quinta-feira, 25 de abril de 2013

Gematria: uma numerologa bíblica na genealogia de Jesus em Mateus

O relato do evangelho de Mateus inicia com uma genealogia[1]. Para muitos na atualidade uma genealogia é lida de forma apressada, passada por alto ou simplesmente ignorada.  Entretanto, devemos ter em mente que o escritor do evangelho, Mateus, foi um judeu, logo, precisamos refletir sob a importância da genealogia para um hebreu.

Segundo Mounce (1996, p.15), “o povo judeu dos dias de Jesus atribuía grande importância a registros genealógicos. Tais registros eram guardados pelo Sinédrio, e utilizados com o objetivo de manter a pureza da descendência”.Barclay expõem  que Flávio Josefo, o conhecido historiador judeus que serviu a corte de romana, iniciou uma autobiografia com uma listagem de seus ancestrais. Segundo Hendriksen, as genealogias para um judeu sempre foi considerada de grande importância por vários motivos, entre eles:

1º Transferência de propriedade

Depois da conquista de Canaã, a principal importância estava relacionada a posse de terras. A genealogia era fundamental para determinar o local de residência da família visto que a ocupação da terra era orientada por mandamento divino segundo as tribos, as famílias e as casas dos pais (Nm 26:52-56; 33:54). Caso alguém viesse a estabelecer-se em num outro território que não fosse o vseu próprio, poderia ser qualificado como desertor (Jz 12:4). Sob tais condições, a transferência de propriedade requeria acurado reconhecimento da linhagem (Rt 3:9, 12, 13:4:1-10).

2º Sucessão real

Outro fator de relevância da genealogia deu-se mais tarde, em Judá, quando a sucessão real estava vinculada à linhagem davídica (1Rs 11:36 15:4). Todo e qualquer representante monárquico da nação judaica deveria antes de ser entronizado, ser submetido a uma análise de sua genealogia. Se ele não fosse do tronco de Davi, não poderia assumir o reino.

3º Prerrogativas sacerdotais

Durante o cativeiro babilônico os israelitas no exílio deixaram de ter a prática sacrifical e manutenção do templo. Ao término do cativeiro caso uma pessoa pretendesse possuir prerrogativas sacerdotais tinha que provar sua linhagem sacerdotal. Segundo Esdras 2:62, caso a pessoa não conseguisse provar sua linhagem ela ficaria excluída do ofício de sacerdote.

4º Registro

No período da diáspora outra característica se somou a importância da genealogia. O cumprimento do dever em conexão com o registro geral ou “alistamento” descrito em Lc 2:1-4, este requeria conhecimento do rol de ancestrais.

No AT encontramos genealogias em muitos capítulos como: Gn 5, 10, 22, 25, 29, 30, 35 e 46; Êx 6; Nm 1, 2, 7, 10, 13, 26, 34; Js 7, 13; Rt 4; 1Sm 1, 14; 2Sm 3, 5, 23; 1Rs 4; 1Cr 1 a 9, 11, 12, 15, 23 a 27; 2Cr 23, 29; Ed 2, 7, 8, 10; e Ne 3, 7, 10, 11, 12. Tantos relatos demonstram, entre outras coisas,  a grande importância que a genealogia tinha para um judeu.  Como visto a genealogia para um judeu era de grande importância, seja para negociação de propriedades, instituição do rei, ter prerrogativas para o ofício sacerdotal  ou cumprimento do dever de registro.

Porém é tudo que a genealogia de Cristo apresentada no evangelho segundo Mateus tem oferecer? Existiria algo a mais na relação genealógica relatada por Mateus?

O propósito do evangelho de Mateus nos ajuda a compreender um pouco melhor sobre outros objetivos de sua genealogia.

Para Andanez[2] o publico alvo do evangelho de Mateus são seus irmãos judeus, portanto, escreveu seu relato com alguns pontos de contato com os escritos rabínicos. Tais similaridades com os textos rabínicos ajudavam a diminuir a resistência de seu público alvo, sendo assim seu propósito poderia ser melhor atingido.

Propósito do evangelho de Mateus

Segundo Shedd[3], Mateus “descrevendo as origens de Nosso Senhor até Davi, vê-se que o propósito era o de mostrar que as promessas feitas a Davi, como progenitor do Messias, são cumpridas em Jesus Cristo”.

Andanez apoia afirmando que o principal objetivo de Mateus é apresentar a nação judaica que Jesus é o Messias, o novo Moisés e o novo Israel. O cumprimento de Lei e dos Profetas.

Em seu evangelho Mateus quer apresentar Jesus como o Messias prometido e tão aguardado. E isto ele o faz desde a primeira frase de seu escrito.

“Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” (Mt 1:1)

Logo no início Mateus estabelece três pilares de grande importância para à história da família de Jesus:

1º Jesus era filho de Davi (portanto, da linhagem real);

2º Jesus era filho de Abraão (pertencia ao povo de Deus);

3º Jesus é o Cristo. Terminologia grega equivalente ao termo hebraico Messias[4];

O título filho de Davi ocorre com frequência em Mateus. Para Mounce a expressão “filho de Davi” era um costume judaico que correspondia a um título messiânico, o qual apontava para a vinda do Messias tão esperado da linhagem davídica.

O primeiro verso é apresentado com uma linha, a qual será responsável pela tecelagem de todo o evangelho de Mateus, durante todo o evangelho é apresentado que Jesus é o messias davídico. Na genealogia isto também é notável.

Particularidade da genealogia

Após a relação de nomes Mateus finaliza seu relato da genealogia de Jesus dizendo:

“Assim, ao todo houve catorze gerações de Abraão a Davi, catorze de Davi até o exílio na Babilônia, e catorze do exílio até o Cristo” (Mt 1:17)

A genealogia de Jesus é organizada de uma maneira no intrigante. Por que fazer três divisões? E, por que aparece três vezes o quantitativo catorze?

Segundo Barclay as divisões não foram produto do acaso, foram pensadas pelo autor.

  • A primeira etapa culmina com Davi. Davi foi o homem que fez do povo de Israel uma nação poderosa, foi o responsável por converter os judeus em uma potência mundial. A primeira seção leva a história até o momento do rei maior dos judeus.
  • A segunda seção descende até o exílio em Babilônia. É a etapa que registra a vergonha, tragédia e desastre da nação hebraica.
  • A terceira seção chega até Jesus Cristo. “Jesus Cristo foi a pessoa que liberou os homens de sua escravidão e os resgatou de seu desastre, em quem a tragédia se converte em triunfo”.

Ainda para Barclay o arranjo de listas com 14 “Trata-se de uma lista mnemotécnica, quer dizer, ordenada de maneira que seja fácil memorizá-la.” p. 16. Este agrupamento apresentado pelo escritor foi feito de modo arbitrário por conveniência.

Tal situação pode ser confirmada com a omissão de alguns nomes[5] de destaque na história dos descendentes de Davi, nomes como dos reis de Judá Acazias, Joás e Amazias. Tal arranjo realizado pelo autor foi feito sob o objetivo de manter-se o numero de 14. Ou seja, a lista é seletiva.

Isto dito, devemos voltar a nosso questionamento anterior. Por que agrupar a genealogia de Cristo em 3 grupos com 14 pessoas cada? Alguns eruditos apontam que a real e melhor solução esteja apoiada na criatividade do escritor bíblico. Segundo Paroschi, o escritor bíblico pode estilizar sua mensagem para alcançar determinado propósito. Para Paroschi ainda, a insistência no numeral 14 comunica uma mensagem muito peculiar aos hebreus.

Qual o significado de numero 14 para um hebreu?

Os hebreus não possuíam números em seu sistema de escrita, assim sendo,  usavam as letras como numerais cada uma com um valor estabelecido (como se nós representássemos o 1 mediante A, o 2 mediante B, etc.).

Por vezes o resultado do somatório dos numerais correspondentes a um nome  tomavam proporções maiores do que de um simples número, passava a simbolizar, indicar ou representar a própria pessoa ou palavra.

Segundo Sakenfeld, a enorme variedade de maneiras em que o mundo antigo compreendia  a potência mágica e religiosa de números e numeração pode ser ilustrado pelo método de gematria.

Ainda para Sakenfeld a gematria é “uma abordagem comum utilizada em todas instâncias convencionais e triviais na vida do dia-a-dia para as sofisticadas especulações religiosas numerológicas de escribas e mestres”.

Para Paroschi, gematria é “uma antiga forma de numerologia, uma mistura de matemática com literatura. No caso da bíblia, uma mistura de matemática com teologia. Um numeral é um acessório para reforçar ideias, porém não em uso místico”.

Tal situação ocorre algumas vezes ao longo do texto bíblico, como:

  • No livro Eclesiastes: em todo o livro do Eclesiastes apalavra que mais se repete é vaidade, tal palavra em hebraico[6] corresponde a hebel, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: H=5, B=2, L=30. Se somarmos as consoantes H+B+L, ou seja, 5+2+30, a resultante é 37 e a palavra vaidade (hebel) aparece 37 vezes no livro.
  • No livro de Gênesis, no capitulo 46 é citado Gade filho de Jacó. As consoantes em hebraico são transliteras para G e D, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: G=3, D=4. Se somarmos as consoantes G+D, ou seja, 3+4, a resultante é 7. É interessante notarmos que Gade foi o sétimo filho de Jacó e que ele também teve sete filhos.
  • O fundador da dinastia Davídica também apresenta uma interessante relação numérica que ajuda a dar luz sobre a genealogia de Jesus em Mateus. O substantivo próprio Davi, possui seu original em hebraico como David, suas consoantes com seus numerais correspondentes são: D=4, V=6, D=4. Se somarmos as consoantes D+V+D, ou seja, 4+6+4, a resultante é 14. Tal número é tratado com destaque em Israel por simbolizar o grande rei Davi, o qual de sua linhagem viria o Messias davídico.

A genealogia de Jesus relatada em Mateus apresenta esta realidade. Através dos numerais catorze, o autor transmite uma mensagem muito importante para todo o seu relato. Ele relaciona Jesus a um personagem muito importante na história de Israel, conforme visto, o rei Davi. E Jesus seu sucessor, poderia ser o Messias tão aguardado.

Considerações finais

Conforme aqui abordado, uma genealogia é de grande validade para os judeus, entre os fatores de importância estão a transferência de propriedade, a sucessão real, prerrogativas sacerdotais e o registro e alistamento. O propósito do evangelho de Mateus foi conquistar os judeus para Cristo, aproximando aqueles que ainda não haviam se convertido ao cristianismo e fortalecendo a fé dos judeus que já tinham aceitado. Para tanto, ele apresenta Jesus cumprindo todas as prerrogativas e requisitos do Messias. Em última instância ele apresenta Jesus como o Messias davídico por tanto tempo aguardado.

Para os judeus, os números assumem uma expressão muito maior do que meramente algarismos. Em grande medida eles estão relacionados com mensagens de fácil interpretação para qualquer judeu familiarizado com história e cultura da nação hebreia. Ou seja, um numeral assume o papel de um acessório para reforçar ideias, o que é classificado como gematria.

Tal situação é presente em várias partes do texto bíblico, como na referência a palavra vaidade em Eclesiastes, onde o somatório das consoantes totalizam 37 e tal palavra aparece 37 vezes no livro. No caso de Gade, cuja consoantes é totalizada em 7. Ele foi o sétimo filho de Jacó, e possuiu sete filhos.

O relato da genealogia de Jesus em Mateus está organizado propositalmente,agrupando os participantes desta genealogia em três grupos com catorze nomes em cada. O qual faz uma relação direta com o fundador da dinastia davívica, Davi possuiu o somatório de suas consoantes em catorze. Tal grupamento se deve ao propósito do livro de Mateus de apresentar Jesus como o Messias davídico.

Mateus em todo seu evangelho apresenta Jesus como o salvador do mundo, o grande prometido, o Rei do qual o seu reino jamais passará. E ele o faz desde o primeiro capítulo de seu livro. A genealogia relatada, além de apresentar os ancestrais de Jesus, tem o objetivo de gritar a todos os leitores que Jesus é o filho de Davi, o Messias davíco, o Salvador do mundo.

Thiago Maillo

Aluno do quarto ano de teologia - UNASP 2

 Bibliografia

MOUNCE, Robert H. Novo comentário Bíblico Contemporâneo, São Paulo: Vida, 1996.

BROWN, Raymond E.; FITZMYER, Joseph A.; MURPHY, Roland E. Comentario  Bíblico San Jeronimo, Madri: Ediciones Cristiandad, 1972.

COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Discionario Internadional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 2009.

HAGNER, Donald A. Word Biblical Commentary, New York: Since, 1993.

HENRY, Matthew. Commentary on The Whole Bible, Michigan/USA: Zondervan,1975.

PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everett F. The Wycliffe Bible Commentary, Chicago: Moody Press, 1968.

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Hagnos, 2009.

LUZ, Ulrich. Matthew 1-7 a Commentary. Augsburg Fortress/MN:   , 1989.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testameno, Belo Horizonte/ MG: Atos, 2008.

DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia, São Paulo: Vida Nova, 1997.

HENDRIKSEN, William. Comentário Novo Testamento Mateus Volume 1, São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo Novo Testamento Volume 1, Santo André/SP: Geográfica, 2006.

HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento, Curituba/PR: Evangélica Esperança, 1996.

TASKER, R. V. G. Mateus Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova, 1991.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo,      : Candeira,     .

BARCLAY, Willian. Comentário do Novo Testamento,

VINE, E. W.; UNGER, Merril F.; JR, Willian White. Discionário Vine, Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

[1] Genealogia:

[2] Comentário bíblico San Jeronimo

[3] O Novo comentário da Bíblia, p 948.

[4] Beacon bible commentary, 27.

[5] A segunda divisão da genealogia de Jesus inicia em Davi e finda no exílio, no evangelho de Mateus é somado apenas 14 gerações, entretanto segundo relato de1Cronicas 1-3, que corresponde ao mesmo período indicado por Mateus, o total de gerações são 18.

A terceira divisão, a qual parte do exílio e é concluída em Jesus, é apresentado por Mateus como que somando 14 gerações, entretanto segundo Lucas 3:23-27 – nos é mencionado 22 gerações.

[6] Hebraico

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