sábado, 9 de junho de 2012

XXXII - COMPREENDENDO O MILÊNIO - Apocalipse 19 e 20

Primeiro devemos determinar as relações entre a visão de João a respeito dos "mil anos" e o contexto imediato do Apocalipse, ou seja os capítulos 19 e 21, antes de que possamos compreender o significado do capítulo 20. Também devemos averiguar que conexões possíveis existem entre Apocalipse 20 e as profecias do Antigo Testamento. Devem responder-se estas perguntas de exegese antes de estabelecer qualquer opinião dogmática de Apocalipse 20, uma das passagens mais problemáticas que há na Bíblia. O enfoque contextual deve preceder sempre o dogmático ao fazer uma exegese responsável das Sagradas Escrituras.

O Contexto de Apocalipse 19

"Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo" (Apoc. 20:1-3).

O termo "milênio" significa literalmente "mil anos", e o período dos anos a que se alude como o milênio só se menciona em Apocalipse 20. A relação desta passagem com a visão precedente de Apocalipse 19:11-21 é clara e amplamente reconhecida pelos eruditos. A visão do Armagedom de Apocalipse 19 constitui tanto a expansão final de Apocalipse 16 a 18 como a introdução a Apocalipse 20. Dessa maneira, Apocalipse 19 forma uma parte essencial da visão do milênio.

Os inimigos de Cristo do tempo do fim são a besta, os reis da terra com seus exércitos e o falso profeta (Apoc. 19:19, 20). Na volta de Cristo como o Rei e Juiz de toda a terra, "Os dois [a besta e o falso profeta] foram lançados vivos dentro do lago de fogo que arde com enxofre" (v. 20). E "outros", ao parecer "os reis da terra e seus exércitos" (v. 19), foram mortos pelo impacto da vinda de Cristo (v. 21). Apocalipse 20 revela que Satanás, o gênio criador de toda rebelião será "preso", encerrado e selado por um anjo de Cristo (vs. 1-3). Depois do milênio será "lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam a besta e o falso profeta" (v. 10, BJ).

A continuidade de Apocalipse 19 e 20 chega a ser até mais evidente se se observar que a seqüência na qual são julgados os inimigos de Cristo acontece em uma ordem inversa à ordem em que aparecem pela primeira vez no livro do Apocalipse. Em Apocalipse 12 foi primeiro mencionado o dragão, depois vem a besta e o falso profeta no capítulo 13, e finalmente Babilônia no capítulo 14. Seu destino final se descreve em uma seqüência oposta: primeiro vem a queda de Babilônia em Apocalipse 16 a 18; depois são destruídos a besta e o falso profeta em Apocalipse 19, e finalmente, no 20, depois de mil anos, o dragão é executado. Esta composição literária do surgimento e queda dos principais inimigos de Cristo manifesta a ordem progressiva de Apocalipse 12 a 20 e sua unidade estrutural. Estes capítulos mostram um "desenvolvimento magistral" de pensamento e de tema que avança firmemente para a culminação, a consumação da guerra cósmica entre o céu e a terra. Dessa maneira, a progressão avança da queda de Babilônia até o castigo dos agentes de Satanás, e termina com a eliminação do pecado e do próprio Satanás.

A Seqüência Cronológica de Apocalipse 19 e 20

Evidentemente, os acontecimentos descritos em Apocalipse 19:11-20:10 seguem uma ordem cronológica. Isto está claro da seqüência das visões nas que as aves de rapina são convidadas a ir à grande ceia de Deus (Apoc. 19:17, 18), seguida pela visão em que todas as aves "saciaram-se das carnes deles" (vs. 19-21). Há uma notável progressão de eventos nestas duas visões. A declaração de Apocalipse 20:10 proporciona a evidência direta da ordem cronológica das visões de Apocalipse 19 e 20, quer dizer, "o diabo que os enganava, foi arrojado no lago de fogo e enxofre, onde estavam a besta e o falso profeta" (20:10). Esta última referência ao juízo da besta e de seu profeta se descreve em 19:20 como acontecendo antes, na segunda vinda (19:19).

Outra indicação de uma seqüência cronológica é a observação de que os eventos descritos em Apocalipse 19:11 a 20:6 são análogos à ordem dos eventos em Daniel 7. Tanto em Daniel como no Apocalipse o anticristo é consumido por meio de fogo quando o Messias vem em sua glória do céu (Dan. 7:11-14, 25; Apoc. 19:20). Em ambos os livros, imediatamente depois da destruição do anticristo, o reino é dado aos santos (Dan. 7:22, 27; Apoc. 20:4-6).

Portanto, como o juízo do anticristo na segunda vinda ainda está no futuro, o reino milenário dos santos que segue à destruição do anticristo também deve ser futuro. Estamos de acordo com a conclusão do Jack S. Deere: "Dessa maneira, sobre a base de Daniel 7, é mais natural ler Apocalipse 20:4-6 como parte de uma progressão cronológica em seu contexto mais amplo (19:11-20:15), do que como uma recapitulação".1 Inclusive o erudito católico do Novo Testamento, Rudolf Schnackenburg reconheceu que "um salto atrás ao tempo da parousia em Apocalipse 20:1-3 é altamente inverossímil".2 Enquanto que reconhecemos o papel geral da recapitulação na estrutura do Apocalipse como um tudo, a seção de Apocalipse 19:11 a 20:15 apresenta claramente uma ordem lógica e cronológica.

Além disso, Ezequiel apresenta uma série consecutiva de visões nas quais o reino messiânico (caps. 36 e 37) é seguido por uma guerra encabeçada por Gogue de Magogue (caps. 38 e 39). Depois da guerra chega o reino eterno centralizado em uma Nova Jerusalém (caps. 40-48). George Ladd concluiu dizendo que "a profecia do Ezequiel tem a mesma estrutura básica que a de Apocalipse 20".3 O erudito apocalíptico Jeffrey Vogelgesang declarou: "João [em sua ordem de Apoc. 19:11 a 21:8] segue o modelo do Ezequiel 34 a 48".4 Isto significa que uma análise básica da ordem dos eventos futuros tal como aparecem em Ezequiel (caps. 37-40) é essencial para um enfoque correto de Apocalipse 19 a 21. Esta comparação é obrigatória se se reconhecer que "João, o profeta cristão banido, modelou sua obra sobre o livro do Ezequiel, o grande profeta do desterro babilônico".5 A estrutura paralela do Apocalipse com Ezequiel levou a Vogelgesang à seguinte conclusão: "Esta é uma prova conclusiva de que Daniel utilizou diretamente a Ezequiel".6

Em resumo, um estudo do milênio de Apocalipse 20 requer uma análise não só de seu contexto imediato, mas também do amplo contexto dos livros proféticos de Israel no Antigo Testamento. Desta dupla perspectiva, o contexto imediato e o mais amplo, discernimos a intenção de João de colocar o reino messiânico do milênio depois da segunda vinda de Cristo.

A Visão do Armagedom: O Fim da Humanidade Pecadora

"Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no os exércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linho finíssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES" (Apoc. 19:11-16).

Apocalipse 19 apresenta uma representação muito vívida da vinda de Cristo e da batalha do Armagedom, antecipada brevemente em Apocalipse 16:13-16 e 17:12-14. Cristo  é descrito como o Guerreiro vitorioso que desce do céu sobre um cavalo de batalha dirigindo um exército imenso de anjos (Apoc. 19:11, 19; cf. Mat. 24:31; 25:31). Como o Messias-Rei (ver Apoc: 5:5), vem para reclamar este planeta como seu domínio legítimo. Em sua cabeça há "muitos diademas" (19:12). Nem o dragão com suas sete cabeças (12:3) nem a besta com seus dez chifres (13:1) receberam a autoridade do Criador para reinar sobre a humanidade. Cristo volta como o legítimo "Rei dos reis e Senhor dos senhores" (19:16). Ele sozinho está autorizado pelo Pai a governar sobre a terra. Ele sozinho executará a vontade de Deus porque é "o Verbo de Deus" (v. 13), a manifestação da vontade de Deus para a humanidade. Em quatro descrições simbólicas, todas tiradas dos profetas, Cristo é descrito como o Rei-Juiz de toda a terra. A revelação de que o Senhor ressuscitado executará as predições do juízo hebraico constitui uma mensagem assombrosa.
A. "Está vestido com um manto tinto de sangue" (Apoc. 19:13).

B. "Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações" (Apoc. 19:15).
C. "Ele mesmo as regerá com cetro de ferro" (Apoc. 19:15).

D. "E, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso" (Apoc. 19:15).

Estas quatro descrições de juízo indicam como se levará a cabo o fim da era da igreja a justiça retributiva de Deus, tal como aparece em Isaías 11, 34, 63, Joel 3 e Salmo 2.7 João usa as metáforas dos profetas para expressar o juízo de Deus sobre o Império Babilônico, um juízo que desdobra a "ira de Deus" na segunda vinda. Apocalipse 19 enfatiza o fim de toda a vida sobre o planeta.

"Então, vi um anjo posto em pé no sol, e clamou com grande voz, falando a todas as aves que voam pelo meio do céu: Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para que comais carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e seus cavaleiros, carnes de todos, quer livres, quer escravos, tanto pequenos como grandes" (Apoc. 19:17, 18).
O convite do céu às aves de rapina para assistir à grande ceia de Deus está em contraste deliberado com o convite anterior: "Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro!" (Apoc. 19:9). Evidentemente, Deus proporcionará ambos os banquetes: um para Babilônia por ocasião do Armagedom, e outro para Israel no monte Sião (18:4; 14:1). As ceias representam destinos opostos: o gozo mais elevado do companheirismo com Cristo no céu e a angústia inexprimível da separação total de Deus na terra. Esta divisão da humanidade em duas classes foi apresentada durante o sexto selo (6:15-17; 7:1-7). Em outras palavras, Deus proporcionará ou vida eterna ou morte eterna. A responsabilidade iniludível do homem é escolher entre o Cordeiro e a besta, entre Cristo e o anticristo.

Qual é o significado de um anjo de Deus "posto em pé no sol" convidando a todas as aves de rapina "que voam pelo meio do céu" à ceia de Deus? Sugere uma proclamação universal tão importante como a dos três anjos de Apocalipse 14:6-12 que também voam "pelo meio do céu". Agora a convocação celestial se dirige a todos os que fizeram caso omisso do rogo anterior de Apocalipse 14 e que rechaçaram o convite de Deus para estar na caia de bodas do Cordeiro. Esta chamada ao Armagedom segue o antigo estilo oriental de entrar em combate: "Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo  (1 Sam. 17:44). Inclusive Moisés advertiu ao Israel infiel: "O teu cadáver servirá de pasto a todas as aves dos céus e aos animais da terra; e ninguém haverá que os espante" (Deut. 28:26). Uma advertência similar se aplica a todos os que se aliam aos poderes anticristãos.
Entretanto, a principal raiz hebraica da visão que João teve do juízo de Cristo sobre o mundo apóstata, é a de Ezequiel 38 e 39. Este profeta descreveu o assalto de Gogue e de seus aliados sobre o Israel de Deus em seu solo pátrio no tempo do fim nas seguintes palavras:

"Virás, pois, do teu lugar, das bandas do Norte, tu e muitos povos contigo, montados todos a cavalo, grande ajuntamento e exército numeroso; e subirás contra o meu povo de Israel, como uma nuvem, para cobrir a terra; no fim dos dias, sucederá que hei de trazer-te contra a minha terra, para que as nações me conheçam a mim, quando eu me houver santificado em ti os seus olhos, ó Gogue... Porque disse no meu zelo, no fogo do meu furor, que, naquele dia, haverá grande tremor sobre a terra de Israel... Porque chamarei contra Gogue a espada, sobre todos os meus montes, diz o Senhor JEOVÁ; a espada de cada um se voltará contra seu irmão. E contenderei com ele por meio da peste e do sangue; e uma chuva inundante, e grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, e sobre as suas tropas, e sobre os muitos povos que estiverem com ele" (Ezeq. 38:15-22, RC).

"Nos montes de Israel, cairás, tu, e todas as tuas tropas, e os povos que estão contigo; a toda espécie de aves de rapina e aos animais do campo eu te darei, para que te devorem" (Ezeq. 39:4, RA).

"Tu, pois, ó filho do homem, assim diz o Senhor Jeová: Dize às aves de toda espécie e a todos os animais do campo: Ajuntai-vos, e vinde, vinde de toda parte para o meu sacrifício, que eu sacrifiquei por vós, sacrifício grande nos montes de Israel, e comei carne, e bebei sangue...E vos fartareis, à minha mesa, de cavalos, e de carros, e de valentes, e de todos os homens de guerra, diz o Senhor Jeová" (Ezeq. 39:17-20, RC).

O Apocalipse de João estende agora a descrição dos mortos pelo Messias além da lista de nações que aparecem em Ezequiel 39. No Armagedom, os abutres se alimentarão com "carne de todos, livres e escravos, pequenos e grandes" (Apoc. 19:18). João descreve a matança das multidões de Babilônia, reunidas para fazer guerra contra Deus e seu Messias, como algo universal e total. O mundo inteiro será um "monte de matança", um Har Magedon.8 O Apocalipse intencionalmente aumenta o campo de batalha da predição de Ezequiel a uma escala universal. Finalmente, "todas as pessoas" sobre a terra estarão envoltas. Chama-se às aves "que voam pelo meio do céu" para que se fartem da carne de todos os guerreiros que foram mortos, que lutaram contra o Governante divino.
Muitos observaram que Apocalipse 19 não descreve uma batalha real entre o céu e a terra. Como podem seres mortais oferecer resistência contra o Guerreiro divino quando descer da parte oriental do céu? O Apocalipse revela que quando se abrir o céu e a terra tremer por causa de um terremoto universal, o temor paralisará a todo o mundo.

"Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?" (Apoc. 6:15-17).
Sem dúvida a impressão é que não sobreviverá nenhum ser humano rebelde naquele dia. João enfatiza em Apocalipse 19 que "outros" foram mortos com a espada que saía da boca do que montava o cavalo (v. 21). A profecia de Daniel da pedra que caiu do céu já expressa que o reino messiânico esmiuçará a imagem metálica do mundo e converterá a todos os habitantes em pó: "E o vento os levou, e deles não se viram mais vestígios" (Dan. 2:35; também os vs. 44, 45).

A Unidade Maior de Apocalipse 19-21

As palavras "Fiel e Verdadeiro" [pistós kay alezinós] com respeito a Cristo (Apoc. 19:11), e ao que estava no trono no capítulo 21:5, expressam a continuidade entre Apocalipse 19 e 21. Charles H. Giblin observou três unidades correlacionadas dentro da narração de Apocalipse 19:11-21:8.9

A. A vitória do Rei de reis sobre a besta, o falso profeta e os reis da terra (19:11 -21);
B. A vitória sobre Satanás na culminação do milênio (20:1-10);
C. O juízo do trono, com a conquista da morte e o sepulcro e o advento da Nova Jerusalém (20:11-21:8).

O centro focal destas divisões é (A) o Armagedom; (B) o reino milenial; e (C) o juízo final em forma sucessiva. O tema que forma um arco com estas três seções é o Juízo, que revela o resultado final tanto dos fiéis como dos ímpios (ver Apoc. 19:11; 20:4, 12, 13; 21:7, 8).

Este arranjo literário de Apocalipse 19 a 21 revela quão perigoso é desconectar as visões do milênio de seu contexto imediato e depois manifestar uma opinião dogmática do milênio de Apocalipse 20. Pelo contexto sabemos que o juízo de Cristo sobre o dragão, ou Satanás, terá lugar só depois que ele tenha destruído a besta, o falso profeta e as multidões às quais levaram por mau caminho (ver Apoc. 19:19-21; 20:1, 2, 10). Isto significa que a vinda de Cristo será seguida pela prisão de Satanás no abismo no começo do milênio.

O ponto crítico aqui é a questão seguinte: O milênio de Apocalipse 20, apresenta uma recapitulação de toda a história da igreja ou é só a conclusão do plano de redenção? Para responder esta pergunta vamos comparar Apocalipse 20 com o capítulo 12, porque o capítulo 12 apresenta uma narração direta da era da igreja.

Comparação de Apocalipse 12 e 20

As narrações destes dois capítulos tratam com o dragão e a igreja de Cristo. Enquanto que o capítulo 12 mostra como atacou o dragão a esposa de Deus [a igreja], como buscou destruir o Messias, como continuou guerreando contra os anjos no céu, e finalmente como assalta os santos na terra, o capítulo 20 inverte completamente este quadro. William H. Shea resume brevemente este contraste:

"Por outro lado, em Apocalipse 20 se inverte o quadro [de Apoc. 12]. O capítulo começa com um quadro de uma derrota inicial do diabo, e termina com um quadro de sua derrota final. Mas entre estes dois pólos encontramos aos membros vitoriosos da igreja, especialmente os mártires, a quem o dragão tinha derrotado previamente em um sentido físico limitado. Agora viveram na ressurreição e estão reinando com Cristo como sacerdotes para Deus".10

Joel Badina oferece uma comparação mais detalhada:

"Primeiro, no capítulo 12, Satanás é arrojado do céu à terra, enquanto que no capítulo 20 é pacote e arrojado no abismo (20:3). Segundo, no capítulo 12 Satanás é "o enganador de todo o mundo" (12:9), enquanto que no capítulo 20 "não pode enganar mais as nações" (20:3). Terceiro, o capítulo 12 descreve os cristãos como mártires expostos à morte (12:11), enquanto que no capítulo 20 está o tempo de sua ressurreição (20:4, 6). O capítulo 12 é um tempo de maldição (12:12), enquanto que o capítulo 20 é um tempo de bênção (20:6). Por conseguinte é evidente que os capítulos 12 e 20 não descrevem o mesmo período de tempo, e 20:1 não se projeta para trás, ao século I, como o faz o capítulo 12:1. Antes, o capítulo 20:1-10 deve situar-se em forma imediatamente seguinte à era cristã".11

Esta avaliação comparativa de Apocalipse 12 e 20 leva à conclusão de que o milênio de Apocalipse 20 não recapitula a era da igreja que aparece em Apocalipse 12. O milênio segue à era cristã. Shea e outros assinalaram que Apocalipse 12 está colocado dentro das séries históricas do livro (caps. 1-14), enquanto que Apocalipse 20 está colocado dentro do final das séries escatológicas de juízo (caps. 15-22). Dessa forma, Apocalipse 12 revela a atividade do diabo na história da igreja, enquanto que Apocalipse 20 revela o juízo que Deus faz do diabo na consumação final. Esta comparação confirma a conclusão anterior do contexto imediato de que o milênio segue a parousia em Apocalipse 19.

Outra indicação da ordem cronológica de Apocalipse 19 e 20 se encontra na evidência interna da mesma visão do milênio. Durante os "mil anos" os mártires que rechaçaram aceitar a marca da besta do tempo do fim e que perderam sua vida (ver Apoc. 13:15-17; 19:20), voltam de novo para viver e reinam com Cristo como sacerdotes de Deus:

"Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos.... Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição" (Apoc. 20:4-6).
Esta ressurreição dos santos fiéis tem lugar na segunda vinda de Cristo (Apoc. 19:11-16). Paulo tinha ensinado que o segundo advento e a ressurreição dos santos ocorrerão simultaneamente:

"Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro" (1 Tes. 4:16).

O enfoque contextual referente a Apocalipse 20 aponta claramente a um milênio futuro, porque a ressurreição dos santos terá lugar na segunda vinda, quando os santos ressuscitados sejam feitos imortais.

Paulo e o Milênio

Paulo não considerou a ressurreição física de Jesus Cristo como um acontecimento isolado mas sim como a garantia da ressurreição dos mortos:

"Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1Cor. 15:20-22).

O apóstolo continua ensinando que nem todos os mortos ressuscitarão ao mesmo tempo, mas sim haverá uma certa seqüência cronológica no cumprimento das promessas de Deus a respeito da ressurreição:

"Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder" (1 Cor. 15:23, 24).

As palavras "cada um por sua própria ordem" [tágma: grupo, classe] indicam que estão incluídas diferentes classes de pessoas: Cristo, as "primícias", já ressuscitado; depois [épeita: depois] "os que são de Cristo" serão ressuscitados na vinda de Cristo (cf. 1 Tes. 4:16, 17; Mat. 24:30, 31).

A distância temporária entre a ressurreição de Cristo e a de seu povo em seu segundo advento, digamos 2.000 anos mais tarde, não se mencionam, mas está claramente subentendido. Em outra parte Paulo declara que os santos vivos serão "transformados" e receberão a imortalidade ao mesmo tempo que os santos ressuscitados, quer dizer, na parousia (1 Tes. 4:17; 1 Cor. 15:51, 52). Depois o apóstolo declara que só logo [éita] da ressurreição dos santos virá o fim [to télos]. Alguns interpretam isto como "o resto da humanidade",12 porque abrange a todos os que não pertencem a Cristo. Cristo não entregará o reino a Deus o Pai até depois que tenha destruído a "todos os seus inimigos" incluindo o último inimigo, a "morte":

"Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte" (1 Cor. 15:25, 26).

Paulo não menciona um intervalo de tempo entre a ressurreição dos santos na parousia e o fim quando será destruída a morte. Entretanto, vários intérpretes reconhecem que "um segundo intervalo indefinido vai entre a parousia e o fim".13 Paulo declara que a terceira classe [tágma] de pessoas ressuscitadas, aparentemente os que não pertencem a Cristo, seguem logo ao segundo grupo. O transpasse do reino de Cristo ao Pai não terá lugar no segundo advento, e sim depois da destruição da morte. Quanto a isto, é legítimo conectar 1 Coríntios 15:23-28 com Apocalipse 20. Ambas as passagens são parte do cânon das Escrituras e tratam dos mesmos eventos depois do segundo advento.

As visões de João dos mil anos ampliam o ensino do Paulo em 1 Coríntios 15. O Apocalipse revela que o último inimigo do homem, a morte será vencida só depois da destruição de Satanás no lago de fogo e enxofre no fim do milênio: "E a morte e o Hades foram lançados ao lago de fogo. Esta é a segunda morte" (Apoc. 20:14).

A destruição da morte e do Hades é o ato final do reino de Cristo sobre todos os seus inimigos. Paulo viu este mesmo ato como a culminação de "o fim" (1 Cor. 15:24, 26). Nas visões de João, a morte será vencida só depois do milênio, quando tiver sido destruído Satanás (Apoc. 20:10, 14).

Em resumo, concluímos que enquanto que Paulo não ensina explicitamente um reinado milenário de Cristo depois de seu parousia, abre espaço para uma futura "cristocracia" assim em 1 Coríntios 15:24.

A Suposta Duração do Reino Messiânico no Judaísmo

Alguns escritos judaicos apocalípticos anteriores à era cristã contêm a expectativa de um reino de Deus temporário antes do juízo final e a criação de um mundo novo. Este período intermediário pacífico não está conectado com o Messias e sua duração não está especificada claramente nestes escritos pré-cristãos: "O Apocalipse das semanas" em I Enoc 91:12-17; 93:1-10; Jubileus 23:26-31; Os oráculos sibilinos, livro 3:46-62, 781-784. II Enoc 32 e 33 (ao redor do ano 50 de nossa era) contêm a passagem mais antiga da literatura judia que indica que o período intermédio de paz sobre a terra durará mil anos. 14

Durante a segunda metade do primeiro século de nossa era se fez uma distinção nos escritos rabínicos entre a era messiânica e a era por vir. Alguns escritos apocalípticos judeus de perto do fim do século I declaram que o reino messiânico é temporário e que está conectado com a iminente queda de Roma, por exemplo, o Apocalipse de Baruc (ou II Baruc 30) e o Apocalipse de IV Esdras.

O Quarto Livro de Esdras contém a passagem mais concludente de que o Messias morrerá depois de 400 anos junto com todos os outros seres humanos. Depois dessa era messiânica, ocorrerão os seguintes eventos:

"O mundo (presente) voltará ao silêncio primitivo durante sete dias, tal como tinha estado em sua primeira origem; deste modo ninguém sobreviverá. depois de (esses) sete dias, o mundo novo que não foi suscitado ainda despertará e o que é corruptível será aniquilado. A terra devolverá os que dormem nela, o pó aos que descansam em seu silêncio; os sepulcros às almas que lhes foram confiadas. O Altíssimo se revelará (sentado) em seu trono de juízo (Quarto livro do Esdras 7:30-33)".15

Durante a era cristã os primitivos rabinos judeus discutiram a idade da era messiânica, concordando só no ponto de que seria um período limitado entre a era presente e a era por vir. A lista destes períodos de tempo propostos flutua de 40 ou 70 anos, de 400 ou 600 anos a 1.000 ou 2.000 anos e até a 7.000 mil anos.16 Aparentemente, não havia uma forma ortodoxa de opinião.

Entretanto, alguns apocalipticistas insistiram em que a história era uma recapitulação da semana da criação. Assim como Deus tinha trabalhado seis dias e descansado no sétimo (Gên. 1, 2), assim a história duraria seis "dias" de mil anos cada um, para ser seguida pelo sábado do reinado do Messias de mil anos, depois do qual viria um "oitavo dia" sem fim, o reino eterno (II Enoc 32, 33). Esta idéia anterior ao cristianismo se repete no cristão de começos do século II, a Epístola de Barnabé 15, e em outros escritos cristãos posteriores.

Especialmente digna de menção é a declaração do rabino Eliézer (90 d.C.), quem representou uma tradição que ensinou que o Messias reinaria por mil anos.17 Esta é a autoridade rabínica mais antiga que reconhece o período messiânico com uma duração de 1.000 anos. Por conseguinte, alguns eruditos modernos insistem em que João quis dizer mil anos literais em Apocalipse 20, porque isto encaixa bem dentro do pensamento judeu contemporâneo. Entretanto, Beasley-Murray declara que João desejou indicar primeiramente o caráter teológico do milênio, "quer dizer, como o sábado da história".18

Embora seja profundamente significativo interpretar "o sábado de descanso de Deus como um tipo do reino" e que a "criação prefigura uma nova criação",19 esta interpretação não deve ofuscar a nova revelação do Apocalipse de João de que o milênio é uma cristocracia. Portanto, ainda permanece a pergunta básica: Como se relaciona Apocalipse 20 com os escritos do Antigo Testamento?

Os Antecedentes do Milênio no Antigo Testamento

Algumas raízes veterotestamentárias do milênio iluminam nosso entendimento. A primeira conexão literária com a Bíblia Hebraica é a palavra "abismo", que se usa duas vezes (Apoc. 20:1, 3) para referir-se à "prisão" (v. 7) em que o dragão estará encerrado por mil anos. Como um termo por si mesmo, o termo abismo funciona no Apocalipse (9:1, 2, 11 [cf. Sal. 88:11]; 11:7; 17:8) e em outros lugares do Novo Testamento (Luc. 8:31; Rom. 10:7) como sinônimo de tumba, morte e destruição, e do cárcere da "besta" e dos demônios. Quando Cristo expulsou a alguns espíritos malignos do homem diabólico da Galiléia, "rogavam-lhe que não os mandasse para o abismo" (Luc. 8:31), ou ao reino dos mortos.

Na versão grega do Antigo Testamento (a LXX) usa-se abismo em Gênesis 1:2 para descrever a terra desabitada antes da semana da criação: "A terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo [abussos]". Parece que o Novo Testamento tomou esta descrição pré-histórica de uma terra vazia e caótica, como seu protótipo para o conceito de abismo como um poço escuro e como o lugar da prisão dos demônios. Luz adicional sobre o abismo em Apocalipse 20 provém da perspectiva profética do Jeremias.

"Olhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e não tinham luz.... Olhei, e eis que não havia homem nenhum, e todas as aves dos céus haviam fugido. Olhei ainda, e eis que a terra fértil era um deserto, e todas as suas cidades estavam derribadas diante do Senhor, diante do furor da sua ira" (Jer. 4:23-26).

Na profecia do Antigo Testamento, o dia do juízo está caracterizado em geral por uma perspectiva dupla: o dia de Jeová histórico para uma nação em particular, e o dia de Jeová do juízo final para todo o mundo. Este ponto de vista tipológico do reino futuro de Deus que não se preocupa com as distâncias cronológicas nem pelas distinções étnicas ou geográficas, apresenta o juízo nacional como um modelo muito pequeno para o juízo do mundo do tempo do fim. O foco está no mesmo Deus que, tanto no presente como no futuro, atuará na mesma forma para o juízo e a salvação. George Ladd resumiu desta maneira esta dupla perspectiva do panorama profético: "O dia do Senhor histórico está descrito em contraste com a tela de fundo do dia escatológico do Senhor".20

A visão de Jeremias da futura devastação da "terra" tem uma dimensão apocalíptica para o juízo final, quando a devastação da terra e do céu alcançará seu alcance universal. Naquele dia apocalíptico do juízo, toda a terra voltará a seu estado primitivo e de novo chegará a ser um abismo: escuro, desordenado e vazio (ver Jer. 4:23, 28; cf. Gên. 1:2).

Esse dia apocalíptico, como o Novo Testamento torna claro, é o segundo advento de Cristo (ver 2 Tes. 1:6-9; Apoc. 6:12-17; 19:11-21). Então toda a terra chegará a ser um grande abismo, a condição da terra por um milênio, um cárcere exclusivamente para Satanás e seus espíritos demoníacos. De acordo com a escatologia paulina, o juízo da segunda vinda de Cristo não deixa pessoa viva sobre a terra. Os santos, seja por ressurreição ou translação, todos serão levados à casa do Pai (ver João 14:1-3; 1 Tes. 4:16, 17); todos os ímpios jazerão no pó pela glória consumidora da aparição de Cristo (ver Heb. 10:26, 27; 2 Tes. 1:6-10; 2:8; Apoc. 6:15-17; 16:17-21; 19:21). Se nenhum ser humano permanecer vivo sobre a terra, é evidente que Satanás, detido no abismo desta terra convertida em ruínas, está atado por uma "grande cadeia" de circunstâncias que Cristo mesmo ocasionou com seu segundo advento. Durante o milênio, Satanás estará guardado "para que não engane mais as nações" (Apoc. 20:3, CI), porque já não pode influir nem nos justos que estão no céu ou nos ímpios que estão mortos.

Diferença Entre a Experiência do Evangelho e a Realidade Apocalíptica

A linguagem figurada de Apocalipse 20:1-3 não deve confundir-se com a realidade da vitória de Cristo sobre Satanás durante seu ministério terrestre. Parece injustificado identificar a prisão apocalíptica de Satanás em Apocalipse 20 como o poder do evangelho para "atar" a Satanás onde quer que o Espírito de Cristo liberta as pessoas de seu domínio (ver Mat. 12:28, 29). Se a "atadura" de Satanás se levou a cabo quando Cristo morreu na cruz, como pode Satanás ser solto de sua prisão como se anuncia em Apocalipse 20:7? Devemos ser muito cuidadosos para não confundir a obra de Cristo em seu segundo advento com a obra que fez em seu primeiro advento.

O propósito do Apocalipse de João não é repetir os quatro Evangelhos que se centram no primeiro advento de Cristo, mas sim transmitir uma revelação progressiva do reinado de Cristo que culmina em seu segundo advento. Em Apocalipse 20, o tempo da atadura de Satanás não só é diferente da dos Evangelhos, mas também que é diferente sua natureza. Anthony Hoekema declarou que a atadura de Satanás em Apocalipse 20 significa que a influência de Satanás "está pelo menos controlada de tal forma que não pode evitar a propagação do evangelho a todas as nações da terra", e que "as nações não podem conquistar a igreja, mas sim a igreja está conquistando às nações".21

Mas esta opinião não respeita a natureza radical da atadura apocalíptica de Satanás, seu confinamento no abismo de um mundo em ruínas, "para que não engane mais às nações" (Apoc. 20:3, CI). Mas minimizar a atadura de Satanás até o ponto de dizer que o milênio é uma era de desenvolvimento próspero da igreja, não toma a sério a natureza ilimitada da atadura de Satanás no Apocalipse. G. C. Berkouwer rechaçou qualquer relativização da atadura de Satanás em Apocalipse 20.22 Igualmente Robert Mounce vê subentendida "a cessação completa de sua influência na terra" antes que uma restrição das atividades de Satanás.23
Permanece o fato inegável que séculos depois da cruz, Satanás e seus falsos apóstolos ainda são capazes de enganar o mundo ao cegar as mentes dos incrédulos ao evangelho (ver 2 Cor. 4:4; 11:13, 14). O diabo ainda "rodeia como leão a rugir" (ver 1 Ped. 5:8, BJ) e "agora opera nos filhos de desobediência" (Ef. 2:2). Ainda depois de sua derrota moral na cruz (ver Col. 2:15) Satanás ainda está enganando com êxito o mundo (ver 2 Tes. 2:9, o), e está "enganando o mundo inteiro" (ver Apoc. 12:9; 13:14; 19:20). João inclusive escreveu que "o mundo inteiro está no maligno" (1 João 5:19). A cruz despojou a Satanás de todos os seus direitos perante Deus, mas não de seu poder para enganar a humanidade. Só o segundo advento o despojará desse poder, como descrevem as visões de Apocalipse 19 e 20.

O Milênio Indicado com Antecipação em Duas Profecias Hebraicas

Duas passagens do Antigo Testamento arrojam luz sobre o significado apocalíptico do milênio: Isaías 24:21-23 (dentro do apocalipse de Isaías, caps. 24-27) e Ezequiel 36 a 39.

Isaías descreve o juízo final como abrangendo todo o cosmos e toda a terra:

"Naquele dia, o Senhor castigará, no céu, as hostes celestes, e os reis da terra, na terra. Serão ajuntados como presos em masmorra, e encerrados num cárcere, e castigados depois de muitos dias. A lua se envergonhará, e o sol se confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém; perante os seus anciãos haverá glória" (Isa. 24:21-23).
Nesta passagem apocalíptica podem observar-se vários característicos: (1) o profeta vê o juízo de Deus que dita sentença não só sobre os homens mas também sobre os anjos, o "no céu, as hostes celestes" (cf. Dan. 10:13, 20; Sal. 82; Ef. 6:12); (2) todos esses poderes rebeldes do céu e da terra serão "amontoados como presos em masmorra" ("poço", BJ); (3) serão "amontoados... num cárcere", serão castigados "depois de muitos dias", quer dizer, depois de um período longo não especificado de encarceramento. Nestes três aspectos do apocalipse de Isaías não se pode falhar em observar o conceito germinal do milênio com sua atadura de Satanás no abismo por mil anos. G. R. Beasley-Murray reconhece que "a idéia essencial de Apocalipse 19:19-21:3 apresenta breve extensão em Isaías 24:21 e os versos seguintes".24 Esta conexão de Isaías 24 com o milênio é amplamente reconhecida pelos comentadores.

Isaías declara que enquanto que os poderes malignos estão presos, toda a terra jaz em um estado de desolação. "A terra será de todo devastada e totalmente saqueada, porque o Senhor é quem proferiu esta palavra" (Isa. 24:3; cf. os vs. 19, 20). Aqui temos de novo o quadro de um abismo universal.

Na visão de Isaías, o juízo final de Deus compreende várias fases: primeiro os poderes malignos serão capturados mas não serão castigados imediatamente; ficarão na prisão "muitos dias". Este juízo preliminar será seguido pelo juízo final levado a cabo pelo próprio Deus. Os poderes que estão contra Deus estão simbolizados por uma serpente-dragão de muitas cabeças (ver Isa. 27:1; na LXX, drákon; cf. Sal. 74:13, 14), descobrindo outro elo com o simbolismo de Apocalipse 20:2.
O apocalipse de Isaías revela que o juízo cósmico causa a ressurreição dos mortos do fiel povo do pacto de Deus: "Os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão... e a terra dará à luz os seus mortos" (Isa. 26:19). Com o toque de uma "grande trombeta" Deus reunirá "um por um" os fiéis, para que possam participar do banquete apocalíptico de Jeová "para todos os povos" sobre o monte santo (ver Isa. 27:12, 13; 25:6-9; 24:23). No Apocalipse de João, este banquete se transforma em "a ceia de bodas do Cordeiro" (Apoc. 19:6-9), quando a noiva, a igreja de todas os tempos, unir-se-á para sempre com seu Salvador. Esta festa de bodas é o característico central do reino milenial de Deus no céu, que tem lugar depois que os santos mártires voltem à vida na primeira ressurreição (Apoc. 20:4, 5).

O profeta Ezequiel também fala dos eventos do tempo do fim na terminologia apocalíptica de períodos sucessivos. No esquema profético de Ezequiel, Jeová começa a ressuscitar o povo do novo pacto que está em Babilônia e a restaurar este novo Israel à terra prometida (ver Ezeq. 36:24-32; 37:1-14). Este fiel Israel de Deus será governado para sempre pelo Rei messiânico: "Meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor" (37:24, 25). A glória da shekinah estará entre eles para sempre: "Estará em meio deles meu tabernáculo, e serei a eles por Deus, e eles me serão por povo" (v. 27).

Entretanto, "depois de muitos dias" (Ezeq. 38:8) de existência pacífica desta teocracia messiânica, Gogue, o rei de Magogue, o líder das nações confederadas do mundo, atacará a terra de Israel. O Israel de Deus de maneira nenhuma entrará em combate. Não precisa fazê-lo porque Jeová será o guerreiro divino que pelejará nesta guerra santa só com armas de seus depósitos. "Contenderei com ele por meio da peste e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor" (Ezeq. 38:22, 23; também 39:6).
Ezequiel colocou a rebelião final de Gogue depois do reino messiânico que aparece nos capítulos 36 a 39. Só depois que esta rebelião das forças do mal tenha sido esmagada pela intervenção divina, será purificada a terra e estará pronta para a Nova Jerusalém (Ezeq. 40-48). Não é maravilha que G. Ernest Wright declarasse: "O livro que apresenta o esboço mais claro dos eventos escatológicos é o de Ezequiel".25

O Apocalipse de João Mostra a Consumação

As sete visões de juízo de João que se encontram em Apocalipse 19:11 a 21:8 constituem uma unidade independente, modelada segundo o esboço dos eventos escatológicos de Ezequiel 36-48. A perspectiva apocalíptica de João descreve o juízo de Deus sobre Babilônia durante a sétima praga (Apoc. 16-18), que introduz a vinda do Messias como o Guerreiro divino do céu que destruirá os perseguidores de sua igreja, a "besta", o "falso profeta" e os "reis de todo o mundo" (Apoc. 19:19-21; também 16:12-21).
Então Cristo traz a seus fiéis a libertação e a ressurreição dos mortos (ver Apoc. 20:4), o regozijo da ceia de bodas na Nova Jerusalém no céu (Apoc. 19:6-9; 21:2, 7), e a autoridade de julgar sobre tronos celestiais em seu reino durante mil anos (20:4). Este reinado milenial terminará com o descida da Nova Jerusalém do céu à terra. Satanás será solto de seu abismo, porque agora, ao fim dos mil anos, terá lugar a ressurreição do resto da humanidade (20:5, 7; cf. João 5:28, 29; 1 Cor. 15:24). Este acontecimento prepara o cenário para a obra final de engano de Satanás e o ataque universal dos inimigos de Deus à Nova Jerusalém, "o acampamento dos santos", de acordo com Apocalipse 20:7-10.

Para indicar a continuidade básica desta guerra apocalíptica com a da visão de Ezequiel, João identifica os agentes de Satanás com Gogue e Magogue (Apoc. 20:8). Os paralelos seguintes mostram como se correspondem os esboços de Ezequiel e João:
 1. A ressurreição de um Israel espiritualmente morto da tumba de Babilônia para ser um povo do novo pacto (ver Ezeq. 36:24-28; 37:1-14). João vê a ressurreição das testemunhas decapitadas de Cristo que recusaram adorar a "besta" babilônica e a sua "imagem" (Apoc. 20:4).

2. Como a nova teocracia, Israel vive pacificamente na terra prometida sob o governo do novo Davi, o Messias (ver Ezeq. 37:1528). João vá os santos ressuscitados reinar com Cristo por mil anos (Apoc. 20:4-6).
3. Depois de "muitos dias" o ataque final do norte contra Israel pelos exércitos de Gogue, rei de Magogue, recebe uma derrota esmagadora por meio do fogo que desce do céu (Ezeq. 38, 39). João vê que depois do reinado de mil anos dos santos, os exércitos de "Gogue e Magogue" atacam o acampamento do povo de Deus, a santa cidade, desde todas as direções, mas são aniquilados pelo fogo que desce do céu (Apoc. 20:7-9).

4. Ezequiel viu a teofania de Jeová em uma Nova Jerusalém, que tinha o nome: "O Senhor está ali" (Ezeq. 48:35, NBE). João vê a Nova Jerusalém descender do céu à terra como a esposa do Cordeiro (Apoc. 21:1, 2). Então se realizará plenamente a promessa: "Eis o tabernáculo de Deus com os homens, e com eles habitará..." (v. 3).

Enquanto que o objetivo anticristão da guerra apocalíptica é em essência o mesmo tanto em Ezequiel como em João, podem observar-se modificações que ensinam um princípio importante de interpretação apocalíptica. As restrições étnicas e geográficas da linguagem figurada do velho pacto de Ezequiel ("meu povo Israel", "minha terra", Gogue atacará "a terra do Israel", a teofania estremecedora de Jeová, etc.), tudo isto está transformado pelo Apocalipse de João em um conflito completamente cristocêntrico. O Apocalipse de João é um apocalipse cristão caracterizado pela integração do evangelho nas escatologias do Antigo Testamento. Essa integração coloca firmemente a Cristo e a seus verdadeiros seguidores no centro de todas as profecias do Antigo Testamento. Esta é a novidade essencial dos Evangelhos cristãos e da escatologia do Novo Testamento.
A perspectiva do tempo do fim do Antigo Testamento é básica para entender o triunfo do Deus do pacto no conflito entre Deus e Satanás. As profecias de Israel sobre o castigo divino de todos os poderes rebeldes recebem seu cumprimento cristológico no Apocalipse de João. O rei de Israel, "meu servo Davi" (Ezeq. 37:34), chega a ser Cristo, o "Rei dos reis" (Apoc. 19:16; 22:16). O Israel messiânico escatológico (Ezeq. 37:26-28; 38:11, 12) chega a ser a igreja triunfante de Cristo no reino de Cristo (Apoc. 20:4). Gogue, o rei de Magogue e seus aliados políticos (Ezeq. 38:2, 3) chegam a ser o próprio Satanás e seus aliados terrestres, quer dizer, o resto da humanidade levantada na segunda ressurreição mas enganada por Satanás para uni-los em uma rebelião universal contra Cristo (Apoc. 20:7-9; 21:2).

Como a profecia de Ezequiel tem a mesma ordem de acontecimentos que os capítulos 20 a 22 do Apocalipse, inferimos que o Apocalipse revela a interpretação cristã da consumação de Ezequiel 36 a 48, começando com o segundo advento e a ressurreição dos santos fiéis. Portanto, a visão do milênio de João transmite uma mensagem para o presente: aos judeus, que Jesus é o Messias verdadeiro e que sua igreja é a semente verdadeira de Abraão e o Israel messiânico; aos gentios, que Cristo é o Juiz do mundo; à igreja, que Jesus vindicará a seus seguidores e os recompensará em seu reino; e a Satanás e seus anjos, que sua execução é inapelável.

O Significado Teológico do Milênio

João descreve sua visão principal do milênio em três versículos:

"Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos" (Apoc. 20:4-6).

É perigosa a tentação a ler muita teologia preconcebida nesta passagem. Precisamos estar em guarda contra uma exegese dogmática que encontra um texto que está procurando. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que não há indicação neste texto de que João está descrevendo um reino sobre os sobreviventes terráqueos da batalha do Armagedom ou de seus descendentes que supostamente nasceram durante o milênio. Em realidade, como alguns notaram, "a passagem [Apoc. 20:1-6] não diz nada a respeito de um reinado terrestre de Cristo sobre um reino principalmente judeu".26

O cenário da visão que João teve do reinado milenial dos santos ressuscitados parece estar no céu antes que na terra como geralmente se supõe. João viu "tronos" sobre os que estavam sentados aqueles que "receberam autoridade de julgar"; "concedeu-lhes autoridade para julgar" (CI); "encarregado-os de pronunciar sentença" (NBE).

Leão Morris faz este comentário importante sobre Apocalipse 20:4: "Ele [João] usa a palavra 'trono' 47 vezes em total, e exceto para o trono de Satanás (Apoc. 2:13) e para o trono da besta (Apoc. 13:2; 16:10), todos parecem estar no céu. Estaria de acordo com isto se ele aqui entendeu um reino no céu".27 Anthony Hoekema reconhece que "o cenário da visão de João agora se mudou para o céu... os versículos 4-6 representam o que acontece no céu".28 Hoekema menciona uma característica importante da estrutura de Apocalipse 20: concretamente, a mudança de cenário da terra ao céu, que é tão comum nas visões apocalípticas.

William Shea, em um artigo instrutivo, mostrou como a alternância das dimensões horizontais e verticais ocorre tanto em Apocalipse 12 como no 20.29 Para ser específicos, o centro focal de Apocalipse 12 muda da terra (vs. 1-6) ao céu (vs. 7-12), e depois outra vez à terra (vs. 13-17). Esta pauta "A-B-A" de cenas consecutivas começa de maneira similar com a terra (20:1-3), depois muda ao céu (vs. 4-6), e finalmente volta para a terra (vs. 7-10). Este ponto de vista de um reino milenial celestial é uma opinião minoritária entre os intérpretes pré-milenistas e está incorporada nas crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia.30

Em uma visão anterior João viu deus no trono no céu, e "ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi sentados nos tronos a vinte e quatro anciões, vestidos de roupas brancas, com coroas de ouro em suas cabeças" (Apoc. 4:4). Esta visão intrigante de Apocalipse 4 parece sugerir que Deus como presidente do tribunal comissionou a 24 representantes dentre os santos da terra para reinar e julgar junto com ele agora (vejam-se os caps. XII e XIII desta obra). Mas em Apocalipse 20, João vê sentados sobre tronos celestiais os que sacrificaram suas vidas por causa de sua fidelidade ao "testemunho do Jesus" e a "a palavra de Deus" (V. 4), especialmente durante a prova final de fé com respeito à marca da besta (V. 4). Aqui há uma diferença fundamental entre as duas visões do trono de Apocalipse 4 e 20. Os tronos de juízo de Apocalipse 20 estão conectados de algum modo à vindicação dos mártires e seu direito a governar o planeta terra. Mounce relaciona a cena do trono em Apocalipse 20 ao trono celestial da visão de Daniel 7:13 e 14. Portanto, sugere que os tronos de Apocalipse 20 representam "um tribunal celestial".31

O elo que une Apocalipse 20 e Daniel 7 é o tema da vindicação divina dos santos do Altíssimo que foram oprimidos, e sua recompensa para governar ao mundo. A diferença fundamental entre as duas cenas de juízo é que na visão de Daniel, os santos perseguidos são julgados e vindicados pelo juiz divino: "Até que veio o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino" (Dan. 7:22). Entretanto, em Apocalipse 20, estes santos estão sentados com Cristo sobre tronos celestiais e recebem autoridade para julgar: "E viveram e reinaram com Cristo mil anos" (Apoc. 20:4). Aqui há uma clara progressão na história, e indica que as sessões do tribunal celestial em Daniel 7 e Apocalipse 20 se sucedem uma à outra. Também é evidente o progresso no tempo ao comparar as "almas" dos que foram decapitados "por causa da palavra de Deus e o testemunho (do Jesus)" durante o quinto selo (6:9), e que clamavam pelo santo juízo e a vingança de Deus (v. 10), e as "almas" dos mesmos mártires que viveram e reinaram com Cristo mil anos em Apocalipse 20:4. Estes mártires participaram da primeira ressurreição! Não podemos imaginar uma vindicação maior. A honra que Deus dá de reinar com Cristo é para os vencedores.
Cristo já tinha prometido que voltaria e levaria a seus discípulos à casa de seu Pai no céu (João 14:1-3). Também prometeu que todos os vencedores se sentariam com ele em seu trono no céu (ver Apoc. 3:21; 15:1-4). Estas promessas sugerem com força que durante o milênio os santos não estarão situados em um mundo desolado. Ao contrário, seu reino inclui a responsabilidade de ter uma parte no reino de Deus e em sua avaliação do pecado. Esta segurança renovada em Apocalipse 20:4-6 proporciona o consolo aos santos caluniados de que sua "derrota" e "vergonha" serão logo invertidas completamente em triunfo pelo tribunal de Deus. Em realidade, os santos executados ("decapitados") chegarão a ser os juizes de seus perseguidores.

É significativo que o Apocalipse, com seu apaixonado desejo de justiça, assegura aos santos que Deus os ressuscitará à vida eterna e os exaltará durante o milênio como sacerdotes e reis para atuar como juízes e assessores junto com Cristo. Todo o consolo para os santos perseguidos se concentra na bem-aventurança mais significativa do Apocalipse: "Bem-aventurado e santo é  aquele  que tem parte na primeira ressurreição" (Apoc. 20:6). Não voltarão a morrer nunca mais: "A segunda morte não tem poder sobre estes" (V. 6).

Deve Aplicar-se Isaías 65 e 66 a um Milênio Sobre a Terra?

Chegou a ser uma tradição no dispensacionalismo designar Isaías 65 e 66 como o tempo das "bênçãos mileniais" durante as quais a maldição sobre a terra "suprime-se só parcialmente, como se indica pela continuidade da morte".32 Também afirmam que os que nasçam no milênio "não nascerão isentos de pecado, de maneira que a salvação será necessária",33 enquanto que os que tenham chegado a ser "abertamente rebeldes serão executados (Isa. 66:20, 24; Zac. 14:16-19)".34

A pressuposição de que Isaías 65 e 66 e promessas similares do reino de Deus devam aplicar-se ao milênio de Apocalipse 20 fica como uma inferência que não é indispensável e que não está garantida se se permite que o Novo Testamento defina as promessas do reino. Isaías deve entender-se à luz do evangelho de Cristo. O novo pacto tem feito que o antigo seja obsoleto e posto a um lado (ver Heb. 10:9; 8:13). Esta é uma verdade comprovada de fé cristã! Declarar que os santos no milênio já não celebrarão mais a ceia do Senhor mas sim voltarão a oferecer sacrifícios animais em "comemoração" da cruz de Cristo, não só é o "maior obstáculo",35 e sim um rechaço para aceitar o testemunho claro da Escritura em Hebreus 8 a 10 com o propósito de defender um dogma problemático.36
Vistos na perspectiva do Novo Testamento, os capítulos 65 e 66 de Isaías devem aceitar-se como a vislumbre antecipada do plano de Deus expressa no idioma e as limitações do antigo pacto – o culto de sacrifícios de sangue e oferendas de animais e as leis levíticas –, o que não é a última palavra de Deus na história da salvação, e que não se deve isolar do novo pacto de Cristo e da revelação progressiva da vontade de Deus.

Apocalipse 21 e 22 ensinam como se cumprirá Isaías 65 e 66: seu cumprimento será maior que qualquer expectativa judaica do antigo pacto. Apocalipse 21 e 22 transformam as predições de Isaías, e as aplicam ao estado eterno na terra em uma forma melhor que o que se entendeu antes. Os profetas e o Apocalipse não representam duas perspectivas diferentes que devem ajustar-se lado a lado. São uma e a mesma. O Senhor ressuscitado adianta a velha perspectiva a uma promessa melhor e mais perfeita em que a morte e o pecado já não são uma parte do reino de Deus e Cristo sobre a terra feita nova. O cumprimento será maior que uma leitura literal das velhas promessas: "E do primeiro não haverá memória, nem mais virá ao pensamento" (Isa. 65:17; também 1 Cor. 2:9). Não existe requisito para forçar Isaías 65 e 66 em uma forma literalista no milênio de Apocalipse 20. Para uma exposição adicional do Isaías 65 e 66, ver o APÊNDICE B, primeira parte.

O Juízo Pós-Milênio

Antes que o diabo e suas hostes sejam aniquilados no "lago de fogo", Deus vindica seu nome caluniado em uma forma majestosa diante do universo: por meio das bocas dos ímpios. Chega a sessão final do tribunal para Satanás e seus seguidores, humanos e angélicos. Agora se declara a justiça em termos forenses, reconhecem-se o bem e o mal e se estabelecem para sempre a origem, a natureza e as conseqüências do pecado.

"Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo" (Apoc. 20:11-15).
Esta cena do tribunal em que o Criador é Juiz, vai além de todas as demais descrições do juízo final tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Os redimidos que ressuscitaram na primeira ressurreição no começo do milênio (Apoc. 20:6) ficam isentos deste juízo final do mundo. A passagem aplica em sua extensão total o que insígnia o Evangelho de João:
"Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (João 3:18).
"Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo" (João 5:28, 29).

O juízo pós-milênio trata exclusivamente com os que rechaçaram definitivamente a Jesus Cristo. Embora são chamados para dar conta de suas vidas "pelas coisas que estavam escritas nos livros" (Apoc. 20:12; cf. Isa. 65:6), João esclarece que o assunto decisivo é sua relação com Cristo. Diz João: "E o que não se achou inscrito no livro da vida foi arrojado ao lago de fogo" (Apoc. 20:15; ver também 13:8). João "indica que o único critério de salvação é o fato de que nosso nome esteja escrito no livro da vida. O critério decisivo no juízo universal é o de pertencer a Cristo... portanto, o juízo não pode ser a não ser a revelação universal das decisões que já foram feitas".37 Ellen White comentou o seguinte:

"O mundo ímpio todo acha-se em julgamento perante o tribunal de Deus, acusado de alta traição contra o governo do Céu. Ninguém há para pleitear sua causa; estão sem desculpa; e a sentença de morte eterna é pronunciada contra eles".38

A sabedoria de Deus, sua justiça e bondade estão colocadas além de toda dúvida. O caráter de Deus fica vindicado diante do universo. Todas as criaturas no céu e na terra, justos ou ímpios, inclinam seus joelhos ante o nome do Jesus e "confessam que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai" (Fil. 2:10, 11). Isto significa a coroação final do Filho de Deus, que o exalta "sobre todo nome" (v. 9). Todos os seres vivos no céu e na terra reiteram a doxologia: "O Cordeiro que foi imolado é digno de tomar o poder, as riquezas, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e o louvor" (Apoc. 5:12).

Todos estão satisfeitos porque "seus juízos são verdadeiros e justos" (Apoc. 19:2). Na lei de Israel, uma testemunha maliciosa que acusava falsamente a um irmão de um delito era depois "indagado minuciosamente" (Deut. 19:18, BJ), e sentenciado a receber o castigo que tinha procurado para seu irmão (ver os vs. 19, 20). Uma "investigação completa" tomará lugar no juízo em que atuarão os santos durante o milênio (ver Apoc. 20:4; 1 Cor. 6:2, 3). Não mais somente pela fé, mas sim por convicções arraigadas, todos os homens se unirão ao coro dos anjos: "Certamente, Senhor Deus Todo-poderoso, teus juízos são verdadeiros e justos" (Apoc. 16:7; também 19:1, 2; 15:3, 4).

Esta opinião "coloca a ênfase não sobre um reino terrestre de glória para os redimidos, e sim sobre a vindicação de Deus, a exoneração e a honra de seu nome em toda sua relação com o problema do pecado".39 O milênio de Apocalipse 20 oferece a última teodicéia do Criador. Por meio do dom de seu Filho e pelo sacrifício abnegado de Cristo, o amor e a justiça de Deus permanecem para sempre como uma união inexpugnável ante toda a criação. Todas as acusações de Satanás contra o caráter e o governo de Deus ficam enterradas para sempre.

O reino de Cristo sobre os inimigos de Deus alcançará este ponto culminante na conclusão do milênio. Esmagará a cabeça da serpente sob seus pés (Gên. 3:15; Rom. 16:20). Como o arquimentiroso e arquiassassino (João 8:44), Satanás será "arrojado no lago de fogo e enxofre" (Apoc. 20:10). Cristo extirpará todo o mal do universo, de maneira que "não deixará nem raiz nem ramo" (Mau. 4.1). Todos os que se identificaram com o pecado encontrarão seu lugar no "fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos" (Mat. 25:41). "E o que não se achou inscrito no livro da vida foi arrojado ao lago de fogo". Esta é a segunda morte" (Apoc. 20:15, 14).

O assunto final da salvação ou condenação é se se está "inscrito no livro da vida do Cordeiro" (Apoc. 21:27). Os que nasceram de cima podem estar absolutamente seguros de ter este registro divino (ver Luc. 10:20; Filip. 4:2, 3; 3:20; Heb. 12:22, 24). A salvação é um dom de Deus que não está apoiada sobre obras santificadas a e sim somente sobre a obra de Cristo (ver João 3:16; 5:24). Nossas obras só nos servem como evidência de nossa união com o Cordeiro. "A fé sem obras é morta" (Tiago 2:26). Nesse tempo, depois do milênio, realizar-se-á plenamente a perspectiva apocalíptica do Paulo:

"E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte...  Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos" (1 Cor. 15:24-26, 28).

Então pode começar a eternidade: "Novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça" (2 Ped. 3:13; também Apoc. 21:1; Sal. 115:16). A salvação cristã inclui o paraíso restaurado sobre a terra como uma realidade universal, social e política.

Hans K. LaRondelle

Referências

1 Jack S. Deere, "Premillennialism in Revelation 20:4-6" [Premilenialismo em Apocalipse 20:4-6], Bibliotheca Sacra (Biblioteca Sagrada] 135 (1978), p. 61.
2 Schnackenburg, Rudolf. Gottes Herrschaft und Reich [A Soberania e o Reino de Deus], p. 241.
3 Ladd, El Apocalipsis de Juan: Un comentario, p. 269.
4 Vogelgesang, The Interpretation of Ezekiel in the Book of Revelation, p. 65.
5 Ibid., p. 72.
6 Ibid., P. 69 (ver sua lista comparativa na p. 68).
7 Para uma análise detalhada, ver LaRondelle, Chariots of Salvation. The Biblical Drama of Armageddon, cap. 8.
8 Ver LaRondelle, "The Etymology of HAR-MAGEDON (Rev. 16:16)", AUSS 27 (1989), pp. 69-73.
9 Giblin, The Book of Revelation. The Open Book of Prophecy, p. 177.
10 Shea, Estudios selectos sobre interpretación profética, pp. 46, 47.
11 Badina, "The Millennium", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 236.
12 Ver Arndt e Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, p. 810.
13 Ladd, Una teología del Nuevo Testamento, p. 559; também a nota 37.
14 Ver Charlesworth, The Old Testament Pseudepigrapha, t. 1, p. 156.
15 Ver Aranda Pérez-García Martínez-Pérez Fernández, Literatura judía intertestamentaria, p. 330.
16 Strack-Billerbeck, Comentario del Nuevo Testamento con el Talmud y la Midrás, t. 3, pp. 823-827. Resumido em G. Beasley-Murray, Revelation, pp. 288 e 289, e no J. M. Ford, Revelation, pp. 352 e 353.
17 Strack-Billerbeck, Comentario del Nuevo Testamento con el Talmud y la Midrás, p. 3, P. 827.
18 Beasley-Murray, Revelation, p. 289.
19 Ibid.
20 Ladd, The Presence of the Future, p. 67.
21 Hoekema, The Meaning or the Millennium: Four Views, p. 164.
22 Berkouwer, The Return of Christ, p. 305.
23 Mounce, The Book of Revelation, p. 353.
24 Beasley-Murray, Revelation, p. 286.
25 G. Ernest Wright, Interpreter's Bible Commentary, t. I, p. 372.
26 Hoekema, The Meaning or the Millennium: Four Views, p. 172.
27 Morris, The Revelation of St. John, p. 236.
28 Hoekema, The Bible and the Future, p. 230.
29 Shea, "The Parallel Literary Structure of Revelation 12 and 20", AUSS 23 (1985), pp. 37-54.
30 Ver Creencias de los adventistas del séptimo día, t. 2, cap. 26.
31 Mounce, The Book of Revelation, p. 355.
32 Walvoord, The Millennial Kingdom, pp. 317, 318.
33 J. Dwight Pentecost, Eventos del porvenir (Maracaibo, Venezuela: Editorial Libertador, 1977; trad. de Luis G. Galdona), p. 371.
34 Walvoord, The Millennial Kingdom, p. 302.
35 Ibid., p. 311.
36 Para uma avaliação e critica extensa, ver LaRondelle, The Israel of God in Prophecy. Principles of Prophetic Interpretation.
37 Rissi, The Future of the World: An Exegetical Study of Revelation 19:11-22:15, pp. 36, 37.
38 Ellen White, GC 668.
39 Badina, em "The Millennium" Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 242.

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