A ÁGUA DO INFERNO


Queremos nesta oportunidade formular um libelo contra a Água do Inferno.

Jovens estudantes, estimados irmãos! Verificamos em nossos dias uma atitude desconcertante, desconcertante e paradoxal. Nesta era mecânica de motores de explosão e aviões a jato, descobriram os homens que as máquinas necessitam de cuidados especiais e que os motores reclamam óleo e combustível apropriado. Entretanto, há uma máquina admiravelmente complexa, extraordinária em todos os seus detalhes, uma máquina imaginada e concebida por uma Inteligência superior – o corpo humano.

O corpo humano é, com efeito, uma máquina extraordinária, admirável e complexa. Davi, o suave artista de Israel, dizia: “Fomos nós maravilhosa e assombrosamente formados.”

Galeno, o primeiro médico depois de Hipócrates, ao dissecar um cadáver, terminou aquela obra dizendo: “Oh! que hino acabo de cantar ao Criador!”

A irmã White, no livro Educação, página 201, declara o seguinte:
“Sejam os alunos impressionados com o conceito de que o corpo é um templo em que Deus deseja habitar; que deve ser conservado puro, como a habitação de pensamentos elevados e nobres. Vendo eles pelo estudo da fisiologia que na verdade são formados ‘de um modo terrível e tão maravilhoso’ (Sal.139:14), ser-lhes-á inspirada reverência. Em vez de desmerecer a obra de Deus, terão o desejo de fazer tudo que lhes é possível a fim de cumprir o plano glorioso do Criador.”

Tudo farão para preservar o corpo sadio e forte para honra de Deus.

Mas, senhores, o bom funcionamento deste complexo orgânico, a integridade e a durabilidade desta máquina admirável está sendo comprometida por um hábito desgraçadamente generalizado – a ingestão de um líquido.

Este líquido tem vários nomes. Alguns o chamam a cerveja; outros, o vinho; outros, o licor; outros, a cachaça; outros, a pinga; outros, o aguardente; outros, o whisky. Mas tudo isto podemos rotular debaixo de duas palavras: Água do Inferno.

Só não vêem a peculiaridade deste líquido os cegos morais. Ou porque eles mesmos são viciados, ou porque fazem do vício alheio o seu aviltante ganha-pão. Mas, tirem eles, dos olhos a máscara, a venda de seus interesses mesquinhos e verão que civilizações antigas, brilhantes civilizações, foram afogadas no álcool. Tirem eles dos olhos a venda dos seus interesses inconfessáveis e verão que os peles-vermelhas na América, os incas no Altiplano do Peru, e os aborígenes no Brasil foram dizimados pela sífilis e pelo álcool – aliança sinistra e agourenta.

O grande cientista brasileiro, honra da cultura nacional, o Dr. Miguel Couto, em uma palestra proferida na Academia Nacional de Medicina, disse o seguinte:
“Que mal faz o álcool ao organismo humano? Todo o mal. Não há órgão que ele poupe; não há célula que lhe resista. Tudo queima por onde passa, a começar pelos lábios que se tornam beiçanas, lúzidos, belpos e arredondados. Todos os tecidos vão alterando indistintamente, mas se um aparelho da fisiologia se tivesse de designar como preferido pela devastação deste tóxico, este seria o sistema nervoso.”

E segue adiante, dizendo: “Daí resulta que o viciado, a vítima do álcool, não tem caráter no sentido fisiológico da expressão. Caráter é a consciência vigilante, e o álcool tira a consciência; tanto que em Medicina Legal é um detrimento e um agravante. O alcoólatra suicida-se porque, dispondo de sua vida, a destrói aos poucos na plenitude de seus direitos; porém procria filhos degenerados – aonde não vai o seu direito!”

Senhores ouvintes, dizia o cientista Miguel Couto que o álcool tudo destrói, o álcool tudo queima. A garrafa constitui uma das grandes e mais aviltantes misérias, uma das manchas de nossa civilização.

Esta água, senhores, esta água destilada nos alambiques do inferno tem alimentado uma fogueira responsável pela destruição de lares, responsável pelo aniquilamento da riqueza das nações, tem consumido a prosperidade dos povos.

Essa fogueira, senhores, tem destruído energias jovens. Esse fogo é tão perigoso, tão destruidor, tão consumidor que continua cada dia a sua ação ruinosa, queimando a paz, quebrantando o entendimento entre os homens, meus prezados, comprometendo o futuro de jovens, aniquilando risonhas promessas, consumindo fagueiras esperanças. Esse fogo cada dia no Brasil, em nosso continente e no mundo, desenvolve a sua ação letal e destruidora.

O alcoólatra – deixemos agora de lado agora esse fogo, esse fogo continua ardendo no Brasil, continua ardendo dentro dos lares, dentro do recesso de muitas vidas, nas cercanias de diversas consciências; mas, deixemos esse fogo de lado – o alcoólatra proclama a sua condição de homem livre. Ninguém tem nada que ver com a sua vida. Ele pode continuar bebendo.
Sim, ele tem direito de fazer o que bem lhe apraz. Mas, senhores, o alcoólatra não tem o direito de trazer ao mundo uma geração estigmatizada pelo vício.

Em 1703, viveu um homem chamado Jônatas Edwards. Há 261 anos [em 1964] Jônatas Edwards legou uma geração. Foram encontrados 1.394 descendentes de Jônatas Edwards. Desses 1.394, 13 foram presidentes de universidades; 65 professores de colégios e universidades; 60 doutores de medicina; 100 pastores e ministros; 75 oficiais do exércitos; 60 escritores notáveis; 30 juizes; um vice-presidente; 3 senadores; vários governadores, prefeitos e embaixadores. Trinta e três estados americanos, diversos países estrangeiros e 92 cidades americanas e várias do exterior devem muito a esta família – a família de um homem abstêmio.

Em contrapartida, uma senhora alcoólatra viveu em 1740 e levou ao mundo o seguinte: Dos seus 830 descendentes, descobriu-se a biografia de 700. Destes, 142 eram mendigos; 161 mulheres prostitutas; 106 filhos naturais; 76 terminaram a vida na cadeia; e outros 64 em asilos; 7 eram assassinos. E o país da Europa a que ela pertenceu teve que gastar com essa família em 75 anos, a soma de 100 milhões de reais.

Aí temos, senhores, um contraste entre a descendência de um homem abstêmio e a prole de uma mulher escrava do álcool. O homem pode pretender ser livre para seguir os caminhos do vício, mas ele não tem o direito de deixar ao mundo uma geração marcada, estigmatizada pelo vício.

Disse o Dr. Miguel Couto: “O viciado não tem caráter.” Com efeito, concordamos porque o álcool, não importa a dosagem, o álcool da cerveja, o álcool do vinho, o álcool do licor, o álcool da aguardente, debilita e enfraquece o poder da vontade.
Há uma lenda árabe que conta a fórmula usada por Satanás na manipulação da primeira composição alcoólica. Ele reuniu três espíritos: o espírito do macaco, o espírito do leão e o espírito do porco, e, com esses três elementos, preparou essa primeira composição arruinadora e aviltante.

E a lenda árabe explica: Quando o homem bebe os seus primeiros tragos, ele perde a sua compostura, ele se torna ridículo, ele se torna inconveniente com os seus gestos, os seus trejeitos, as suas risadas, a sua gaiatice, a sua macaquice – é o espírito do macaco atuando no escravo do álcool. Mas o copo, a garrafa o arrasta, e ele continua bebendo. Outros tragos e agora começa a sentir a ação do espírito do leão nele, e ele se sente um Eder Joffre, violento e agressivo, desacanhado, esperando a todo instante um inimigo, um desafeto. Apresenta-se desafiador, irascível e temperamental.

Mas ele continua, atraído pela ação da garrafa, bebendo, bebendo porque o álcool vai debilitando a sua vontade, a sua resistência, e o espírito do porco nele começa a atuar. Ele cai em estado de coma, ele cai na lama, ele vomita, ele se revolve na própria sujeira. O espírito do porco atuando nesse desditoso viciado.

Quão estranho, prezados jovens e irmãos, quão surpreendente é o poder do álcool. Se o ambiente é pobre, ele se introduz sinuoso como a cachaça. Se o ambiente é remediado, ele se apresenta solarte como a cerveja ou o vinho. Se é mais remediado, ele se insinua como o licor. E, se é aristocrático, ele se apresenta como o whisky, sedutor e embriagador. Mas no fundo, tudo é cachaça. Tudo é água do inferno – o rótulo é que varia. O álcool se assemelha a um camaleão: ele muda de cor e adapta seu colorido de acordo com as circunstâncias.

O diabo, em sua sabedoria, não poderia jamais descobrir um recurso melhor para atar ao seu carro triunfal a pobre e infeliz humanidade. Mas, o grande perigo a que se dispõe o ébrio, o viciado, é de romper a sua relação com o Céu, porque o álcool destrói completamente a comunicação do homem com Deus, anula este canal que une a criatura ao Criador.
Por isso dizia o grande rei e sábio de Israel no livro de:
Pv 20:1; 23:31 e 32.

Jovens, temos denunciado esse terrível hábito. Tenho encontrado jovens que estudaram em nossos colégios, que hoje são meros farrapos humanos; rapazes que na casa de Deus cantaram hinos de louvor a Cristo; que neste recinto, muitas vezes santificado pela presença divina, participaram dos exercícios de adoração. Tenho visto alguns, degradados, aviltados e infelicitados pela miséria do vício.

A honra de Deus, o bom nome da igreja e a dignidade de cada um de nós como indivíduo, reclama que declaremos guerra ao álcool em todas as suas formas.
Que respondereis vós?

Enoch de Oliveira

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