quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Missão ou Conservação

Em 20 anos a igreja dobrou o número de membros, mas esta é só parte da estatística, o índice de apostasia é de 55% a 60%. Os líderes estão preocupados e apontam várias causas, dentre elas, o fato de existirem poucos ministros e estes não terem tempo suficiente para prestar adequada assistência pastoral, excessivo tempo gasto na promoção de programas e campanhas em vez de promover o evangelho, templos mal localizados e pouco equipados e líderes leigos despreparados. Muitos ao verem os membros afastados manifestam uma atitude punitiva ao invés de desejar recuperá-los SCHWARZ E GREENLEAF, 346). O Evangelismo passou na minha igreja e batizaram 120 mas apenas 20 permaneceram (MINISTÉRIO, 1954).

Os evangelismos estão cada vez mais ineficientes. O problema é que os evangelistas dependem demais de métodos artificiais e batizam grande número de pessoas sem um preparo adequado e sem lidar com os problemas que acompanham a conversão como emprego após adotar o sábado como dia de guarda (SCHWARZ, 341). Os próprios evangelistas preocupados com a situação e crítica pelo seu fracasso em ensinar adequadamente seus conversos estão utilizando uma abordagem mais cristológica, pois crêem que uma vez que o membro aceite a Cristo em primeiro lugar, não se tornarão migrantes espirituais, indo de uma igreja para outra (SCHWARZ, 339).

Penso que ao ler estes dois parágrafos, a maioria absoluta dos leitores simpatiza com as afirmações e se vê preocupada com a situação atual da Igreja. No entanto estas afirmações são apenas história. Elas foram feitas nas décadas de 1920 a 1950. Talvez você esteja surpreso ao constatar que a maioria dos problemas que afligem hoje a igreja já foram enfrentados diversas vezes na história da igreja. “Não há nada novo debaixo do sol”  (Ec 1:9) diz o sábio pregador. Tenho ouvido membros da igreja de maneira constante e ultimamente mesmo líderes e pastores ansiosos com a situação da “porta de trás aberta”, afirmando contundentemente que nosso problema HOJE (vejam só!) é o grande número de apostasias. No entanto, como percebemos, este problema não é novo e portanto não pode ser o maior problema da igreja de hoje, como se imaginássemos que no passado as coisas fossem diferentes. Mas se este não é o problema, então qual é? Baseado nos números que a própria Conferência Geral disponibiliza a todos nós em seu sítio (http://www.adventiststatistics.org/view_Summary.asp?FieldInstID=1951549), gostaria de fazer uma reflexão e uma sugestão de onde está nosso problema.

Vou ilustrar o texto com uma série de gráficos e tabelas que nos ajudarão a compreender melhor o assunto.

Vamos começar analisando o argumento já descrito acima, que entende ser a perda de membros o maior problema da igreja hoje. Veja o gráfico que mostra a diferença entre o que a igreja batizou no ano e o que sobrou de ganho (número de batismos - total do crescimento no ano). Por exemplo, o pico de perdas aconteceu no ano de 1914. Neste ano, a igreja iniciou o ano com 122.386 membros, encerrou o mesmo ano com 125.844 batizou 14.999 pessoas, teve assim um ganho neto de 3.458 pessoas, o que significa uma perda comparada com o total de batismos equivalente a 76,95% do total de batismos. Já em 1919 acontece o ponto mínimo, onde perdemos apenas o equivalente a 7,1% do total de batismos. Olhando para o gráfico percebemos fortes oscilações nos anos 2010. Isto se dá devido ao acerto de secretarias promovidos por duas divisões mundiais, a Divisão Sul-Americana que de 2007 a 2010 perdeu 1.366.031. A outra é a Divisão Ásia-Sul do Pacífico que entre 2003 e 2005 retirou de seus registros 597.362 nomes. É claro portanto que estes números afetaram o resultado geral da Igreja. Feito estas ressalvas, vemos que ainda assim o pico dos anos 2010 acontecido em 2008 sequer alcançou o pico histórico em 1914 (62,48% X 76,95%).



As bruscas oscilações de um ano para outro em diversos pontos do gráfico talvez não permitam uma avaliação adequada da curva de tendência histórica. Será apresentado então um gráfico com a mesma informação (perdas em percentual de batismos) mas agora com as médias decenais, o que elimina as variações e oscilações bruscas e dá uma visão melhor da tendência.



Podemos perceber neste gráfico que realmente a taxa de perdas aumentou nesta última década, ficando de 2001-2010 em 47,9% (significa que de 1000 batismos tivemos 479 pessoas removidas). É um número alto, porém menor que o pico de perdas que aconteceu entre 1941-1950 que ficou entorno de 48,5% e próximo da média de 1921-1930 (47,5%) e 1931-1940 (46,7%). Assim, esta não é a pior década em perdas e fica na média encontrada entre 1921-1950. Percebe-se que as perdas caíram nas décadas seguintes até seu ponto mais baixo entre 1981-1990 que ficou em 28,7%. Vale lembrar ainda que nesta década de 2001-2010 tivemos as revisões de secretária das duas divisões já citadas, com perdas expressivas que alteraram o quadro das remoções da igreja mundial.

O que podemos perceber é que vivemos realmente um problema no aumento das perdas, no entanto, elas não são maiores do que em períodos passados e que tivemos esta alteração histórica devido ao fato dos recentes ajustes de secretaria das divisões Sul-Americana e Ásia-Sul do Pacífico. Assim, embora seja uma problema a nos preocupar não é nada com o que já não tenhamos lidado anteriormente.

   
Crescimento de Batismos

Gostaria de apresentar agora um número realmente preocupante e historicamente inédito. Um problema maior com o qual devemos de tratar com urgência. O gráfico a seguir apresenta os batismos registrados ano a ano desde 1913 até 2010.



Perceba neste gráfico que o número de batismos teve um crescimento contínuo desde 1913, quando se iniciou a série histórica até o ano de 1999. A partir daí este número se estabilizou e por dez anos não cresceu mais, quebrando a tendência de crescimento verificada desde 1913. Este é um número preocupante,  já que é uma novidade na história da igreja. É bom ressaltar também que este número não é diretamente afetado pelos cortes em número de membros promovidos pelas divisões Sul-Americana e Ásia-Sul do Pacífico. O próximo gráfico irá apresentar a taxa de crescimento de batismos por década e mostrará mais claramente o problema.



Note que durante toda a série histórica houve crescimento percentual em número de batismos. De 1913-1920 este crescimento foi de 14%, o menor da história excluindo os anos 2001-2010. O pico aconteceu entre 1981-1990 quando o número de batismos cresceu 70%. O grande problema está justamente na década passada. Entre 2001-2010 o número de crescimento de batismos ficou em -1%, não que os batismos tenham simplesmente diminuído, é que pela primeira vez eles ficaram com taxas de crescimento negativas. Agora fica mais fácil perceber o desvio da curva de crescimento no número absoluto de batismos do gráfico com a série histórica de batismos (gráfico 3). Este é o maior problema que como igreja enfrentamos. Poucos talvez tenham se apercebidos deste fato e muitos têm se concentrado em preocupar-se com o número de perdas, sem notar que as perdas, embora altas, estejam dentro dos números históricos, enquanto o crescimento no número de batismos da década passada ficou negativo pela primeira vez na história.

Quero agora mostrar um comparativo entre o número de perdas e o crescimento no percentual de batismos e fazer uma análise do gráfico.



Nota-se no gráfico que o crescimento de batismos acompanhou as perdas até a década de 1960, quando a situação se inverteu. Isto significa que a partir daí, quanto mais se batizou, menos perdas tivemos. Veja os extremos de 1981-1990, tivemos perdas de 28,2% comparado com o total de batismos (o menor valor da série histórica) e ganhos de 71% no aumento do número de batismos o maior valor em todas as décadas. Em contraste, de 2001-2010 as perdas estiveram na casa de 47,9% enquanto o crescimento de batismos ficou em -1%. Vemos que quanto mais batismos temos, menor perda se apresenta.

Mas qual a razão para este fato? Uma sugestão será apresentada. Quanto mais nos preocupamos com a manutenção, mais fracos espiritualmente ficamos e o efeito perverso é justamente o contrário do que desejamos, isto é, quanto mais nos preocupamos com a preservação dos membros, focando nisto, criando programas, gastando recursos, tempo e finanças, mais perdemos membros, já que deixamos de lado nosso verdadeiro foco que é a missão. Logo, mesmo o pouco que batizamos acabamos perdendo, enquanto, quando enfocamos batismo e crescimento (missão) as igrejas reavivam, os recém conversos entram em igrejas que trabalham e logo também se envolvem na missão e membros que testemunham e trabalham, não apostatam nunca.

Os cristãos, cujo zelo, fervor e amor crescem constantemente, não apostatam nunca.

São aqueles que não se acham empenhados nessa obra desinteressada os que se acham numa condição enferma, e chegam a esgotar-se com lutas, dúvidas, murmurações, pecados e arrependimentos, até perderem toda a consciência do que seja a verdadeira religião. Reconhecem que não podem volver ao mundo, e assim penduram-se às extremidades de Sião, tendo ciúmes mesquinhos, invejas, decepções e remorsos. Estão cheios de espírito de crítica, e alimentam-se das faltas e erros de seus irmãos. Têm apenas uma vida religiosa despida de esperança, de fé, de sol.

Não há senão um remédio verdadeiro para a indolência espiritual, e esse é trabalhar - trabalhar pelas almas que necessitam de vosso auxílio. (WHITE, 2008, 107)

Uma igreja que trabalha é uma igreja viva (WHITE, 2009, 332)
   
Deveríamos voltar nossas atenções novamente para a missão da igreja, não permitindo que nada demovesse nossos maiores interesses, tempo e recursos para a obra para a qual a igreja foi chamada por Cristo, fazer novos cristãos. Isto se traduz na igreja no número de batismos. Uma igreja “batizadora”, é uma igreja viva, com membros animados e envolvidos com o trabalho. Recém conversos que encontram este ambiente ao entrarem na igreja, logo também estarão trabalhando e se tornarão membros fortes e animados, isto diminui as perdas e a igreja assim cresce mais em números e espiritualmente. O melhor programa de manutenção dos novos conversos está em fazer a igreja se envolver no trabalho de ganhar novos conversos. Não é absolutamente uma questão de isto ou aquilo, ou nos preocupamos em ganhar mais ou nos preocupamos em conservar. Já que tempo, energia e recursos serão sempre limitados, precisamos nos concentrar onde gastá-los, e o segredo está em usá-los na missão. E assim, também se resolve o problema da perda de membros. Isto sim é verdadeira sinergia.


REFERÊNCIAS
SCHWARZ, Richard e GREENLEAF, Floyd. Portadores de luz: história da igreja adventista do sétimo dia, Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2009.
WHITE, Ellen G. Medicina e Salvação, Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 3 ed. 2009.
________, Serviço cristão, Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 9 ed. 2008.

APÊNDICE






Pr. Roberto Roefero, mestrando em teologia, formado no bacharelado em 2001 atualmente no distrito de Fernandópolis SP, casado com a Prof. Pauline pai de 2 filhos, Paulo Roberto (5) e Maria Carolina (2).

1 comentários:

  1. gostaria muito que as palavras do pastor tornasse-se realidade. não discordo em nada do que ele falou. Destarte penso que algumas colocações poderiam serem válidas.

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