terça-feira, 17 de setembro de 2013

O Rico e Lázaro: Personagens de uma Parábola

Em Lucas 15:2 fica claro que Jesus conta uma série de parábolas para chamar a atenção dos seus ouvintes, em especial os fariseus que murmuravam diante da atitude de Cristo de se relacionar com os pecadores e menos favorecidos. No versículo 14 do capítulo 16 deste evangelho, nota-se que o tema do discurso se amplia e agora Jesus fala acerca da avareza para os fariseus.

  Neste sentido, é bem provável que o “rico” da parábola represente os fariseus avarentos, como o texto mesmo os decreve. O tipo de vestuário descrito por Cristo era a roupa usada pelos judeus ricos, incluindo alguns fariseus, que contrastava grandemente com os mais pobres. Sobre essa questão, COLEMAN, 1991, p. 61 e 62, escreveu:

É interessante notar que quando Jesus narrou a parábola do rico e Lázaro (Lc 16:19ss) ressaltou o fato de que o rico egoísta tinha roupas de púrpura e linho finíssimo. Isso é digno de nota pois normalmente ele não se preocupava em mencionar o que as pessoas vestiam. O termo púrpura talvez designasse um dos diversos tons que ia desde o roxo profundo, passando pelo carmesim. A túnica interior de linho, usada pelos homens, era feita de uma fibra tingida de amarelo, que era importada do Egito, e se chamava bisso. Era tão luxuosa que os egípcios falavam dela como de “um tecido feito de ar”.

  Alguns autores também dizem que além dos fariseus Jesus estava falando para os saduceus que não acreditavam na ressurreição (CHAMPLIN, 2002), mas isso é pouco provável por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar é que não encontramos na descrição do texto a menção da presença dos saduceus entre os que estavam ouvindo a Jesus quando ele contava as parábolas mencionadas em Lucas 15 e 16, que compões a perícope em estudo. E também como já foi descrito nesta pesquisa, o tema teológico da parábola do rico e Lázaro não é sobre a ressurreição, muito menos sobre a vida após a morte, mas sobre a avareza. É claro que as lições morais vão aplicar-se à todas as classes e grupos, incluindo os saduceus, mas não podemos afirmar que o rico como personagem representaria diretamente os saduceus.
            
  No texto de Lucas 16:19-31, Lázaro é o nome dado por Jesus ao mendigo da parábola. O curioso é que em nenhuma outra parábola os personagens são nomeados, e isso nos faz perguntar o porquê disso. Lázaro era um nome comum na época de Jesus, inclusive conhecemos um Lázaro a quem Jesus ressuscitou (Jo. 11 e 12), será que poderia haver alguma relação com ele? Ou seria apenas um nome aleatório? Podemos encontrar alguma razão para Jesus nomear e usar especificamente este nome?

  Lembrando que os ouvintes da parábola são identificados em Lucas 16:14 como os fariseus, devemos imaginar que Jesus poderia estar chamando a atenção deles para alguma questão ao usar o nome Lázaro. Lázaro como termo é uma abreviação da expressão hebraica “aquele que Deus ajuda” (ver GARDNER, 2000), que é uma ideia importante no tema da parábola, a avareza contrastada com a humildade e amparo de Deus aos necessitados.

  Neste sentido, abalizado pelo tema teológico da parábola, ao usar este nome comum entre os judeus (Lázaro, forma grega de Eleazar que significa “Deus ajudou”  de acordo com BOYER,1997) Jesus poderia estar ensinado aos fariseus que não são seus méritos que os salvarão, mas a graça ajudadora de Deus. 

  Podemos supor a princípio que Jesus usou um nome comum da época, mas semignorar seu significado, que no idioma dos ouvintes, e no contexto da discussão teológica, ajudou a enfatizar o tema da parábola que foi contada e fortaleceu sua argumentação sobre o contraste e recompensa da avareza com a humildade e infortúnio de muitos.
       
  Todavia não podemos ignorar ou desconsiderar que na cronologia dos evangelhos, esta parábola foi contada por Jesus pouco antes da ressurreição de Lázaro (ROBINSON, 1834). Jesus poderia estar indiretamente chamando a atenção dos fariseus que duvidavam do poder divino de Jesus e haviam desacreditado seus milagres, para a ressurreição impressionante que se seguiria pouco tempo após ele contar essa parábola, onde Jesus concluiu assim: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dos mortos” (Lc. 16:31). Em outras palavras, poderíamos supor que Jesus estava alertando para um grande sinal que Ele realizaria em um futuro próximo, mas já prevendo sua negação por parte de muitos.

  Jesus já estava adiantando que, como os fariseus não acreditavam na Palavra de Deus escrita e nem na Palavra dita (por Jesus neste momento), não acreditariam nele mesmo após ressuscitar Lázaro dos mortos. Imagine o impacto que foi para os ouvintes escutarem essa parábola onde um personagem tinha nome próprio e logo após Jesus ressuscitar Lázaro! Não podemos afirmar que Jesus usou intencionalmente esse nome para esse fim, uma vez que ressurreição ou vida após a morte não eram o tema principal da parábola, mas que essa relação pode ser lenvatada não podemos negar por completo.

Fonte: Parte de uma exegese de Lucas 16:23 de Yuri Ravem G. V. e Paiva. yuriravem@yahoo.com.br




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