VIVENDO AS PALAVRAS


INTRODUÇÃO

Não é de se estranhar que professores, pastores e outros profissionais que utilizam a palavra como ferramenta, com freqüência se perguntem por que suas mensagens nem sempre atingem o objetivo proposto.

Parece que as palavras estão se tornando espadas sem corte, incapazes de produzir as respostas desejadas.

Onde estará o problema se os métodos e os conteúdos utilizados são bíblicos e o discurso é Cristocêntrico? Por que o ensino não é eficaz se a palavra tem poder?

1) A PALAVRA TEM PODER

Sim, a palavra tem poder, e esta afirmação parece ter respaldo bíblico. "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus" (João 1:1). Esta declaração, todavia, não afirma que a palavra pura e simples tem poder.

Diz, isto sim, que Quem está por trás da palavra confere poder à palavra. Assim, podemos afirmar: Deus tem poder e se Ele for a palavra, a palavra terá poder.
Deus é a palavra porque aquilo que Deus fala é exatamente igual àquilo que Deus é.

2) A PALAVRA HUMANA

A situação com os seres criados é bem diferente. Tudo o que falamos, tudo o que praticamos, apresenta sempre duas leituras, carrega em si uma ideologia.

Assim, nem sempre as nossas ações vão na mesma direção de nossas palavras. (Nem Sempre conhecemos as nossas próprias intenções).

“Dificilmente podemos deixar de nos comunicar, com ou sem propósitos conhecido. Desde a infância aprendemos e praticamos as técnicas verbais e não verbais de influenciar e manipular o ambiente. Estes padrões de comportamento se tornam tão entranhados, tão habituais, que muitas vezes não percebemos a insistência com que procuramos manipular. Realmente, o nosso sistema de valores pode desenvolver-se de maneira tal que não gostamos de reconhecer que somos “manipuladores”, mesmo no sentido em que usamos a palavra. O que aqui se sugere é apenas que precisamos concentrar a atenção na análise da intenção, se quisermos conferir nossa conduta pelo nosso objetivo, a fim de determinarmos se estamos nos portando de forma efetiva”. (Berlo, David – O Processo da Comunicação, 23)

A Bíblia afirma que já nascemos em pecado, afirma também que enganoso é o coração do homem, e ninguém o conhece. (Jeremias 17:9)

Nós não conhecemos nosso coração, em realidade, não nos conhecemos, e isto significa que não conhecemos nossas reais intenções.

3) INEFICÁCIA DA NOSSA COMUNICAÇÃO

Pensamos muitas vezes estar agindo honestamente, quando em realidade estamos buscando inconscientemente atender a nossos obscuros e íntimos motivos egoístas. Uma vez que as palavras estão semanticamente desgastadas, nossa capacidade de expressão se torna confusa e imprecisa e como nossas reais intenções também são desconhecidas, um grave problema se levanta: a ineficácia de nossa comunicação.

Vejamos, por exemplo, a palavra amor.

Esta palavra é tanto utilizada para expressar o mais nobre dos sentimentos quanto o mais pobre deles.

Ficamos muitas vezes perdidos entre uma definição e outra. Buscamos o real sentido das palavras, mas percebemos que nos perdemos entre esses dois pontos.

Na primeira carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo faz uma intrigante afirmação.

"Ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor (caridade), nada disso me aproveitaria."

É interessante notar o impasse que o autor levanta com esta afirmação. Ele diz que ainda que demos todos os nossos bens para os pobres (isto é considerado uma atitude de amor, de caridade, compaixão), ainda que demos nosso corpo para ser queimado por uma causa ou pelo melhor dos objetivos (esta disposição de entrega também deve ser interpretada como o mais nobre ato de amor), se não tivermos amor, nada disso será de proveito. (Este verso ressalta a possibilidade de haver atos de amor, sem amor).

O que Paulo está tentando dizer é que deve ser respeitada a diferença que existe entre atos e sentimentos, porque nem sempre eles andam juntos. Podemos praticar atos que se parecem com amor e no entanto estarmos longe do verdadeiro sentido do amor. Paulo, assim, reforça a necessidade de conhecermos nossas reais intenções.

 4) SER VERSUS DIZER

Deus é a palavra. A Sua palavra se materializa quando Ele ordena, foi assim na criação, Ele falou e tudo surgiu porque Sua palavra é absolutamente igual às Suas intenções. A palavra de Deus é um retrato de Seu caráter. Ele fala o que é. Ele é o que fala.

Essa é a melhor materialização de Deus que temos em nosso meio. Essa coerência entre o que se diz e o que se é pode melhor ser traduzida por VERDADE.

Quando o ser humano se separa dessa Verdade, ele também se separa do real sentido da Palavra e a sua palavra perde o conteúdo.

Exemplo - João 8

Isso está claramente demonstrado em um interessante episódio ocorrido entre Jesus e os fariseus, relatado no livro de São João, capítulo 8. Depois de trocar algumas palavras com os líderes judeus, Jesus disse: "Por que vocês não entendem a minha linguagem?" Em outras palavras Ele estava dizendo: Por que vocês não Me entendem? Por que vocês se recusam a Me aceitar? E Ele mesmo fornece a resposta: "É por que não podem ouvir a minha palavra".

Sem dúvida, eles não podiam ouvir a Sua palavra porque a verdade não pode conviver com a mentira.

Eles não podiam ter a verdade e continuar enganando-se com suas intenções distorcidas.

Cabem aqui algumas definições:

A) O QUE É MENTIRA?

Mentira é a dicotomia entre a afirmação e o fato. Ou a diferença entre aquilo que você diz e aquilo que você quer dizer.

Por exemplo:

Eu digo que vou lhe dar alguma coisa e não cumpro o que falei.
As minhas palavras foram numa direção e meus atos em outra.

B) O QUE É VERDADE?

Como já foi mencionado, é a coerência que existe entre aquilo que se afirma e o fato: (palavras é ; atos é).

Na vida só há duas posturas, a da verdade e a do erro. São estas posturas que determinam o grau de pureza e integridade de nossos atos.

Exemplo: João 8 (Filhos de Abraão)

Ainda no mesmo episódio em João 8, os fariseus, buscando autenticar a nobreza de sua linhagem, disseram a Jesus: "Nós somos filhos de Abraão".
Jesus respondeu-lhes dizendo: "Se vocês fossem filhos de Abraão, vocês fariam as obras de Abraão". Em outras palavras: "deve haver coerência entre o que vocês dizem e o que são”

Justamente por causa dessa aparente dicotomia entre as palavras e os atos, Jesus lhes afirmou: "Vocês têm por pai o Diabo"

Para que a comunicação seja efetivada, deve haver coerência entre o que se diz e o que se quer dizer, deve-se eliminar os ruídos e tornar o discurso transparente, para que nos mostremos quem realmente somos. É deplorável a situação onde predomina o engano.

Esta é a mensagem do mandamento que afirma que não devemos tomar o nome de Deus em vão. Não podemos ser cristãos e praticar atos que comprometam nossa condição, vivendo em contradição àquilo que nos propusemos.

Como o objetivo da comunicação é produzir respostas, influenciar, uma pergunta se levanta: Que tipo de influência estamos passando àqueles a quem tentamos influenciar? Mais do que isso, a quem estamos tentando influenciar? Quais os verdadeiros objetivos de nossas intenções?
Se comunicamos aquilo que somos e sabemos que nosso coração é enganoso, estamos em realidade correndo o risco de sermos pouco eficazes.
Sobre este aspecto David Berlo (1982) afirma:

"...muitas vezes nos comunicamos com nós mesmos, isto é, nós próprios produzimos e recebemos a mesma mensagem ... Muitos produtores, professores, chefes em geral, não procuram influenciar suas aparentes audiências. Procuram obter a aprovação de seus pares, fazer com que os colegas digam: ‘Este é dos nossos; faz as coisas como nós gostamos que sejam feitas’. Alguns presidentes ou outros líderes de grupos não procuram influir no pensamento de seus grupos, mas apenas levá-los a dizer: ‘Vamos reeleger esse homem; ele sabe dirigir uma reunião’. O objetivo verdadeiro da comunicação pode não ser aquele que é percebido como tal, mesmo por quem o executa." (Berlo, David – O Processo da Comunicação, 24)

A lingüística afirma que não há discurso neutro, que todo discurso carrega uma ideologia.

O discurso duplo faz parte da natureza do ser humano. Quando não pensamos nos outros, nossa comunicação é dirigida a nós mesmos, e achamos isso natural. Esta é a essência do exercício do poder. "Paz social... é a paz privada dos dominadores" (Freire, Pauo – Pedagogia do Oprimido, Pág 75) já afirmava Paulo Freire.

É uma responsabilidade viver aquilo que se prega, pois como poderemos falar de amor se somos rudes? O problema é que as pessoas rudes são ingênuas, acreditam mais no valor de suas palavras do que no de suas obscuras intenções.

5) PALAVRAS EFICAZES 

Jesus era um tremendo comunicador.
Acredito que se Jesus vivesse hoje e Se oferecesse para pregar em algum lugar,
Ele Se dirigiria ao púlpito e diria algo assim à congregação:
— Abramos nossa Bíblia no livro de Salmos e leiamos o Salmo 23.
"O Senhor é o Meu Pastor, nada me faltará ... e habitarei na casa do Senhor por longos dias."
Após haver lido o Salmo, Ele diria: — Vamos nos levantar para a oração final.
Acredito que todas as pessoas sinceras seriam convertidas com essas palavras de Jesus.

Hoje, subimos ao púlpito, lemos de Gênesis a Apocalipse e as pessoas dizem: — E daí? Eu poderia haver lido por mim mesmo em casa, tenho Bíblia.

Por que será que quando Jesus fala, Ele fala como Quem tem autoridade? Ele fala como Quem transforma, Ele fala como Quem dá vida?

CONCLUSÃO

A conclusão é que o fenômeno não está simplesmente na palavra, porque nós também temos a palavra. A palavra de Jesus é uma coisa, nossa palavra é outra.
Se dizemos que amamos, temos que demonstrar isso consciente e inconscientemente. Se afirmamos que devemos ser iguais a Cristo e evitamos qualquer coisa que possa nos incomodar, estamos esvaziando o conteúdo de nossa mensagem.

Quando o ser humano percebe que seu discurso é vazio, não lhe resta outra alternativa senão reforçar suas palavras através do aprimoramento da sua eloqüência e do exercício do poder, forçando idéias aos receptores de sua mensagem e dizendo que seu objetivo não é outro senão o bem delas. Ledo engano!

Jesus não era assim. Quando Ele dizia que amava, Seu amor era incondicional. E mesmo sabendo que muitas pessoas não iriam corresponder a esse amor, Ele comprovava a veracidade de Suas palavras não através da força nem da eloqüência ou retórica, mas através de Sua disposição de enfrentar uma cruz até mesmo por aqueles que duvidavam dEle.

Nosso caso é diferente. Como não queremos cruzes, utilizamos belas palavras e elegantes expressões. Artifício inócuo, pois reflete apenas o eco da nossa falta de coerência.

Se quisermos ter participação na verdade, ou seja, falar como quem tem autoridade, temos que buscar a coerência entre o que falamos e o que somos, para isso, temos que solicitar que Deus nos use para que através dEle possamos ser instrumentos dessa realidade.

Jamais seremos a verdade, mas podemos possuí-la.
É exatamente por esse motivo que Jesus disse: "Eu Sou o caminho, a verdade e a vida". O único que tem condição de ser o que diz, tem condição de ser a própria Verdade.

É impossível ao ser humano ter essa coerência.

O apóstolo Paulo em certa ocasião demonstrou a angústia que o ser humano passa ao descobrir essa realidade: "O bem que eu quero fazer esse não faço, mas o mal que não quero fazer, esse faço. Miserável homem que eu sou." Essa é a angústia que coloca o homem entre as intenções e os atos.
Paulo, porém, resolve esse problema quando afirma: "Já não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim." (Romanos 7)

Ele faz esta afirmação porque estamos em algum lugar entre a verdade e a mentira. E a partir do momento em que Cristo vive em nós, a verdade assume seu lugar em nossa vida. Jesus não tem a verdade, Ele é a verdade, e na proporção que O possuirmos também possuiremos a verdade. Este é o fenômeno espiritual de sermos habitados por Jesus.

Deve haver essa coerência para que a mensagem seja mais do que simplesmente eficiente, seja eficaz. Seja mais do que a produção de belos textos, produza também os resultados esperados.

Falar sobre Cristo não significa mostrar o poder de Cristo.
Podemos falar sobre Cristo, mas se não formos usados pelo Espírito Santo, nossas palavras não passarão de meras informações, podendo até ser eficientes, mas não eficazes.

"Há uma grande diferença entre simplesmente proferir palavras e o Espírito Santo tornar tais palavras eficazes pelo Seu poder. Unicamente quando a verdade chega ao coração acompanhada pelo Espírito vivificará a consciência e transformará a vida. Uma pessoa pode ser capaz de apresentar a letra da Palavra de Deus, pode estar familiarizada com todos os Seus mandamentos e promessas; mas a menos que o Espírito Santo impressione o coração com a verdade, alma alguma cairá sobre a Rocha e se despedaçará." White, Ellen – O Desejado de Todas as Nações. Ed. Popular, 647)
Se Deus não estiver por trás da nossa palavra, nada acontecerá. Poderemos até ser científicos, acadêmicos, eficientes, mas jamais seremos eficazes.

O que confere autoridade a Jesus hoje, são os sinais dos cravos em Suas mãos, o que conferia autoridade a Jesus quando andou aqui nesta terra e fez dEle o maior dos Mestres, era a Sua disposição em morrer pelo Seu rebanho. Isto transparecia em Suas palavras, porque Ele era o que dizia. As pessoas devem ler através de nossas palavras aquilo que nós somos.

ASSUMINDO A VERDADE

Você não educa como você quer, você educa como você é.

É bom lembrar que não somos o que o nosso esforço determina porque não conhecemos nossas reais intenções, mas podemos reconhecer nossa total e absoluta dependência dAquele que é a Verdade, e a partir do momento em que essa Verdade fizer parte de nossa vida, estaremos realmente educando porque o alvo de nossa comunicação será colocado não em nós mesmos, mas naqueles que nos foram confiados. Estaremos dispostos a pagar qualquer preço pela verdadeira educação deles, mesmo que isso nos custe a negação de nosso conforto, tempo ou caprichos. Nossa missão estará cumprida à medida que negarmos o nosso eu e permitirmos que Cristo habite em nós.

Se permitirmos que Cristo dirija a nossa vida, três coisas irão acontecer: Nossas palavras serão puras, os alunos nos conhecerão verdadeiramente e por fim, assumiremos a cruz que a Verdade sempre traz consigo e que a nossa natureza insiste em evitar, mas afinal, é bom lembrar que não existe estrada para o Céu que não passe pelo Calvário.

Para isso fomos chamados.

PERGUNTAS:

1) Parece que as palavras estão se tornando espadas sem corte, incapazes de produzir as respostas desejadas. Onde estará o problema se os métodos e os conteúdos utilizados são bíblicos e o discurso é Cristocêntrico? Se somos bem intencionados, por que as vezes o relacionamento com os membros se torna tão difícil e parece que eles não aceitam completamente?

2)Se nosso coração é enganoso, o que podemos fazer para conhecer verdadeiramente nossas intenções?

3) Qual a diferença entre o discurso eficiente e o discurso eficaz? Qual o princípio explicito para alcançar a eficácia em nossa comunicação?

4) Se comunicação é produzir respostas, influenciar, que tipo de respostas esperamos de nossas ovelhas? Esta resposta tem que ver com o nosso comportamento? Por quê?

5) De que maneira, nós pastores viveremos, ensinaremos e defenderemos o princípio da verdade?

Pr. Fábio dos Santos (Adaptação do texto para sermão de Valdecir Simões Lima)

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