dias-anos é apresentado em P. Gerard Damsteegt, Foundations of the Seventh-day Adventist Message and Mission (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1977): 20-25, 38-40, etc. Ver também Alberto R. Timm, “Os 1290 e 1335 Dias de Daniel”, Ministério (Brasil), maio-junho de 1999, pp. 16-18; disponível em inglês como “The 1.290 and 1.335 Days of Daniel 12,” em http://biblicalresearch.gc.adventist.org/documents/daniel12.htm. ↑

5 Ver Artaud de Montor, The Lives and Times of the Roman Pontiffs, from St. Peter to Pius IX (New York: D. & J. Sadlier, 1866), 2:486-513; Ludwig von Pastor, The History of the Popes from the Close of the Middle Ages (London: Routledge and Kegan Paul, 1953), 40:332-339; J. N. D. Kelly, The Oxford Dictionary of Popes (Oxford: Oxford University Press, 1986), 302; S. J. Watson, By Command of the Emperor: A Life of Marshal Berthier (London: Bodley Head, 1957), 67-70; Owen Chadwick, The Popes and European Revolution, Oxford History of the Christian Church (Oxford: Clarendon Press, 1981), 462-471. ↑

6 Por exemplo, Bernard Grun, em sua obra The Timetables of History, nova 3ª ed. rev. (New York: Simon & Schuster, 1991), não apresenta qualquer evento histórico significativo relacionado tanto a 508 quanto a 538 d.C. ↑

7 Uriah Smith, The Prophecies of Daniel and the Revelation, ed. rev. (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1944), 266-279, 323-334. ↑

8 C. Mervyn Maxwell, “An Exegetical and Historical Examination of the Beginning and Ending of the 1260 Days of Prophecy with Special Attention Given to A.D. 538 and 1798 as Initial and Terminal Dates” (dissertação de mestrado, Seventh-day Adventists Theological Seminary, 1951). ↑

9 Lars P. Qualben, A History of the Christian Church (Nova York: Thomas Nelson and Sons, 1940), 116. ↑

10 Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã, trad. Israel Belo de Azevedo (São Paulo: Vida Nova, 1984), 100. ↑

11 Ibid. ↑

12 Ibid., 127. Ver também M. Creighton, A History of the Papacy from the Great Schism to the Sack of Rome (Londres: Longmans, Green, and Co., 1907), 1:7-8. ↑

13 Cairns, 100. ↑

14 Qualben, 116. ↑

15 Daniel Walther, “I Believe… in the Millennium”, Review and Herald, 4 de maio de 1972, 5. ↑

16 Cairns, 100-101. ↑

17 Katherine F. Drew, “Barbarians, Invasions of”, em Joseph R. Strayer, ed., Dictionary of the Middle Ages (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1983), 2:90-91. ↑

18 Ver R. H. Barrow, Introduction to St Augustine, The City of God (Londres: Faber and Faber, [1950]), 17. Em português, ver Santo Agostinho, A Cidade de Deus (contra os pagãos) (Petrópolis, RJ: Vozes, 1990). ↑

19 Thomas Merton, “Introduction”, em Saint Augustine, The City of God (Nova York: Modern Library, 1950), ix. ↑

20 Edward R. Hardy, Jr., “The City of God”, em Roy W. Battenhouse, ed., A Companion to the Study of St. Augustine (Nova York: Oxford University Press, 1955), 257. ↑

21 Ross William Collins, A History of Medieval Civilization in Europe (Boston: Ginn and Company, s.d.), 102. ↑

22 Qualben, 126. ↑

23 Cairns, 103. ↑

24 Walter C. Perry, The Franks, from Their First Appearance in History to the Death of King Pepin (Londres: Longman, Brown, Green, Longmans, and Roberts, 1857), 75. ↑

25 H. M. Gwatkin e J. P. Whitney, The Cambridge Medieval History (Nova York: Macmillan, 1926), 2:111. ↑

26 George B. Adams, Civilization during the Middle Ages (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1914), 140. ↑

27 Cf. Brian Tierney e Sidney Painter, Western Europe in the Middle Ages: 300-1475, 3ª ed. (Nova York: Alfred A. Knopf, 1978), 54: “A história contada sobre a conversão de Clóvis é semelhante à de Constantino.” ↑

28 Gwatkin e Whitney, 112. ↑

29 Cf. Thomas Hodgkin, Theodoric the Goth; the Barbarian Champion of Civilization (Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1894), 189-190: “Clóvis, elevando os seus olhos aos céus e derramando lágrimas em agonia de alma, disse: ‘Ó Jesus Cristo!, a quem Clotilde declara ser o filho do Deus vivo, e de quem é dito dar ajuda aos abatidos e a vitória aos que em ti confiam, eu humildemente oro por tua gloriosa ajuda, e prometo que se me concederes a vitória sobre esses inimigos, eu crerei em ti e serei batizado em teu nome. Pois eu clamei aos meus próprios deuses e cheguei à conclusão de que eles não são de nenhum poder e não ajudam àqueles que os buscam.’” ↑

30 Archibald Bower, The History of the Popes (Philadelphia: Griffith & Simon, 1844), 295. ↑

31 Jean Hubert, “Clovis,” in Warren E. Preece, ed., Encyclopædia Britannica (Chicago, IL: Encyclopedia Britannica, 1971), 5:952. ↑

32 Hodgkin, Theodoric the Goth, 190. ↑

33 Cairns, 104. ↑

34 Harry Rosenberg, “The West in Crisis”, em Tim Dowley, ed., Eerdmans’ Handbook to the History of Christianity (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1977), 220. ↑

35 Adams, 135. ↑

36 Ephraim Emerton, An Introduction to the Study of the Middle Ages (375-814) (Boston: Ginn and Company, 1916), 66. ↑

37 William J. Courtenay, “Clovis I”, em The McGraw-Hill Encyclopedia of World Biography (New York: McGraw-Hill, 1973), 3:56 (grifos acrescentados). ↑

38 Gwatkin e Whitney, 112 (grifos acrescentados). ↑

39 Ibid., 113 (grifo acrescentado). ↑

40 Thomas R. Buchanan, “Clovis”, em William Smith e Henry Wace, eds., A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines (Boston: Little, Brown, and Company, 1877), 1:582: “Que o elemento religioso foi muito poderoso nessa guerra (Rückert, i. 324) é evidente da carta de Clóvis aos bispos (Bouquet, l.c.), das tentativas inúteis de Alarico para confirmar a lealdade dos seus súditos católicos e romanos (Richter, p. 39, nota 2), e do que Cassiodoro (Var. iii. Ep. 1-4) nos diz das negociações anteriores à guerra.” ↑

41 Perry, 85 (grifos acrescentados). ↑

42 Auguste Dumas, “Clovis I”, em Alfred Baudrillart, A. De Meyer e Et. Van Cauwenbergh, eds., Dictionnaire D’Histoire et de Géographie Ecclésiastiques (Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1956), 13:30. Ver também Gwatkin e Whithey, 115; Smith e Wace, 1:582-583. Cf. Jean Hubert, “Clovis”, em Encyclopaedia Britannica (Chicago: Encyclopaedia Britannica, 1971), 5:952: “Essa história [da visita de Clóvis a Tours em 508], uma vez questionada por alguns historiadores, tem sido corroborada, até certo ponto, por investigações posteriores.” ↑

43 Adams, 137. ↑

44 Victor Duruy, The History of the Middle Ages (Nova York: Holt and Company, 1904), 29. Cf. Strayer, ed., Dictionary of the Middle Ages, 2:94: “Em 508 ele [Clóvis] conseguiu eliminar todos os reis francos rivais, muitos dos quais eram parentes próximos.” ↑

45 Cairns, 104. ↑

46 Duruy, 32 (grifos acrescentados). ↑

47 Adams, 142 (grifos acrescentados). ↑

48 Ibid., 141. ↑

49 Cairns, 127. ↑

50 Charles J. Hefele, A History of the Councils of the Church, from the Original Documents (Edinburgh: T. & T. Clark, 1895), 4:59-62, 71, 74. ↑

51 John L. Mosheim, An Ecclesiastical History, Ancient and Modern, from the Birth of Christ, to the Beginning of the Eighteenth Century (Londres: Impresso para R. Baynes, 1819), 2:113. ↑

52 M. Gosselin, The Power of the Pope During the Middle Ages; or, An Historical Inquiry into the Origin of the Temporal Power of the Holy See, and the Constitutional Laws of the Middle Ages Relating to the Deposition of Sovereigns (Baltimore: J. Murphy & Co., 1835), 1:186 (grifos acrescentados). ↑

53 Daniel D. McGarry, Medieval History and Civilization (Nova York: Macmillan, 1976), 119 (grifos acrescentados). ↑

54 Shepard B. Clough, ed., A History of the Western World: Ancient Times to 1715 (Lexington, MA: D. C. Heath, 1969), 200. ↑

55 James Bryce, “Justinianus I”, em Smith e Wace, 3:545 (grifos acrescentados). ↑

56 Ver ibid., 545-551. ↑

57 Collins, 156. ↑

58 Ibid., 156-157. ↑

59 Ibid., 156. ↑

60 Ver Smith e Wace, 551-559. ↑

61 Ver LeRoy E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers (Washington, DC: Review and Herald, 1950), 1:501-517. ↑

62 Smith e Wace, 554. De acordo com ibid., 553, a primeira edição do Codex foi formalmente promulgado em abril de 529. ↑

63 Cf. Maxwell, 82-83; Richard F. Littledale, The Petrine Claims (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 1889), 291-293. ↑

64 The Code of Justinian, 2ª ed., livro 1, título 1. Republicado em S. P. Scott, The Civil Law (Cincinnati: Central Trust Company, s.d.), 12:11-12 (grifos acrescentados). ↑

65 Ibid., 12:10-11 (grifos acrescentados). Lamentavelmente, não foi possível ao autor do presente artigo descobrir a data dessa carta. ↑

66 Richard F. Littledale, The Petrine Claims (Londres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1889), 291 (grifos acrescentados). ↑

67 Mosheim, 2:109. ↑

68 Collins, 157. ↑

69 A History of the Western World, 199. ↑

70 Collins, 158. ↑

71 Thomas Hodgkin, Italy and Her Invaders (Oxford: Clarendon Press, 1896), 3:212, 620-626. ↑

72 Ibid., 4:250. Cf. Sir Edmund Barrow, The Growth of Europe Through the Dark Ages: A.D. 401-1100 (Londres: H. F. & G. Witherby, 1927), 71-72: “O cerco durou todo um ano, de fevereiro ou março de 537 a março de 538. … Os godos tentaram negociar, mas sem sucesso, e em março de 538 Vitiges suspendeu o cerco e se retirou na direção do norte.” ↑

73 Herwig Wolfram, History of the Goths, trad. Thomas J. Dunlap, ed. rev. (Berkely, CA: University of California Press, 1988), 346. ↑

74 Seventh-day Adventist Bible Commentary, 4:826-827. ↑

75 Froom, 1:515; Hodgkin, Italy and Her Invaders, 251-252. ↑

76 Ver Hefele, 204-209. ↑

77 Ibid., 205 (grifos acrescentados). ↑

78 Ibid., 207. ↑

79 Ibid., 208-209 (grifos acrescentados). ↑

80 Archibald Bower, The History of the Popes, from the Foundation of the See of Rome, to the Present Time (Londres: Impresso para o autor, 1750), 2:375-376 (primeiro grifo acrescentado). ↑

81 De acordo com A. Bower, Virgílio chegou “em Constantinopla no dia 25 de janeiro de 547” (ibid., 384), e embarcou em seu retorno a Roma, levando consigo um “Constituição datada de 13 de agosto [de 554]” (ibid., 415-416). ↑

82 Collins, 156, 158. ↑

83 Charles Bémont e G. Monod, Medieval Europe from 395 to 1270 (Nova York: Henry Holt, 1902), 120-121. ↑

84 Nathaniel Platt e Muriel J. Drummond, Our World Through the Ages (Nova York: Prentice-Hall, 1954), 141. Estes dois historiadores datam a Idade Média de ca. 500 a ca. 1500, de acordo com ibid., 134. ↑

85 Mosheim, 2:113. ↑

86 Scott, 12:12. ↑

87 Seventh-day Adventist Bible Commentary, 4:827. ↑

88 Ibid., 836. ↑

89 Mosheim, 2:113. ↑

90 Scott, 12:12. ↑

Fonte: Revista Parousia, 1° Semestre de 2005, UNASPRESS

Alberto R. Timm, Ph.D.
Professor de Teologia Histórica no SALT, Unasp, Campus Engenheiro Coelho, e diretor o Centro de Pesquisas Ellen White – Brasil
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