PATO, LIMPO OU IMUNDO?


Como introdução a este artigo, cabe lembrar que a dieta recomendada pela IASD é a ovolactovegetariana. Carnes, portanto, estão excluídas desta alimentação. No entanto, muitos adventistas comem carnes, ficando contudo, sempre restritos às carnes consideradas limpas definidas pelos textos de Levítico 11 e Deuteronômio 14:1-21.

Este artigo trata da definição do pato como sendo um alimento limpo ou imundo (impuro) nestes textos, visto muitos adventistas considerarem esta ave como imunda. É preciso, por conseguinte, a análise dos textos acima. Deuteronômio 14 é uma repetição, que apresenta menos detalhes que Levítico 11, portanto, este escrito se concentrará no último.

Acerca das especificações sobre animais limpos ou imundos, estes são classificados em cinco categorias diferentes: animais quadrúpedes (v. 2-8), peixes e frutos do mar (“tudo o que há nas águas”, v. 9-2), aves (v. 13-19), insetos (v. 20-23), rastejantes, i. é. que andam próximos do chão (v. 29-31), e finalmente, há um adendo, para eliminar qualquer dúvida, sobre outras espécies nos versículos 41 e 42.

Para o primeiro grupo, os animais quadrúpedes, há três especificações para que sejam considerados limpos: que tenham cascos (unhas fendidas e o casco se divide em dois), não basta ter casco, mas ele tem que ser dividido, e ruminar. Isto exclui qualquer animal que não possua casco, como gato e cachorro, qualquer que tendo casco não se divida como o cavalo e outros que possuem casco dividido, mas não ruminam como o porco. Com esta três regras, a classificação dos mamíferos terrestres se torna facilitada.

Vamos ao segundo grupo. Dos animais “que há nas águas” as regras são possuírem escamas e barbatanas. Barbatanas são as populares nadadeiras.1 Assim, estão excluídos da alimentação peixes de couro, como cação e frutos do mar, como mariscos e camarão.

O quarto grupo é o dos insetos. Embora não façam parte de nossa alimentação, o texto proíbe comer qualquer inseto que voe, com exceção daqueles que além de voarem saltem com as pernas traseiras, sendo estas maiores. Isto limita o consumo de insetos ao grilo e ao gafanhoto. Outros são considerados imundos e impróprios para a alimentação.

Dos animais que se “arrastam sobre o chão” (v. 29, NTLH), todos estão excluídos. Esta especificação exclui todos os répteis, que são assim considerados imundos, mas também alguns mamíferos como a doninha e o rato. Para que não pairem dúvidas, os versículos 41 e 42 excluem todos os animais com mais de quatro patas ou pés e todos os espalmados ou rastejantes.

A respeito das aves, há uma notável diferença, não são apresentadas características que as definam como limpas ou imundas, mas apresentadas vinte espécies consideradas como imundas, destas, em quatro casos é acrescida a frase “segundo a sua espécie” (v. 14, 15, 16 e 19), indicando “todos os tipos básicos, dos quais somente um é mencionado” (CBASD, vol 1, p. 815). Como não há características definidoras, todas as aves que não aparecem nesta lista, seriam limpas e aptas para alimento.

O PATO

A primeira noção a observar em relação ao pato ser imundo ou não é que não existem características físicas que possam distingui-lo como tal, como também para nenhuma outra ave. Alguns indicam o fato de o pé do pato ser unido por uma membrana, buscando assim enquadrá-lo por ter supostamente “unhas” que não são fendidas. É óbvio o absurdo desta declaração, visto a característica da unha ser para quadrúpedes (v. 2-3), seria necessário, portanto, que as aves limpas tivessem casco, pois a unha fendida serve somente em caso de casco, e finalmente as membranas do pato não são unhas.

Precisa-se então buscar no texto bíblico referente as aves encontrar entre as vinte espécies ali descritas e proibidas para alimentação, o pato. No entanto, esta ave não é descrita ali. Ao se levantar uma possível razão para esta crença, encontramos alguns que citam sua possível ligação como aparentado do cisne, sendo desta forma uma de “suas espécies”. Esta crença deve-se ao fato de que na Almeida Revista e Corrigida, o versículo 18 dizia “e a gralha, e o cisne, e o pelicano”. O versículo não inclui aqui a frase “segundo a sua espécie” usada para o falcão (v. 14) o corvo (v. 15), o gavião (v. 16) e a garça (v. 19). Assim sendo, já aqui o pato estaria fora, pois mesmo sendo aparentados, não estaria o cisne na descrição.

O fato fica mais complicado ao buscar a tradução correta para a palavra qaath, vertida como cisne na ARC. A palavra que indicaria alguma ave comedora de carniça, possivelmente o abutre (O Antigo Testamento Interpretado, p. 514). Nas versões Revista e Atualizada 2ª Ed. (a mais utilizada hoje), Bíblia de Jerusalém e NTLH, a palavra é traduzida por “pelicano”. O Comentário Bíblico Adventista (CBADSD) sugere que a ave descrita ali seja o íbis dourado ou o frango d’água. O Dicionário Internacional de Teologia (p. 1313) sugere pelicano ou alguma espécie de coruja. É desnecessário dizer da dificuldade da tradução, Arnaldo Cristianini, famoso escritor e apologeta adventista escreve na Revista Adventista de outubro de 1974 (p. 31) que cisne realmente parece não ser a interpretação adequada. Isto livraria o pato definitivamente da classificação de imundo.

ELLEN WHITE E A CARNE DE PATO.

Ellen White recebeu a visão da reforma de Saúde em 1863. No Manuscrito 12 de 1873, portanto dez anos após esta visão ela escreveu: “Temos um pouco de farinha fina e isto só. Nós esperamos suprimento certo três dias atrás, mas nada chegou. Willie (seu filho) foi até o lago. Nós ouvimos sua arma e descobrimos que ele atirou em dois patos (ducks). Isto é realmente uma benção, pois precisamos de algo para sobreviver. Este texto é citado em português no livro Mensageira do Senhor, página 312 e no recém lançado Espírito de Profecia – Orientações par a Igreja Remanescente, do próprio Centro White do Brasil, na página 175-176. Em outro texto citado no Manuscript Releases, vol.  XIV página 352 ela escreve: “Willie atirou em um pato que veio em tempo de necessidade, pois nossos suprimentos estavam  diminuindo rapidamente”.

Sendo assim, compreende-se que Ellen White, mais de dez após ter recebido sua visão sobre reforma de saúde, comeu carne de pato, e considerou, diante das necessidades, mesmo uma benção. Logo, White a considerava uma carne limpa e apropriada para a alimentação.

Como já citado anteriormente, o Pr. Cristianini ao responder pergunta em 1974 sobre o tema da impureza do pato escreve que cisne não é a melhor tradução de Levítico 11:18, tornando portanto inócua a discussão, já que pato não aparece no texto. Respondendo a mesma questão, na Revista Adventista de novembro de 1961 na página 32, Luiz Waldvogel assim aponta: “Acham os comentaristas não ser imunda a carne do pato, porque na passagem que proíbe o cisne (Lev. 11:18) não se diz, como em outras, "segundo sua espécie". Os judeus, que são muito exatos na questão das carnes imundas, comem o pato”. Embora com outra linha de argumentação (aqui o fato da falta da sentença “segundo a sua espécie”) chega a mesma conclusão com relação a ser limpa sua carne.

Waldvogel aponta em sua resposta um fato também relevante para esta questão. Judeus, que são muito rígidos na questão da alimentação, consideram o pato um alimento Kosher/Kasher, que significa “próprio”, isto é, limpo. As regras judaicas são muito mais severas que as adventistas, como por exemplo, nunca misturar na mesma refeição uma carne vermelha e um derivado do leite (como acontece em qualquer sanduíche que leve carne e queijo) devido a uma interpretação restrita da lei escrita em Deuteronômio 14:21 (“não cozerás o cabrito no leite da sua própria mãe”). Esta classificação dos alimentos é tão séria que diversas empresas adotam-na para poderem ter acesso ao mercado judeu. É fácil encontrar diversos sites judeus que especificam o pato como um alimento kosher, como o da fabrica de chocolates kosher Tnuva que explica: “As aves Kosher são identificadas por uma tradição transmitida de geração para geração e é universalmente aceita. A Torá especifica as aves que são excluídas da alimentação, incluindo todas as aves de rapina ou que se alimentam de carniça. Entre as aves Kosher estão incluídas as espécies domésticas de frangos, patos, gansos e perus.”

Após tantos argumentos fica claro que o pato é sim uma ave limpa, não estando entre os animais que são proibidos para a alimentação.

QUAL A IMPORTÂNCIA DESTE ASSUNTO?

É preciso apresentar a relevância de se escrever um artigo como este. A importância não está no fato de se autorizar o uso da carne de pato para a alimentação adventista. Como dito no início deste texto, a melhor alimentação, recomendada pela Igreja Adventista, é a ovolactovegetariana, o que exclui do cardápio não apenas o pato, mas também quaisquer outras carnes. Não é também um incentivo a comer agora carne de pato porque o texto de Levítico assim autoriza. Ele também autoriza o uso do grilo e do gafanhoto, o que não significa que agora iremos partir para experimentar estes insetos. Então, finalmente, qual a importância deste assunto?

Como adventistas cremos sempre em um claro “Assim diz o Senhor”. Parece que com relação a este assunto (e talvez com alguns outros) foi-se perdido este importante princípio. Em algum momento este tem foi ensinado desta forma e criou-se uma espécie de “tradição” adventista extra-bíblica que passou de geração em geração, sem que ninguém se preocupasse em conferir “regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali”. Sempre defendemos que as tradições deveriam ser excluídas a favor da palavra de Deus, mas acabamos por criar nossa própria tradição.

Este tema, é verdade, não é central, mas a forma como foi tratado deveria preocupar qualquer adventista sincero que é percebe aí uma brecha que deveria ser fechada, para que futuramente outras questões, talvez mais relevantes, não passem pelo mesmo perigosíssimo escrutínio. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva” (Isaías 8:20).

Sites judeus
http://www.es.chabad.org/library/article_cdo/aid/558176/jewish/Que-Animales-son-Kosher.htm
http://www.tnuva.com.br/oque.php

Pr. Roberto Roefero - APO

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