sexta-feira, 12 de outubro de 2012

SERES VIVENTES, QUERUBINS E SERAFINS

Querubins e Serafins são duas designações usadas por escritores bíblicos para seres angelicais. Os Querubins são os mais citados, sendo a primeira referência a eles feita já no Gênesis, quando Deus os pôs como guardas no Jardim do Éden, para evitar o acesso à Árvore da Vida. São citados 60 vezes no AT, a grande maioria delas com associação a construção do tabernáculo no deserto e ao Templo de Salomão, e uma no NT (Hb 9:5) . Já as referências a Serafins são restritas a duas no capítulo 6 de Isaías.

A palavra querubim em português provêm do plural hebraico de Kerûb, sendo a forma mais usada na Bíblia. Embora seja incerto seu significado, o verbo cognato acadiano significa “abençoar, louvar e adorar”1.  Os Querubins  são associados à presença de Deus e a adoração, estando próximos ao trono de YHWH (2 Sm 6:2; 2 Re 19:15; 1 Cr 13:6; Sl 80:1 e 99:1; Is 37:16) algumas vezes carregam  a Deus e/ou Seu trono (1 Cr 28:18; Sl 18:10-11; 2 Sm 22:11). Na descrição do Templo Simbólico de Ezequiel, havia querubins desenhados nas paredes e nas portas, querubins com 2 rostos, um para esquerda outro para a direita, um de homem outro de leão (Ez 41:18-20). Segundo o profeta, tinham os querubins quatro rostos e quatro asas (Ez 10:21). De Satanás é dito que era um querubim (Ez 28:14 e 16).

O termo Serafim (do hebraico plural de Seraph) literalmente significa “os ardentes”. Ocorre apenas em Isaías 6: 2 e 6:6, são descritos possuindo seis asas e estão próximos ao trono de Deus. Obedecem as ordens de YHWH e clamam “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6:3).

É preciso falar dos Seres Viventes (Hahayah; Zoon). Descritos inicialmente em Ezequiel 1. Em número de quatro, semelhante a homens, tinham quatro rostos e quatro asas, as pernas como de bezerro brilhavam como o bronze polido, debaixo das asas mãos como de homens. Seus rostos (quatro cada um) eram como de homem, de boi, de águia e leão. Duas asas se uniam com as dos outros e duas cobriam seus corpos. Eram extremamente brilhantes e ziguezagueavam como o relâmpago (Ez 1:13 e 14). Ezequiel confirma que os Seres Viventes são os mesmos Querubins vistos nos capítulos 10-12 (Ez 10:15 e 20). Aparentemente estes mesmos seres são descritos por João no Apocalipse. São também quatro seres, mas aqui com apenas um rosto, no entanto cada um dos quatro tem rostos diferentes. Um de homem, outro de águia, outro de boi e o outro de leão. Segundo João possuem seis asas e estão cheios de olhos por dentro e por fora. Também louvam a Deus sem parar clamando: “Santo, Santo, Santo é o Senhor, o Todo-Poderoso, Aquele que era, que é e que há de vir” (Ap 4:6-8).

As descrições apresentam diferenças no que tange aos seres descritos, no entanto existe  mais semelhanças que diferenças. Observe a tabela:


Querubins
(Ez 1)
Seres Viventes
(Ez 10)
Seres Viventes
(Ap 4)
Serafins
(Is 6)
Visão do trono de Deus
Visão do trono de Deus
Visão do trono de Deus
Visão do trono de Deus
Quatro seres
Quatro Seres
Quatro Seres
Incerto
Quatro Asas
Quatro Asas
Seis Asas
Seis Asas
Quatro Rostos
(Homem, Leão, Boi, Águia)
Quatro Rostos
(Homem, Leão, Boi, Águia)
Um Rosto
(Homem, Leão, Boi, Águia)
Incerto

Cheios de Olhos
Cheios de Olhos

Asas cobrem o corpo ou parte dele


Asas cobrem o corpo ou parte dele


Clamam “Santo, Santo, Santo”
Clamam “Santo, Santo, Santo”
Muito Brilhantes (v. 13)


“Ardentes”

Acesso a brasas do altar

Acesso a brasas do altar

As semelhanças se intercalam, havendo similaridades entre as quatro descrições.  O texto de Apocalipse se assemelha a Ezequiel nos rostos e no termo usado (Seres Viventes) e ao mesmo tempo descreve os Seres Angelicais com seis asas como os Serafins de Isaías. É também semelhante a Isaías no clamor deles ao dizerem “Santo, Santo, Santo”. Já Isaías e Ezequiel se assemelham no acesso a brasas do altar e no brilho dos seres, já que o próprio termo “Serafim” significa literalmente  “ardentes”, isto é, brilhantes.

Assim, as tentativas de estabelecer uma “Ordem Angelical” baseada nestes textos pode ser mais difícil do que alguns autores pressupõem. Ao contrário, parece na verdade haver grandes semelhanças entre as quatro descrições destes seres nos três autores, sendo João o grande harmonizador dos relatos de Ezequiel e Isaías.

Textos de Ellen White

Analise alguns textos do Espírito de Profecia que tratam do tema. A maior parte parece indicar que Ellen G. White apoiava a idéia de ordens angelicais.

Estes querubins tinham asas. Uma asa de cada anjo estendia-se para o alto, enquanto a outra asa de cada anjo cobria seu corpo. A arca do santuário terrestre era o modelo da verdadeira arca no Céu. Lá, ao lado da arca celestial, permanecem anjos vivos, um em cada extremidade, e cada um deles, com uma asa estendida para o alto, cobre o propiciatório, enquanto a outra asa se dobra sobre o corpo, em sinal de reverência e humildade. (HR 153-154)

Do templo celestial, morada do Rei dos reis, onde milhares de milhares O servem, e milhões de milhões estão diante dEle (Dan. 7:10), templo repleto da glória do trono eterno, onde serafins, seus guardas resplandecentes, velam o rosto em adoração; sim, desse templo, nenhuma estrutura terrestre poderia representar a vastidão e glória. (Cristo em seu santuário, 37-38)

Querubins, serafins e anjos magníficos em poder, estão à destra de Deus, sendo "todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação". Heb. 1:14. (Atos dos Apóstolos, pág. 154).
Ao ascender Cristo, Suas mãos se estenderam em bênção sobre Seus discípulos.

Enquanto olhavam atônitos para o alto, procurando captar o último vislumbre da ascensão do Senhor, foi Ele recebido pela jubilosa hoste celestial de querubins e serafins. (MM Cristo Triunfante, 21/12/2000)

Há outros textos semelhantes que parecem fazer uma clara distinção entre serafins e querubins, há no entanto um grupo de textos que sugerem uma outra abordagem.

" E o exército angelical, anjos e arcanjos, querubins cobridores e serafins gloriosos, recoam o coro daquele cântico de alegria e triunfo, dizendo: "Amém! Louvor, e glória, e sabedoria, e ações de graças, e honra, e poder, e força ao nosso Deus, para todo o sempre." Apoc. 7:12. MM 30.12.68

EGW fala de toda a hoste celestial e cita Arcanjos. Ora, sabemos que Arcanjo só existe um, o grande Miguel, um dos nomes de Cristo, o líder dos anjos. Isto ela mesma reconhece em outro texto.

Se [os jovens] receberem a Cristo e crerem nEle, serão conduzidos a íntima relação com Deus. Ele lhes dará o poder de serem filhos de Deus, de se associarem com os mais altos dignitários do reino do Céu, a unir-se com Gabriel, com os querubins e serafins, com anjos e o Arcanjo. (Verdade Sobre os Anjos, 285)

Outro texto parece mais próximo do conceito mais livre ao tratar deste tema:

Quando Jó ouviu do redemoinho, a voz do Senhor, exclamou: "Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza. Jó 42:6. Foi quando Isaías viu a glória do Senhor e ouviu os querubins a clamar - "Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos" - que exclamou: "Ai de mim, que vou perecendo!" Isa. 6:3 e 5. (GC 471)

Aqui, a escritora diz que Isaías viu a glória do Senhor e ouviu os querubins a proclamar a santidade do Senhor. Ora, Isaías é o autor do termo serafins e foi esta a designação que usou no texto citado por Ellen White. Claro que ela sabia deste fato, como o fez aqui:

Isaías disse: "No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o Seu séquito enchia o templo. Os serafins estavam acima dEle; cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, e com duas cobriam os pés, e com duas voavam. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a Terra está cheia da Sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça." Isa. 6:1-4 (CPPE, 375-376)

Este modelo sugere que Ellen White não estava preocupada em descrever detalhada e rigorosamente os “tipos” de anjos existentes. Estava apenas tomando os termos bíblicos e escrevendo livremente sobre eles, assim, não podemos usar os textos do Espírito de Profecia para tentar ‘provar’ este ou aquele ponto de vista sobre este assunto. Isto é próprio do profeta, visto ser um tema secundário.

É factível que Ezequiel, Isaías e João tiveram visões do trono do Altíssimo e buscaram descrever o que viam com suas palavras. João que conhecia ambos os textos de Isaías e Ezequiel compreendeu que via a mesma coisa que os dois e usou linguagem emprestada dos dois profetas anteriores. Descrever realidades além de nossa humana compreensão não é tarefa simples, assim, Ezequiel tem bastante dificuldade em explicar as quatro rodas que seguem o séquito divino. Disto também a confusão relativa a número de asas, número de rostos e outras diferenças que ao leitor superficial parecem só opor entre si a ponto de imaginar-se seres diferentes para cada uma das aparições. Devemos nos lembrar novamente que trata-se de realidades das coisas celestiais, muito acima de nossa capacidade cognitiva.

Logo, deduz-se que serafins, querubins e seres viventes são as mesmas criaturas angelicais, os seres mais poderosos do universo depois do criador e que o assistem diretamente diante de Seu trono, servindo como seres do primeiro escalão celeste.

A QUARTA DIMENSÃO

Proponho uma explicação para as aparentes discrepâncias entre as narrativas proféticas. Como dito, os profetas tiveram visões de coisas que estavam acima da compreensão mortal. Como entender isto melhor? Talvez, uma chave esteja no conceito das dimensões da física teórica.

Os seres humanos vivems na terceira dimensão. Estão presos a ela. A terceira dimensão é dos objetos tridimensionais, isto é, que possuem comprimento, altura e largura, como o cubo, por isto o cubo é o símbolo gráfico da terceira dimensão.

Para compreender melhor o argumento, imagine um objeto que “vive” na segunda dimensão (a partir daqui, as idéias foram elaboradas com base no argumento de Carl Sagan, veja vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=v3JiWEcBR-U). A segunda dimensão comporta largura e comprimento, mas não altura. Todos os objetos são planos e temos o quadrado como símbolo gráfico desta dimensão.

Imagine o quadrado vivendo em sua terra da segunda dimensão, ele nunca pode olhar para cima e para baixo, apenas para os lados. Um dia, um objeto da terceira dimensão (uma maçã) vem passear na segunda e tenta se comunicar com o quadrado, ela esta acima dele, ela esta vendo o quadrado, mas o quadrado não pode vê-la, já que não pode olhar para cima. O objeto 3D, uma maçã, resolve então aparecer na terra da segunda dimensão e para o susto do nosso quadrado, ela aparece na frente dele. Acontece, que a maçã pode apenas aparecer aí como um plano, como se fosse um carimbo de maçã. Para o pobre quadrado, a maçã apareceu do nada. Ela então resolve levar o quadrado para dar uma volta na terceira dimensão. Ele sai de seu mundo plano e vê tudo do alto pela primeira vez. Ele não entende o que esta vendo, ele vê seus amigos Sr. Círculo e Sra. Triângulo, vê suas casas, pode ver tudo, mas eles não podem vê-lo (esta é uma conseqüência de se mudar de dimensão, se recebe uma espécie de visão de raio-x, que permite ver tudo na dimensão inferior). Quando ele volta, aparece como que do nada para seus amigos que perguntam o que aconteceu, ele tenta explicar sua incrível experiência em outra dimensão, mas não consegue.
Tenha uma breve idéia do que aconteceria se fosse para a quarta dimensão. A quarta dimensão tem como símbolo gráfico o hipercubo ou tesserat, cuja a representação gráfica é esta:


No desenho acima, um cubo em quatro dimensões. Se estivesse na quarta dimensão, vería todos os ângulos retos e tudo ao mesmo tempo. Sempre que representa realidades de uma dimensão superior em outra inferior, perde-se algo. Desta forma, a representação serve apenas para dar uma idéia da outra dimensão. Os seres humanos, como seres da terceira dimensão não conseguem descrever ou imaginar corretamente como é a quarta dimensão.

Imagine um profeta do sexto século antes de Cristo tentando descrever realidades de uma dimensão que não era a dele, quanta dificuldade teria. Talvez agora você consiga entender a confusão com seres ora com quatro faces, ora com uma, ora seis asas, ora quatro, rodas que se movem para qualquer lado sem se virar e outras descrições fantásticas como seres cobertos de olhos por dentro e por fora (uma alusão a completa visão de nossa dimensão?). Não sou especialista em física (longe disto), mas o conceito de dimensões pode explicar muitos dos fenômenos vistos na bíblia, e talvez, vislumbrar um pouco o significado das “regiões celestes” (Ef 6:12). Espero que este texto tenha despertado sua curiosidade sobre o assunto e seu desejo de conhecer melhor a Bíblia, seus ensinos e conceitos.
________________

1 Harris; Archer; Waltke . Dicionário Internacional de Teologia do AT, 1036  Kerûb, p.746. Harris.
Links com informações úteis para a compreensão das dimensões.
http://www.youtube.com/watch?v=v3JiWEcBR-U
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/revista-ch-2006/230/entrevista-lisa-randall-muito-alem-das-tres



Pr. Roberto Roefero, mestrando em teologia, formado no bacharelado em 2001 atualmente no distrito de Fernandópolis SP, casado com a Prof. Pauline pai de 2 filhos, Paulo Roberto (5) e Maria Carolina (2).

1 comentários:

  1. FOI FANTÁSTICA AS INFORMAÇÕES ENCONTRADAS NO TEXTO
    PARABÉNS PASTOR ROBERTO
    ESSE SERÁ O NOSSO TEMA DO "TE VEJO NA SEXTA" JA URUPÁ-RO.

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