OPERANDO NOSSA PRÓPRIA SALVAÇÃO


Hoje estudaremos a razão principal porque reavivamentos e reformas frequentemente acabam em fracasso.

Filipenses 2:12 nos diz que devemos operar nossa própria salvação. Este texto frequentemente tem sido mal compreendido e mal aplicado, reduzindo o cristianismo a um sistema de obras. Contudo, há alguma coisa que devemos fazer.

Jeremias 29:13 revela uma de duas importantes responsabilidades humanas: "Buscar-Me-eis (...) de todo o vosso coração".

A outra exigência encontra-se revelada em Marcos 8:35: "Quem perder a sua vida por causa de Mim e do evangelho, salvá-la-á". Estas duas responsabilidades, a vida devocional diária e o trabalho em favor de outros são igualmente importantes. Elas devem andar juntas.

"Se nos entregássemos tão-somente a piedosa meditação, nossa luz se iria enfraquecendo, pois foi-nos dada para que possamos comunicar a outros, e quanto mais comunicarmos luz, tanto mais brilhante ela se tomará". – Mensagens Escolhidas, livro 1, p, 139.

Por que temos um trabalho a fazer pelos outros? Qual a razão para o testemunho cristão? Uma das razões mais frequentemente dadas para o testemunho é a grande necessidade do mundo. Esta necessidade está constantemente diante de nós. Não podemos negá-la. Mas no cristianismo tradicional, temos o hábito de "dar", "ir" ou "fazer" na proporção da eloquência e persuasividade da pessoa que apresenta a necessidade.

Às vezes recorremos a expedientes mecânicos a fim de manter todos trabalhando, e por vezes competimos uns contra outros ou esperamos reconhecimento ou recompensas. Porém quando lançamos mão destes expedientes para levar o povo à leitura da Bíblia, dar ofertas ou partilhar a fé, estamos não somente admitindo, mas também proclamando o fato de que algo se está perdendo em nossa experiência cristã.

Em 1904 foram escritas estas palavras de inspiração:
"O Senhor é bom. É misericordioso e terno de coração. Conhece a cada um de Seus filhos. Sabe exatamente o que cada um de nós está fazendo. Sabe o justo mérito de cada um. Não quereis pôr à margem vossa lista de méritos, vossa lista de condenações, deixando que Deus faça Sua própria obra? Haveis de receber vossa coroa de glória se atentardes para a obra que Deus vos confiou". – Serviço Cristão, p. 268.

Outro tipo de pessoas racionaliza sua ausência do trabalho missionário considerando-se "um tipo de crente forte e silencioso". "É preferível alguém ver um sermão do que ouvi-lo", é seu lema.

Estes crêem que sendo bons vizinhos, boas pessoas podem considerar desnecessária a necessidade de falar a outros a respeito de sua fé. Tais pessoas porém nada mais fazem do que alardear a outros sua necessidade, pois "se provamos e vimos que o Senhor é bom, teremos alguma coisa a dizer". – Caminho a Cristo, p. 78.

DOIS CRITÉRIOS

No início desta semana discutimos dois critérios por meio dos quais nosso relacionamento pessoal com Deus pode ser avaliado:

1) Quem retém nossos pensamentos? Quão frequentemente nossos pensamentos voltam-se espontaneamente para Cristo, Seu amor e bondade, sem estímulo externo? Quando dirigimos nosso carro ou estamos enfrentando a rotina diária da vida, nossos pensamentos voltam-se para Cristo e Seu amor?

2) A respeito de quem apreciamos conversar? Gostamos de assentar-nos com nossos amigos e falar a respeito de Jesus e da amizade maravilhosa que Ele representa?

"Onde quer que a vida de Deus se encontre no coração dos homens, derramar-se à em amor e bênçãos aos outros. (...) Tão depressa uma pessoa se chegue para Cristo, nasce-lhe no coração o desejo de revelar aos outros que precioso amigo encontrou em Jesus; a salvadora e santificante verdade não lhe pode ficar encerrada no coração. Se nos achamos revestidos da justiça de Cristo, e cheios do gozo proveniente da habitação de Seu Espírito em nós, não nos será possível calar-nos. Se provamos e vimos que o Senhor é bom, teremos alguma coisa a dizer". – Idem, 76- 78.

A razão porque devemos testemunhar para Cristo não deve ser simplesmente por nos haver alguém estimulado para isso. Se assim for não teremos paz. Qual é então nossa real motivação para trabalhar para Deus? É nossa experiência interior ou uma compulsão exterior?

Quando as pessoas vinham à presença de Jesus e recebiam auxílio dEle, não podiam manter-se em silêncio. Às vezes penso que talvez Jesus lhes tenha dito para nada dizerem a ninguém, embora sabendo que eles não se calariam, simplesmente para proporcionar maior contraste à incapacidade destas pessoas de esconder a inundante presença e alegria que conheciam depois de havê-Lo encontrado. Eles iam a toda parte anunciando as novas!

Qual é o propósito básico de Deus para o testemunho cristão? É para nosso benefício ou para benefício "deles"? Marcos recorda a ordem divina: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho". Marcos 16:15.

Deus nos diz para irmos. O endemoninhado que havia sido curado por Jesus na terra dos gadarenos quis ficar com Jesus. Ele porém lhe disse: "Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez, e como teve compaixão de Ti". Marcos 5:19. Ele obedeceu a essa ordem.

Qual foi o resultado? Na próxima vez que Jesus visitou os gadarenos, os que Lhe haviam suplicado para que os deixasse apressavam-se agora por dar-Lhe as boas-vindas. Eles O aguardavam em virtude do que aquele homem havia feito. Mas por amor de quem Jesus lhe dissera para testemunhar – pelo povo ou pelo próprio homem?

Jesus estava simplesmente mostrando a oportunidade que Ele já havia providenciado para o endemoninhado, agora são, sabendo que este homem jamais conteria sua alegria. No entusiasmo do momento, quando todos pudessem pensar nEle como Aquele que o curara, Jesus apontou a grande oportunidade da participação já provida por Deus. Deus tem dado a cada um de nós esta oportunidade também.

"O único modo de crescer na graça é fazer desinteressadamente a obra que Cristo nos ordenou fazer – empenhar-nos, na medida de nossa capacidade, em ajudar e abençoar os que carecem do auxílio que lhes podemos dar. A força se desenvolve pelo exercício; a atividade é a própria condição de vida. Os que procuram manter a vida cristã aceitando passivamente as bênçãos que lhes vêm pelos meios da graça, nada fazendo por Cristo, estão simplesmente procurando comer para viver, sem trabalhar. E, no mundo espiritual como em o natural, isto resulta sempre em degeneração e ruína. O homem que recusasse a servir-se de seus membros, em breve perderia a faculdade de usá-los. Assim o cristão que não exercita as faculdades que Deus lhe deu, não só deixa de crescer em Cristo, como também perde a força que já possuía". – Caminho a Cristo, 80.

UMA DISCUSSÃO DESVIADORA

Em anos recentes os teólogos têm discutido o que constitui o conhecimento salvador. Um grupo acredita que todos os que serão finalmente salvos no reino de Deus devem ter recebido "revelação especial", ou ouvido a história específica do evangelho. Sem esta revelação eles não podem ser salvos. O outro grupo diz que a "revelação geral ou natural" é suficiente. As pessoas são salvas pelo que têm feito com a luz, sem considerar quão pequena foi essa luz. Elas podem ser salvas a despeito do reduzido conhecimento do evangelho.

Nenhuma destas proposições está isenta de problemas. Por um lado há o problema de acompanhar a explosão populacional e por outro a indagação de por quê testemunhar.
É esta questão de conhecimento salvador tão importante quanto a por quê testemunhar? Seria um desvio subtrair da mente das pessoas a razão real. Se Deus necessita de nós para terminar a obra, então a questão do que constitui o conhecimento salvador é uma questão prática.

Mas Deus é limitado pelos nossos esforços? Essa é a razão por que Ele nos pede para testemunhar?

Deus pode possibilitar a outros o conhecimento do evangelho sem nosso auxílio.
"Deus poderia ter confiado aos anjos celestiais a mensagem do evangelho e toda a obra de amoroso ministério. Poderia ter empregado outros meios para realizar o Seu propósito". – Idem, p. 78.

E no final Ele o fará!

"Deus empregará instrumentos cuja origem o homem será incapaz de discernir; os anjos farão uma obra que os homens poderiam haver tido a bênção de realizar, não houvessem eles negligenciado atender aos reclamos de Deus". – Mensagens Escolhidas, livro 1, p. 118.
Então qual o propósito divino para o testemunho cristão?

"Seja qual for a necessidade que haja de nós no avançamento da causa de Deus, isto foi propositadamente arranjado por Ele para nosso bem". – Testemunhos Seletos, vol. l, pp. 369, 370.

Então Suas razões em estabelecer um completo programa mundial no qual você e eu podemos participar não é meramente para satisfazer as necessidades do mundo, mas para ir ao encontro de nossas necessidades, os testemunhos pessoais.

Quando correspondemos ao grande impulso que nos leva a "fazer", "dar", "ser" e "dizer" espontaneamente em virtude de nossa comunhão com Jesus, '"o esforço no sentido de abençoar aos outros reverterá em bênçãos para nós mesmos. Foi este o propósito de Deus dando-nos uma parte a desempenhar no plano da redenção". – Caminho a Cristo, p. 78.

Deus está bem ciente do grande princípio de que aqueles que tentam auxiliar a outros ajudam-se a si próprios muito mais. Esta é a razão porque Ele nos tem dado esta oportunidade.

Trabalhamos então para Deus a fim de salvar-nos? Não, esta seria uma razão egoísta. Nossa motivação para o testemunho advém da alegria de saber que encontramos em Jesus um Amigo maravilhoso e do desejo de partilhar esta experiência com outros. Nossa motivação será espontânea se tivermos uma genuína experiência. Mas é inteiramente possível que à medida que testemunhemos recebamos bênçãos maiores do que as concedidas aos que recebem nosso testemunho.

"Se vos puserdes a trabalhar como Cristo determina que Seus discípulos o façam, e conquistar almas para Ele, sentireis a necessidade de uma experiência mais profunda e um maior conhecimento das coisas divinas, e tereis fome e sede de justiça. Instareis com Deus, e vossa fé se fortalecerá e vossa alma beberá a mais largos sorvos da fonte da salvação. As oposições e provações que encontrardes vos impelirão para a Bíblia e para a oração. Crescereis na graça e no conhecimento de Cristo e desenvolvereis uma rica experiência. (...) Os que assim dedicarem esforços abnegados ao bem de outros estão, certissimamente, operando sua própria salvação". – Idem, p. 79.

UMA OCORRÊNCIA EM NOVA YORK

Isto aconteceu numa sombria casa pardacenta no Central Park ocidental de Nova York. Há uma mansão que há tempo se tornou um refúgio para os desesperados. Seus pacientes são dipsomaníacos* e os que se têm entregue mais profundamente aos vícios.

Numa manhã de outono um paciente do segundo andar acordou de uma batalha e deu com os olhos na face de um médico pequeno que aguardava seu despertar.
"Bom dia, Antônio!" disse o pequeno médico, puxando seu longo bigode castanho.

"Bom dia, doutor! Estou aqui novamente, hein?"
"Talvez lhe interesse saber que está aqui pela quinquagésima vez".
António forçou um sorriso doentio.
"Uma planta de meio século, não é? Creio que jamais ficarei bom, não é fato doutor?"
"Temo que sim, Antônio".
* dipsomaníaco = aquele que tem dipsomania; dipsomania = impulso mórbido periódico e irresistível que leva a ingerir grande porção de bebidas alcoólicas.
Operando Nossa Própria Salvação 7
"O.K.! O senhor não teria alguma bebida para celebrar as más novas?"
O doutor suspirou. "Vou fazer um negócio com você, Antônio. Eu lhe darei o que me pede unicamente se você primeiro fizer algo para mim".
António suspirou melancolicamente. "Devo roubar algum banco?"
"Não pense em brincadeira. Há um jovem paciente no quarto que fica no final do corredor. Eles o trouxeram ontem à noite. É a primeira vez que vem, mas não será a última se algo não for feito".
"Que posso fazer?"
"Vá até lá, cambaleie pelo corredor e deixe que ele o veja bem. Só isso. Você está um horrível exemplo esta manhã, António. Você pode amedrontá-lo e levá-lo a não beber outro copo".
"Uma grande oportunidade", zombou António, "mas é um negócio! Passe-me o roupão".
Assentado aos pés da cama do recém-vindo, Antônio, o viciado há meio século, começou a exortar o jovem. Ele não era contra a bebida. Mas havia algumas pessoas que simplesmente não podiam tomá-la. Um homem deveria descobrir isso em tempo.

UMA ESTRANHA ALEGRIA

À medida que falava ao rosto pálido afundado no travesseiro, Antônio sentia uma estranha alegria inundá-lo de zelo. Velhas verdades de sua infância vieram-lhe à mente – textos do Sermão do Monte. Solenemente ele disse ao jovem que somente um poder maior do que ele próprio, um poder externo, poderia salvá-lo.

"Não creio em poder externo", veio a resposta soturna.

"Oh, sim, você crê!" gritou Antônio em meio a uma torrente de entusiasmo. "A garrafa é mais poderosa do que você. Você não pode vencê-la por si próprio".
"O que posso fazer, senhor?" "Ore!" foi a resposta de Antônio, muito mais assombrosa para ele próprio do que para o estranho. "E então eu lhe ajudarei".

O mais estranho de tudo é que enquanto Antônio parecia estar ganhando terreno com o infeliz moço, estava realmente causando profunda impressão sobre si próprio. Quando por fim ele despertou um fio de interesse no rapaz, seu próprio sangue pulou em suas veias.

Toda manhã a curiosa dupla conversou; eles prometeram manter-se em contato; continuariam a animar-se um ao outro. Desde aquele dia Antônio tem voltado ao hospital centenas de vezes, nunca mais, porém, como paciente! Ele aparece ali, e centenas de seus companheiros vão com ele, somente para servir. Antônio descobriu naquele dia que ajudando aos outros somos úteis a nós próprios. Seu primeiro contato com aquele rapaz foi o começo, o fundamento da grande organização que ele criou e que hoje conta com milhares de casos bem sucedidos em todo o mundo, os proporcionadores de nova esperança, nova vida e nova fé – os Alcoólatras Anônimos.

Antes que você esteja salvo no reino de Deus, deverá ajudar alguém a ser salvo. É assim que o propósito de Deus para a nossa salvação será realizado.

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