sexta-feira, 8 de junho de 2012

XXII - O CONFLITO FINAL DE LEALDADE DO TEMPO DO FIM - Apocalipse 13

A visão das duas bestas simbólicas em Apocalipse 13 deve relacionar-se em primeiro lugar com o fluxo da história da igreja em Apocalipse 12, união que determina o lugar e a situação que cada besta ocupa na história. Como estudamos no capítulo anterior, Apocalipse 13 esboça em detalhe dois períodos de tempo que aparecem em Apocalipse 12 por meio de um paralelismo progressivo. Esta classe de recapitulação se assemelha ao estilo do livro do Daniel. Apocalipse 13 amplia em grande detalhe a guerra do dragão contra a mulher de Apocalipse 12. Vários elos entre os dois capítulos mostram sua estrutura paralela.

Apocalipse 13 mostra como o dragão trava guerra contra os santos. Empregará dois poderes mundiais religiosos como agentes a seu serviço: uma besta marítima e uma besta terrestre. Dessa forma, o dragão forma sua própria trindade, ou trindade satânica.
Existe uma união especial entre o dragão e a besta do mar, porque ambos possuem as mesmas sete cabeças e dez chifres (Apoc. 12:3; 13:1). O fato de que o dragão delegue seu poder e trono à besta do mar é uma imitação deliberada de como Deus delegou seu poder e seu trono a seu Filho, Jesus Cristo (ver 5:12, 13; 13:2). Este paralelo extraordinário caracteriza a besta marítima como o anticristo. Portanto, algumas vezes se denominou a Apocalipse 13 "o capítulo do anticristo". A fórmula de autorização que declara que a besta recebe autoridade "sobre toda tribo, povo, língua e nação" (13:4, 7, 8), pode ver-se como uma cópia irônica da autorização do Filho do Homem que recebe autoridade sobre "todos os povos, nações e línguas" em Daniel 7:14. O objetivo de ambas as investiduras de poder é receber a adoração e a lealdade de toda a humanidade (Dan. 7:14, 27; Apoc. 13:4, 8).

Descreve-se a imitação dramática da morte e ressurreição do Messias pela própria morte da besta por causa de uma "ferida mortal" e sua ressurreição e ascensão milagrosa a um domínio universal e totalitário (Apoc. 13:2, 12, 14; cf. 5:6, 9, 12; 13:8). Esta imitação de Cristo sugere a idéia de que a besta opera como uma falsificação do Cordeiro, como um falso Cristo. Sugeriu-se que os 1.260 dias de blasfêmia e perseguição por parte da besta são uma paródia irônica do ministério de bênção e salvação de Cristo que também durou 3 ½ anos* ou 1.260 dias.1

A nova revelação surpreendente no capítulo 13 é a predição de um terceiro agente na conspiração satânica contra a Santa Trindade: "Vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão" (v. 11). Depois, esta besta terrestre é denominada apenas "o falso profeta" (16:13; 19:20; 20:4). Sua tarefa consiste em servir à besta do mar enganando os moradores da terra com seus sinais e milagres (13:14, 15). Portanto, W. G. Johnsson deduz que "o terceiro membro desta trilogia satânica arremeda a obra do Espírito Santo".2 Em resumo, Apocalipse 13 faz soar o sino de alarme para a igreja de Cristo. Será enganada cada vez mais por uma conspiração genial de uma religião cristã falsificada, respaldada por milagres sobrenaturais.

Podem distinguir-se duas cenas das ameaças. A primeira fase do domínio do anticristo se caracteriza pela supremacia política e pela intolerância religiosa. A segunda fase segue depois que foi "curada" a "ferida mortal" da besta. Só então pode o "falso profeta" começar suas atividades para ajudar a recuperar para a besta sua supremacia anterior e a união da Igreja com o Estado, desta vez em uma escala universal.

A enigmática "marca da besta" chegará a ser no tempo final a prova decisiva de lealdade suprema ao anticristo, em oposição aparente ao "selo do Deus vivo" que assinala a submissão voluntária aos mandamentos de Deus (ver 13:15-17; 14:1, 12).
Dessa maneira, Apocalipse 13 forma o complemente necessário da mensagem final de admoestação de Apocalipse 14. Ambos os capítulos constituem uma unidade indestrutível, e cada capítulo só pode entender-se em conexão com seu complemento.

Laços Entre Apocalipse 13 e Daniel 7

Como Jesus fez em seu discurso profético (Mar. 13; Mat. 24), assim também João esboça o futuro da igreja com os símbolos de Daniel. João segue o estilo apocalíptico dos esboços proféticos de Daniel voltando para periodizar a história por meio de poderes mundiais sucessivos. Como nas visões de Daniel, assim também o Apocalipse avança na história dos dias de João até o próprio fim da era da igreja. Tanto Daniel como João descrevem o mesmo arquiinimigo de Deus e de seu povo do pacto. Enquanto que Daniel representou o "chifre pequeno" como um antimessias (Dan. 7, 8), João agora o define como o anticristo (Apoc. 13). Os eruditos bíblicos reconhecem hoje em dia "que Apocalipse 13 está modelado sobre o Daniel 7".3 No seguinte quadro podem ver-se dois exemplos disto:

APOCALIPSE 13   
"Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse" (v. 7).
"Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses" (v. 5).
DANIEL 7
"Eu olhava e eis que este chifre fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles" (v. 11).
"E os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (v. 25).

Contemplado do lugar de João na história, Apocalipse 13 ultrapassa Daniel 7 até a era da igreja por meio de uma aplicação cristocêntrica e eclesiocêntrica. O exemplo fundamental deste avanço contínuo-histórico é a constituição que forma a besta do mar em Apocalipse 13:2, a que combina característicos das quatro bestas ou impérios mundiais de Daniel 7. Este monstro composto de Apocalipse 13 indica sem lugar a equivocar-se que desde Daniel o tempo avançou.

O fato de que a besta do mar leva simultaneamente dez coroas reais sobre seus dez chifres, alude aos dez reis ou reinos que surgiriam do quarto império mundial (Roma) segundo Daniel 7:7 e 24. Essas dez diademas são o sinal deliberado que se apresenta em Apocalipse 13 para indicar que a besta do mar com seus dez reis soberanos seguiram seu curso na história além da divisão do Império Romano em 476 d.C.

Tanto a visão de Daniel 7 como a de Apocalipse 13 avançam além da Roma pagã, e o fazem para a Idade Média do cristianismo ocidental. O ponto característico da besta do mar de Apocalipse 13 é uma boca que fala "grandes coisas" [megála] e blasfêmias (Apoc. 13:5, 6), e confirma assim a conclusão de que o que está em vista é o "chifre pequeno" de Daniel 7. Este chifre igualmente fala "grandes palavras" [megála] (Dan. 7:8, 11 ) contra Deus (Apoc. 13:6; Dan. 7:25). Uma comparação estreita entre Apocalipse 13 e Daniel 7 mostra que Apocalipse 13 avançou mais à frente do Império Romano antes de sua divisão. Esta progressão histórica se prediz na declaração profética: "O dragão deu- lhe [à besta] seu poder e seu trono e grande autoridade" (Apoc. 13:2).

Em Apocalipse 12 o dragão representa não só a Satanás mas também, em um sentido secundário, a Roma pagã que perseguiu o Messias e a seu povo (Apoc. 12:3-6). Em Apocalipse 13 o dragão transfere seu poder perseguidor ao sucessor da Roma pagã: Roma eclesiástica. Nesse momento na era da igreja, a besta do mar começa a desempenhar o papel do chifre pequeno de Daniel 7. Apocalipse 13 começa com a transferência do poder e de seu trono (a capital) e autoridade de Roma pagã a Roma papal (v. 2).
O outro vínculo entre o anticristo de Apocalipse 13 e o chifre jactancioso de Daniel 7 é o mesmo período de tempo profético atribuído ao domínio despótico de ambos: 3 ½ tempos são idênticos a 1.260 dias. Estes 1.260 dias equivalem a 42 meses (42 x 30 dias).

Em resumo, para identificar a besta-anticristo e seu lugar na história da igreja, é essencial colocar a profecia de tempo de longo alcance de Daniel 7 na base de Apocalipse 13.

Vínculos entre Apocalipse 13, Mateus 24 e 2 Tessalonicenses 2

Observemos alguns desenvolvimentos importantes entre Apocalipse 13 e as predições de Jesus e de Paulo. Jesus aplicou as profecias de Daniel à destruição de Jerusalém e seu templo pelos exércitos de Roma (Mat. 24:15, 16; Mar. 13:14; Luc. 21:20-24). Também alertou seus seguidores a respeito das perseguições vindouras, e a uma "grande aflição" que seria "abreviada" por meio de um ato da providência divina (Mat. 24:21, 22; Dan. 12:1). De uma maneira especial advertiu a seu povo contra os enganadores religiosos que afirmariam falsamente ser seus porta-vozes.

"Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos" (Mat. 24:24).

É obvio, a advertência profética de Cristo requer a interpretação correta de Daniel, interpretação que se especializa no tema da apostasia e da perseguição e do conhecimento das profecias messiânicas.

Paulo expõe sua compreensão do livro de Daniel com claridade suficiente em 2 Tessalonicenses 2. Afirmou que a apostasia futura do "homem da iniqüidade" tinha que preceder a volta de Cristo em glória (ver 2 Tes. 2:3, CI [em gr., prótos]). Paulo caracterizou esta "apostasia" vindoura em termos de um culto religioso falso dentro do templo de Deus como tinha sido descrito em Daniel 8 e 11. Desta forma, Paulo preveniu especificamente contra a vinda do anticristo eclesiástico. Situou este enganador religioso depois do desaparecimento do Império Romano (2 Tes. 2:7, 8). E esta foi a interpretação historicista por muitos séculos.
Paulo ensinou ademais que o poder apóstata duraria até a segunda vinda de Cristo em juízo (2 Tes. 2:8). Recalcou de uma maneira especial que o anticristo enganaria as pessoas por meio de sinais sobrenaturais, que denominou adequadamente "sinais e prodígios mentirosos" (v. 9). É totalmente evidente que Apocalipse 13 é a expansão ulterior de 2 Tessalonicenses 2, já que estes capítulos apocalípticos são complementares. Quando são estudados juntos, pode identificar-se com clareza o surgimento histórico do anticristo e seu culto pseudocristão.

A Natureza Romana da Roma Eclesiástica

O sistema de Igreja-Estado medieval tratou de estabelecer o reino de Cristo por meio da imposição legal e da coerção física. Quanto a isto, a Igreja Católica Romana continuou claramente com o regime totalitário de Roma imperial. Jacques Ellul, um professor francês de Direito, expôs eficazmente a união funesta da Igreja e o Estado dos dias do imperador Constantino como a "subversão do cristianismo".4

Enquanto que os dirigentes da igreja afirmavam atuar em lugar de Cristo, as "guerras santas" de sua Inquisição derramou mais sangre que a que derramou qualquer outra religião no mundo. W. E. H. Lecky, um erudito em História, fez esta denúncia: "Não pode ser absolutamente nenhum exagero dizer que a Igreja de Roma causou uma quantidade de sofrimento imerecido maior que qualquer outra religião que alguma vez tenha existido".5 Inclusive alguns teólogos católicos que chegaram a ser conscientes da natureza e extensão da perseguição por parte do Estado-Igreja medieval, estão escandalizados pela paródia das doutrinas de Cristo praticadas pelo cristianismo romano. Thomas e Gertrude Sartory passam este juízo: "Nenhuma religião no mundo (nenhuma só na história da humanidade) tem sobre sua consciência tantos milhões de pessoas que pensam de maneira diferente e acreditam em forma diferente. O cristianismo é a religião mais assassina que alguma vez tenha existido".6

O ex-jesuíta Karlheinz Deschner da Alemanha, sobre a base de material de primeira fonte, publicou vários tomos sobre a sangrenta história da igreja e o intitulou: Kriminalgeschichte des Christentums [A história criminal do cristianismo].7 Os quatro primeiros volumes demonstram a política espantosa dos governantes políticos cristãos que massacraram a seus oponentes.
Mais de mil anos de alianças e opressão ilícitas entre a Igreja e o Estado não se podem passar totalmente por alto nos prognósticos proféticos de Daniel e Apocalipse. O cumprimento contínuo-histórico das profecias de longo alcance aponta de maneira irrevogável ao cristianismo romano por ter derramado o sangue de incontáveis mártires. Entretanto, o juízo final do céu lavrará sua condenação humana na vindicação divina: "Mas, depois, se assentará o tribunal para lhe tirar o domínio, para o destruir e o consumir até ao fim...  até que veio o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino" (Dan. 7:26, 22).

A Estrutura Literária de Apocalipse 13:1-10 Determina a Data da "Ferida Mortal"

O não distinguir adequadamente o estilo literário do Apocalipse levará a interpretações equivocadas, o que se vê de maneira especial quando se trata de estabelecer o momento da ferida moral da besta em conexão com os 42 meses de domínio da besta. A ferida mortal se menciona três vezes em Apocalipse 13 (vs. 3, 12, 14). A pergunta que vem ao caso é: Essa ferida mortal, ser-lhe-ia infligida antes ou depois dos 42 meses?

Defenderam-se diferentes pontos de vista até dentro da escola histórica de interpretação. Uma opinião lê Apocalipse 13 como uma descrição contínua e ininterrupta de eventos futuros. Então a ordem dos acontecimentos seria assim: Primeiro: a ferida mortal (v. 3), seguida pelos 42 meses (v. 5). Essa seqüência levou a alguns historicistas a aplicar a ferida mortal à queda do Império Romano Ocidental em 476. Vê-se a "cura" da ferida como o surgimento da Roma papal e seu reinado medieval. Outro critério, que toma em conta a estrutura literária de Apocalipse 13:1-10, conclui que esta unidade consiste de duas seções paralelas distintas: (1) uma descrição resumida que culmina na adoração universal do dragão e da besta (vs. 1-4), e (2) uma explicação que termina com a mesma adoração universal da besta (vs. 5-8). Este ponto de vista foi exposto em forma convincente por W. H. Shea. Resume suas conclusões da seguinte maneira:

"Na seção descritiva (vs. 1-4) a ferida da besta se encontra no fim da passagem (v. 3). Na seção explicativa (vs. 5- 10) também se alude a esta ferida no fim da passagem ('se alguém matar à espada, à espada deve ser morto', v. 10; cf. o v. 14: 'a besta que tem a ferida de espada'). Em ambos os casos, a estrutura literária e as relações envoltas indicam que a autoridade que exerce a besta é anterior à ferida...

"Isto significa que os 42 meses do tempo da profecia culminam no tempo da ferida de morte, não depois".8
A ferida mortal da besta (Apoc. 13:3) explica-se no fim da unidade (v. 10) por "cativeiro" e "espada", e dessa maneira as duas seções formam um todo. Este ponto de vista sustenta que o anticristo sofreria uma ferida de morte depois de haver-se encolerizado 42 meses contra os santos.

A "ferida de morte" significa um congelamento temporário da perseguição do anticristo. Se o começo do tempo de opressão está marcado pela união da Igreja e o Estado, então seu final deve entender-se como a dissolução da união da Igreja e o Estado.
Allan F. Johnson se refere ao uso apocalíptico da palavra "espada" como um "símbolo de juízo divino" em Apocalipse (1:16; 2:12, 16; 19:15, 21), e por conseguinte vê a ferida mortal como um "golpe de morte à autoridade da besta" que foi assestado por Deus.9 Considera que seu cumprimento se realizou na morte e ressurreição de Cristo, e por isso foi um cumprimento de Gênesis 3:15 (como Irineu). Entretanto, a besta-anticristo em Apocalipse 13 se levanta depois da Roma pagã, muito tempo depois da ressurreição de Cristo. Portanto, a ferida mortal requer uma aplicação histórica à união Igreja-Estado que perseguiu durante a Idade Média. A aplicação popular da ferida ao suicídio do imperador Nero em 68 é um esforço para fazer com que a profecia encaixe no Império Romano, e para aplicar a cura da ferida à perseguição renovada pelo imperador Domiciano ao fim do século I.
Não há dúvida de que o dragão usou ao Império Romano para fazer guerra contra a "mulher" e seu "Messias" (Apoc. 12:1-4). Mas a "besta do mar" à qual o dragão ou Roma transfere seu poder representa o sucessor da Roma imperial. Isto chega a ser evidente se se conectar Apocalipse 7 com sua raiz principal em Daniel 7. Por Daniel sabemos que a quarta besta passaria seu domínio sobre a terra ao chifre pequeno.

A Ferida Mortal ao Estado-Igreja Totalitário

Falando historicamente, a união medieval do Estado e a Igreja recebeu vários golpes que reduziram seu poder de perseguir de uma maneira gradual. H. Grattan Guinness, que aplicou o método histórico de interpretação profética, menciona três "golpes fatais" para o romanismo: (1) a Reforma do século XVI; (2) a Revolução Francesa de 1789-1799; e (3) a unificação política da Itália em 1870, que outra vez lhe tirou o papado seu reinado temporário sobre os estados papais.10

L. E. Froom menciona em primeiro lugar a Reforma, depois a dissolução por parte do Papa da Companhia do Jesus (os jesuítas) em 1773, uma organização sancionada pelo Papa para fazer guerra contra os protestantes.11 Considera que o desterro forçado do Papa e a abolição do papado pelo governo da França revolucionária em 1798 constituiu o maior golpe contra o papado.

Como em 1791 o Papa Pio VI tinha denunciado a Revolução Francesa e sua Constituição Civil Clerical (1790), e também tinha participado da primeira coalizão de poderes europeus para ajudar a destruir a Revolução Francesa, o Diretório francês tomou represálias e se anexou os territórios papais no sul da França, capturou os Estados papais na Itália e estabeleceu uma república em Roma. O Diretório disse a Napoleão, em uma carta 1797, que "a religião romana sempre seria o inimigo irreconciliável da República. Terá que atirar um golpe na França e terá que atirar outro em Roma". A República Francesa tem que "destruir, se for possível, o centro de unidade da igreja romana".12

Postas assim as coisas, em 1798 as tropas francesas às ordens do general Berthier invadiram o Vaticano e levaram prisioneiro o Papa Pio VI. Com a aprovação dos italianos, França estabeleceu uma república romana independente "sob o amparo especial do exército francês".13 O objetivo do Diretório francês era destruir o papado e "libertar a Europa da supremacia papal".14 C. M. Maxwell descreve o significado único do ano 1798 nestas palavras:

"Embora durante os 1.260 anos o Papa foi freqüentemente derrotado e várias vezes encarcerado, a forma como foi tratado em 1798 foi qualitativamente diferente. Em 1798 foi dominado e encarcerado com o propósito de terminar seu significado religioso".15
A Inquisição também foi abolida na França em 1798. Não é maravilha que o impacto da Revolução Francesa fez com que muitos protestantes acreditassem que o reinado do papado tinha chegado a seu fim em 1798 com o golpe mortal que lhe deu o governo revolucionário francês. Muitos acreditaram que estes acontecimentos cumpriam as profecias dos capítulos 11 a 13 do Apocalipse.16 O famoso historiador Leopoldo von Ranke declarou: "Parecia como se tivesse acabado para sempre o poder papal".17 A New Catholic Encyclopedia [Nova Enciclopédia Católica] declara:

"Depois de despojar o Papa Pio VI de seu poder temporário, os franceses o privaram de sua liberdade. Sua morte enquanto estava na prisão marcou um ponto muito baixo na prosperidade papal que não havia tocado fundo por séculos, e deu origem a uma profecia de que a sucessão apostólica tinha chegado a seu fim com o falecimento de 'o último Pio' ".18

E o colaborador do artigo "The French Revolution" [A Revolução Francesa] dá esta informação:
"Nesse dia [quando Pio VI morreu como prisioneiro] parecia que se obteve a destruição total da Santa Sede".19

Estes são testemunhos notáveis que falam de uma ferida mortal histórica do papado! "Em realidade, a metade da Europa pensou que 'o papado estava morto' ".20 O Diretório francês tinha ordenado que não se escolhesse um sucessor de Pio VI à cadeira papal.21
Entretanto, Napoleão começou a reviver o papado com a Concordata de 1801, porque sentiu que o Papa sustentava a chave para restaurar a paz religiosa na França, concordata que "permitiu um exercício sem precedentes do poder papal".22 De fato, "muitos historiadores sustentam que a Concordata de 1801 foi tão decisiva para a história moderna da igreja como foi a conversão de Constantino para a história antiga da igreja".23 Em 1814 o Papa Pio VII restaurou a Companhia de Jesus (os jesuítas), e o Congresso de Viena (1814-1815) devolveu oficialmente ao Papa os Estados da igreja, exceto a terra que possuía na França. Esta restituição formou a base para a recuperação da Igreja Católica Romana durante o século XIX.

Em resumo, 1798 foi reconhecido em forma unânime por historiadores eclesiásticos católicos e protestantes como o tempo da "suprema humilhação" do papado na história moderna.24 * Esta abolição histórica e sem precedentes do papado em Roma por meio da "espada" do governo da França revolucionária pode interpretar-se como o cumprimento correto da "ferida mortal" predita da igreja papal (no Apoc. 13).

A "Cura" da Ferida Mortal Ainda Está no Futuro

Enquanto que os intérpretes adventistas mencionaram diferentes datas no passado como cumprimento da "cura" predita da ferida mortal que lhe infligiu o papado – tais como 1800, 1815, 1929 e outros anos –, o Comentário bíblico adventista declara mais prudentemente: "O profeta... viu a ferida completamente curada, como insinua o texto grego... [mas isso] ainda se acha no futuro".25

A interpretação de George McCready Price, que em forma apropriada uniu as perspectivas proféticas de Apocalipse 13 e 17, é significativa. Identificou o período da "ferida mortal" (Apoc. 13) com a fase "não é" da besta em Apocalipse 17:8. Destacou a distinção entre a "mulher" e a "besta", quer dizer, entre a Igreja Católica Romana e o poder do estado em sua aplicação da ferida mortal e seu cura. Não foi a mulher quem recebeu a ferida de morte, mas sim a besta! "Obviamente, a ferida significa que lhe tirou o poder bestial de dominar o mundo e tratar com os 'hereges'. Esta ferida mortal não será curada até que lhe restaure o antigo poder de perseguição".26

Dessa maneira Price aplicou a ferida mortal da besta não à Igreja Católica como tal, mas sim à dissolução da união da Igreja e o Estado, que não foi levado a cabo simplesmente pelo destronamento do Papa Pio VI em 1798, mas sim pela ideologia poderosa que está por trás da revolução da América do Norte e da Revolução Francesa: "Os dois princípios fundamentais de liberdade civil e religiosa, características do verdadeiro cristianismo".27 Price viu estas idéias destas duas liberdades, a civil e a religiosa, como a "causa real da ferida mortal, e o motivo pelo qual ainda não foi curada".28 Embora reconheceu alguns sinais de "atitudes cambiantes" na cristandade em favor da Igreja de Roma, por si mesmos "estas atitudes cambiantes distam muito de ser a cura profetizada. Não será até que Roma tenha novamente o poder de fazer cumprir sua vontade e doutrinas por meio de decretos legislativos e judiciais que os imponham que estará curada a ferida".29

Esta análise perspicaz muda a direção do enfoque da profecia além de qualquer intento especulativo de fixar a data de um acontecimento local, à ideologia que está por trás da perseguição dos santos. Price raciocinou que "um quarto de século antes de 1798 'a perseguição tinha cessado quase inteiramente' (GC 308), é boa prova de que a causa primitiva da ferida mortal era algo que precedeu a Revolução Francesa e bastante mais importante que ela".30 Para Price, o tempo da Revolução Francesa é idêntico ao "tempo do fim" profético no livro de Daniel. É o tempo quando "não se viu durante dois séculos a perseguição em escala mundial".31 Entretanto, a ferida será curada "quando ocorrer esta restauração do poder para tratar com os 'hereges' ".32 Ellen White o declarou de uma maneira similar. Disse ela: "A profecia prevê uma restauração de seu poder [o do papado]... Roma está visando a restabelecer o seu poder, para recuperar a supremacia perdida... Sorrateiramente, e sem despertar suspeitas, está aumentando suas forças".33

As opiniões de Ellen White e de Price sustentam que a "ferida" papal será curada só quando Roma tenha alcançado de novo a supremacia da Igreja no sentido de que promova leis estatais religiosas que acarretem perseguição. Uma expectativa assim ainda não se cumpriu e desacredita qualquer esforço de fixar datas.

Luis F. Were assinalou que a "parte de capital importância" de Apocalipse 13 e 17 "ocupa-se da cura da 'ferida mortal' e com aquelas coisas que seguirão devido ao fato de que a ferida foi curada. O revelador, tendo apontado à ferida de uma das cabeças da besta, passa imediatamente à cura de sua ferida... dizendo: 'E toda a terra se maravilhou após a besta' ".34 Este panorama do tempo do fim é o centro de atenção de Apocalipse 17.

O Aparecimento da Besta de Dois Chifres

"Depois vi outra besta que subia da terra; e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas falava como dragão" (Apoc. 13:11).

Não pode entender-se corretamente a besta da terra se a isolarmos da besta do mar. De fato, a besta da terra deve considerar-se como a última em uma série de três poderes mundiais hostis, a terceira das quais se une às duas primeiras. É surpreendente que a esfera de influência dos três monstros abrangem todo o cosmos: o dragão era do céu, a primeira besta veio do mar e a segunda da terra. João usa reiteradamente uma divisão do cosmos em três partes (Apoc. 5:3, 13; 9:1; 10:6; 12:12; 21:1). A associação íntima dos três monstros apocalípticos (ver 16:13, 14) une-os em seu castigo divino: o lago de fogo ardente (Apoc. 19:20; 20:10). Mas dentro de sua união e oposição à a Santa Trindade, cada sócio permanece distinto dos outros, cada um desempenhando um papel específico.

No Apocalipse, a "terra" se caracteriza em forma específica como o lugar das abominações de Babilônia (Apoc. 17:5). Da "terra" devem ser redimidos os 144.000 (14:3; cf. Heb. 11:13). Depois de tudo, a terra como a criação caída, foi colocada sob a maldição de Deus (Gên. 3:17).

Entretanto, a designação de que a besta de dois chifres "subia da terra" (Apoc. 13:11) chegou a ser uma ocasião para várias interpretações especulativas. Alguns expositores não vêem um significado particular nesta frase senão a forma de João de distinguir as duas bestas do começo (I. Beckwith e A. Johnson). Estes autores assinalam ao fato de que inclusive em Daniel 7 se diz que as bestas saem não somente do mar mas também "da terra" (Dan. 7:3, 17). Uns poucos tomam "a terra" como símbolo da inspiração satânica, "de baixo", do inferno (por exemplo, J. A. Seiss e W. Hendricksen). Outros tomam "a terra" em um sentido geográfico restringido, por exemplo: (1) Palestina (J. M. Ford); (2) Ásia Menor (R. H. Charles, H. B. Swete; Jerome Bible Commentary [Comentário Bíblico Jerônimo]; ou (3) os Estados Unidos da América (os adventistas guardadores do sábado desde 1851).35 Mas tais restrições geográficas são conjeturas. Admite-se que até a inferência geral de que "a terra" em Apocalipse 13:11 se refere a "uma região de escassa população" em contraste com a multidão de povos ("o mar") não é mais que "uma razoável" consideração.36

Entretanto, o contexto imediato de Apocalipse 13 usa o termo "terra" em um sentido mundial, para todos os adoradores do anticristo (Apoc. 13:3, 8), e coloca a "terra" em contraste com "os que moram" ou "o tabernáculo" no céu (v. 6). Este contraste religioso também se apresenta em Apocalipse 12:

"Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar! Porque o diabo desceu a vós" (v. 12).

Aqui se coloca a terra como o complemento do mar, sem nenhuma restrição geográfica (veja-se também Apoc. 10:2). Tanto a "terra" como o "mar" têm um alcance mundial.

A descrição de que "a terra ajudou à mulher pois a terra abriu sua boca e engoliu o rio que o dragão tinha jogado de sua boca" (Apoc. 12:16) é interessante. Aqui se pode fazer uma aplicação histórica às regiões de refúgio seguras nas montanhas meridionais da Europa, onde os valdenses sobreviveram às perseguições medievais de Roma. Por extensão, pode-se incluir a América do Norte como o santuário maior para os refugiados de uma Europa intolerante. Portanto, é compreensível que os adventistas norte-americanos desde 1851 vissem esta parte da América que parecia pacífica como o cumprimento da besta com os chifres "semelhantes aos de um cordeiro" de Apocalipse 13. Inclusive interpretaram seus dois chifres como indicando o poder republicano civil e o poder eclesiástico protestante, quer dizer, uma democracia e liberdade religiosa.37 Esta interpretação foi a expressão de sua opinião de que a democracia contemporânea da América do Norte e seu caráter protestante encaixava na primeira fase da perspectiva apocalíptica de Apocalipse 13:11-17. Esta aplicação inovadora de aplicar aos Estados Unidos o símbolo da besta de dois chifres teve conseqüências transcendentais para a compreensão adventista sobre "a marca da besta" e seu prognóstico da leis dominicais universais.

Se avaliarmos todos estes esforços para fazer que Apocalipse 13:11 fosse relevante para a igreja universal, necessitamos acima de tudo compreender que o ponto crucial de Apocalipse 13:11-17 está claramente não em que região da terra se levanta a segunda besta (ou "o falso profeta"), já que o texto só declara que a besta "subia da terra", só em que momento se levantará e como se relaciona com a primeira besta (o anticristo), e por que características pode ser reconhecido no tempo do fim. Como a atividade do falso profeta é enganar a "os moradores da terra" (Apoc. 13:14), o que evidentemente é algo universal, coincidimos com a opinião do W. G. Johnsson:

"Uma lei dominical aplicável só aos Estados Unidos é claramente inadequada... Reconheçamos francamente que até nos aguarda a compreensão plena do cumprimento desta profecia da besta que sobe da terra... Entretanto, ainda não são claras as características significativas dos enganos da segunda besta, especialmente os milagres que farão que muitos se desencaminhem, e a 'imagem' à besta que sobe do mar. Além disso, a visão indica um cenário de ação que abrange todo mundo... E à presente, não é manifesto como a multidão inteira da humanidade será atraída ao torvelinho do engano".38
Precisamos nos dar conta de que só a história proporciona a interpretação final da profecia. Os cumprimentos da profecia bíblica geralmente se realizaram em formas surpreendentes e insuspeitadas.

A Besta da Terra como Apologista do Anticristo

"E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão. E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada. E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida de espada e viveu" (Apoc. 13:11-14).

Esta descrição também mostra uma progressão na história. No tempo do fim a apostasia irá de mal a pior, como já o indicou Paulo: "Mas os homens meus e enganadores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados" (2 Tim. 3:13). O desenvolvimento das duas bestas de Apocalipse 13 significa que a ameaça do engano se incrementará dramaticamente, não somente para os que não são cristãos, mas sim de uma maneira especial para os crentes cristãos e para as igrejas cristãs em todas as partes do mundo.
A besta da terra aparecia com "dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas falava como o dragão". Este contraste acentua seu caráter sedutor. O "cordeiro" é o símbolo por excelência no Apocalipse. Vinte e oito vezes representa a Cristo como o Cordeiro de Deus, e faz dele o símbolo principal e o princípio coordenador de todo o livro. A aparência como cordeiro da besta da terra indica a natureza da última fraude na prova final de fé. A besta da terra deseja ser tomada como semelhante a Cristo, mas suas palavras revelam as mentiras, as heresias, e os planos assassinos do dragão e da besta anticristo.

Pode-se detectar na forma que esta besta "fala como o dragão" (ou serpente no Apoc. 12:9), uma referência "ao caráter sedutor e fraudulento da serpente no jardim do Éden"39 assim como uma referência ao dragão como um destruidor. Tal contraste de aparência e a natureza essencial já foi o tema da advertência anterior de Jesus: "Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores" (Mat. 7:15). Cristo brindou esta notícia adiantada a todas as gerações futuras: "Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos" (24:24). Esta advertência antecipada de Jesus que apresenta Mateus 24, está elaborada em Apocalipse 13. A besta da terra realizará "grandes sinais" (Apoc. 13:13) e é caracterizada como "o falso profeta" (16:13; 19:20; 20:10).

Dessa maneira o Apocalipse revela que a era cristã desenvolverá dois personagens anticristo, que atuarão em uma união íntima. Apocalipse 13 descreve uma trama do tempo do fim com um Cristo falso e com um falso profeta diferente, cada um com um próprio papel para desempenhar, com o fim de alcançar um alvo comum: unir o mundo inteiro em rebelião contra Deus (ver Apoc. 16:13, 14).
O falso profeta de Apocalipse 13:11-17 afirma ser o último porta-voz de Deus. Aparece no panorama da história só depois que a besta da terra dominou por 42 meses e recebeu sua ferida mortal (Apoc. 13:12). Esta sincronização na história do falso profeta é de importância histórica para a igreja. Sua atividade significa o começo do ato final no drama dos séculos que conduz ao último enfrentamento entre Cristo e o anticristo: "o Armagedom".

O Espírito de Deus se manifestou em sinais milagrosos depois que Cristo completou sua missão, com o propósito de glorificar mais a Cristo (João 16:13, 14; Heb. 2:3, 4). Seu contraparte aparece no falso profeta, inspirado pelo espírito de demônios para levar a cabo "sinais" (Apoc. 19:20). Seu propósito é seduzir o mundo e induzir todas as nações a adorar ao anticristo, "a besta cuja ferida mortal foi curada" (Apoc. 13:12-14). Para realizar isto, o falso profeta "mandará" aos moradores da terra "que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu" (Apoc. 13:14).

Muitos intérpretes reconheceram neste quadro de Apocalipse 13 uma correspondência essencial com a história dos três jovens hebreus em Daniel 3. Assim como nos dias de Daniel o levantamento de uma estátua literal em honra do rei de Babilônia foi seguida imediatamente por um decreto legislativo para adorar a imagem (Dan. 3), assim também se repetirá este procedimento em uma escala universal no tempo do fim:

"E lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta" (Apoc. 13:15).

É importante reconhecer a tipologia essencial entre Daniel 3 e Apocalipse 13! Com este paralelismo histórico referido a Daniel 3, Apocalipse 13 revela a formação básica do conflito final na era da igreja (ver Apoc. 13:16, 17). As duas facções voltarão a estar determinadas por rituais de adoração que contrastam, ou pela fé dos seguidores de Cristo ou pelo culto estatal idólatra do anticristo. Ambos os grupos religiosos empregarão "fogo" do céu para convencer ao mundo de suas afirmações. O "fogo do céu" anticristão (Apoc. 13:13) evidentemente funciona como "a contraparte satânica dos sinais realizados pelas duas testemunhas".40
Um erudito evangélico faz este comentário perspicaz: "A besta da terra é a antítese dos dois profetas de Cristo simbolizados pelas duas testemunhas no capítulo 11".41 Se o sinal do "fogo" das duas testemunhas de Deus se refere a seus dons do Espírito Santo (ver At. 2:3, 4; Heb. 2:4), então o uso do "fogo" pelo falso profeta "seria uma referência aos dons pseudocarismáticos que criam uma comunidade eclesiástica falsa que rende lealdade ao anticristo".42

Pelos sinais sobrenaturais do falso profeta podemos inferir que enfrentará as verdadeiras testemunhas de Cristo. Esta confrontação vindoura deve despertar nossa consciência ao feito de que muito do que se expõe como cristianismo verdadeiro, no fundo é falso. Paul Minear fez soar corretamente o alarme: "Chama-se os leitores a que discirnam o critério que os capacitará para que separem a besta corderiforme (Apoc. 13:11) do próprio Cordeiro (14:1)".43

Para ser "vencedores" como se requer em cada carta de Cristo às igrejas, os crentes devem ser testemunhas fiéis e verdadeiras, e estar dispostos a entregar suas vidas para sustentar e preservar "o testemunho de Jesus", até ante os tribunais do anticristo (ver Apoc. 11:7; 12:11; 20:4). Enquanto todo o mundo adorar com uma devoção máxima à besta aparentemente invencível (Apoc. 13:4), o Apocalipse de João assegura à igreja: "O Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, eleitos e fiéis" (Apoc. 17:14). O título cristológico neste versículo, "Senhor de senhores e Rei de reis", aplica o próprio título de Deus no Antigo Testamento (Deut. 10:17; Sal. 136:2, 3; Dan. 2:37, 47; 4:37 na versão grega) a Cristo em sua segunda vinda (ver também Apoc. 19:16).

A Função da Marca da Besta

Os que recebam a marca (em gr., járagma) são os "habitantes da terra" (os que moram na terra), que em forma consistente são descritos como os seguidores da besta anticristo e como os que se regozijam na morte das duas testemunhas (Apoc. 6:10; 11:10; 13:8, 12, 14; 17:2, 8). A fórmula apocalíptica ("os que moram na terra") não descreve o mundo em um sentido neutro, mas sim designa os que seguem o anticristo. Estes moradores da terra não estão localizados em uma região ou em um continente da terra. Representam a hostilidade universal da terra contra Deus. Está incluída toda classe de pessoas:
"A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte" (Apoc, 13:16).

Este estilo de grupos sociais que estão em contraste assinala à universalidade (também no Apoc. 6:15; 19:18). João adverte a seus leitores que os eventos finais não serão de um alcance provincial ou nacional, mas sim de proporção universal. A jurisdição das bestas é segundo parece toda a população do mundo.

O papel que desempenha a marca da besta está em notório contraste com o que desempenha o selo de Deus. O papel básico de ambos é simbolizar um compromisso religioso: a Cristo ou ao anticristo. Tanto o selo como a marca contêm os motivos intrínsecos de pertinência e proteção (Ezeq. 9:4; Apoc. 7:2, 3; 9:4; 13:16, 17; 1 Ped. 2:9; Mau. 3:17, 18).44 A marca é a paródia demoníaca do selo de Deus. Em um nível mais profundo, ambos os sinais representam o caráter que corresponde com a mente de Cristo ou a do anticristo. Ambos os símbolos representam os nomes ou a reputação de quem o leva (ver Apoc. 14:1; 22:4; 13:17; 17:5). Dessa forma João pensou em um contraste de mentalidades e lealdades, uma percepção ignorada com freqüência nos comentários.
Ambos são sinais religiosos de lealdade, o que se indica pelo lugar onde se coloca: "na fronte" (o lugar de assentimento e convicção mental) ou "na mão" (o lugar da conformidade externa). O "selo" sobre a fronte dos fiéis é um sinal religioso de lealdade, porque João o explica como o nome do Cordeiro e o do Pai escritos em suas frontes (Apoc. 14:1). Claramente, refletem o caráter de Deus e de seu Filho (ver João 15:10). Em comparação, podemos entender a "marca" da besta como um sinal religioso que representa a mente e o caráter do anticristo rebelde. A marca representa "o nome da besta ou o número de seu nome" (Apoc. 13:17), o que simboliza o caráter jactancioso e o espírito autônomo do anticristo.

O ponto crucial de Apocalipse 13 é que cada pessoa está obrigada a prometer sua lealdade e a revelar seu caráter de uma maneira ou de outra sem a possibilidade de permanecer neutro. Todos devem decidir-se e identificar-se ou com a verdade de Deus em Cristo ou com o credo do anticristo. Entretanto, o significado completo da marca da besta chega a ser evidente só em Apocalipse 14. João enfatiza que assim como o Cordeiro é a encarnação de Deus que se fez homem, assim a besta é a encarnação do dragão-serpente na humanidade. Este é o antecedente espiritual da confrontação final entre o céu e a terra em Apocalipse 13.
Quando Apocalipse 13 se entende dentro de seu contexto inalienável dos capítulos 12 aos 14, notamos que "os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus Cristo" são a norma explícita de lealdade ao céu (Apoc. 12:17; 14:12), o que envolve que a lei do pacto de Deus, o Decálogo, será interiorizado nos corações dos santos por meio do Espírito de Deus. Transformados pelo evangelho de Cristo, seus caracteres refletirão a Cristo e estarão em harmonia com a vontade de Deus. Os santos de Deus são os seguidores do Cordeiro (Apoc. 14:1-5).

A marca da besta está em flagrante oposição tanto aos mandamentos de Deus como ao testemunho de Jesus na Escritura Sagrada, o que implica que os seguidores da besta obedecem uma lei moral falsificada e seguem a um pseudomessias. Refletirão o fanatismo intolerante do anticristo. A linha de demarcação não é meramente um acatamento externo a uma lei moral ou civil, mas sim a união do coração e da mente com Cristo ou com o anticristo.

Enquanto que os verdadeiros seguidores de Cristo estão dispostos a dar suas vidas por causa do testemunho de Jesus como a Palavra final de Deus, os seguidores do anticristo imporão um boicote aos crentes na Bíblia que não aceitem a marca da besta "e que nenhum pudesse comprar nem vender, a não ser o que tivesse a marca ou o nome da besta, ou o número de seu nome" (Apoc. 13:17). Os santos terão seus direitos civis negados e chegarão a estar sujeitos a ser processados e sentenciados pela lei (v. 15). Entretanto, os santos encontrarão consolo na oferta de Cristo de "comprar" dele "ouro refinado no fogo", "vestes brancas" e "colírio para que vejam" (v. 18), oferecimento que nunca pode ser bloqueado pela legislação humana ou pelo boicoto social.

Interpretando o Número 666

"Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é número de homem; e o seu número é seiscentos e sessenta e seis" (Apoc. 13:18).

A grande variedade de esforços para decifrar o número misterioso 666 pode dividir-se em duas categorias principais. Um grupo utiliza o método da gematria, que atribui um valor numérico a cada letra em uma linguagem selecionada, somando dessa maneira as letras de uma palavra. A frase Nero Caesar foi aceito amplamente como o significado de 666, aplicação histórica que, em todo caso, encaixaria só no tempo do apóstolo Paulo. Não obstante, as possibilidades do método de gematria são quase ilimitadas enquanto que frases como Italika Ecclesia (Igreja italiana), Hei Letana Basileia (O reino latino) ou Vicarius Filii Dei encaixam no número 666, também acontece o mesmo com as palavras para Lutero (Loutherana Saxoneios), Maomé (Maometis), Napoleão (Nabonaparti) ou Hitler. Um erudito reparou no seguinte: "Olhando para trás, foi possível... identificar o número 666 com os nomes da maioria dos tiranos que no curso da história perseguiram a igreja".45

Irineu, um pai da igreja primitiva (morreu por volta de 202), já tinha advertido que só o cumprimento da profecia daria segurança, porque "podem encontrar-se muitos nomes que possuem o mencionado número".46 Os que aceitam o papado ou a hierarquia católica romana como o cumprimento histórico de Apocalipse 13, vêem no número 666 uma confirmação de sua interpretação da besta e do número de seu nome: "Vicarius Filii Dei", que é a pretensão a ser o vigário de Cristo.

Pelo fato de que João nunca usa no Apocalipse a gematria como método, a maioria dos eruditos bíblicos preferem a interpretação simbólica do número 666, assim como João usa o número 144.000 e em 1.600 em Apocalipse 14. Em geral acredita-se que João deu a certas cifras um caráter simbólico, que era algo familiar na forma de pensar hebraica. Assim como o número 4 representa ou simboliza a universalidade ou totalidade, o 7 o descanso e a perfeição, e o 12 o povo do pacto de Deus ou a igreja, assim também o 6 pôde haver-se percebido como um símbolo para o homem sem Deus e sem o descanso que Deus lhe dá.

O número 6 aponta ao dia da criação do homem (Gên. 1:27, 31). O rei de Babilônia fez uma estátua de ouro que media 60 côvados de altura e 6 de largura (Dan. 3:1) para que a adorassem quando desse a ordem. Deste ponto de vista, o número 666 sugeriria o esforço do anticristo de exaltar o homem no lugar de Deus e de Cristo. João declara em forma específica que o número 666 "é número de homem" (Apoc. 13:18).

Ao ser multiplicado o número 6, dá a entender uma repetição dos esforços da besta para "fazer-se passar por Deus",47 e contudo falhar persistentemente. A informação de que os santos alcançaram a vitória "sobre a besta e sua imagem, e sua marca e o número de seu nome" (Apoc. 15:2) é valiosa. A vitória sobre o número 666 não indica uma vitória em ingenuidade matemática mas sim a vitória sobre o nome ou o caráter de autoendeusamento da besta. A besta leva muitos "nomes de blasfêmia" (Apoc. 13:1; 17:3). Isto quer dizer que à besta "são adjudicados nomes e títulos honoríficos que só correspondem a Deus ou a Cristo".48 Isto requer a sabedoria do discernimento divino mais que uma perspicácia intelectual; exige conhecimento bíblico espiritual mais que filosofia humana.

João assinala a seu significado profundo quando declara: "Aqui é preciso discernimento! Que o inteligente..." (Apoc. 13:18, BJ). A respeito, diz Alan Johnson: "Os crentes precisam penetrar o engano da besta. A referência de João a este número os ajudará a reconhecer seu verdadeiro caráter e identidade".49 Atualmente, os eruditos bíblicos adventistas preferem esta interpretação. Beatrice S. Neall explica que o número de homem, o 6, é legítimo só quando leva a 7, à glória e soberania de Deus:

"Entretanto, seiscentos e sessenta e seis representa a negativa do homem de proceder rumo ao sete, de dar glória a Deus como Criador e Redentor. Representa a fixação do homem consigo mesmo, o homem procurando a glória em si mesmo e em seus próprios poderes criadores sem Deus: a prática de prescindir de Deus. Demonstra que o homem impenitente é mau em forma persistente. A besta de Apocalipse 13 representa o homem exercendo sua soberania à parte de Deus, o homem conformado à imagem da besta em lugar da imagem de Deus. O homem à parte de Deus chega a ser bestial, demoníaco".50

William G. Johnsson declara igualmente que 666 "aponta à paródia da perfeição: imperfeição sobre imperfeição, apesar das monstruosas pretensões da besta".51 Roy C. Naden oferece uma interpretação completamente evangélica:

"Ser identificado com o 6 é experimentar luta sem o descanso do Cordeiro. A besta e sua imagem têm o número que identifica a luta incessante modelada por sua líder que é Satanás. Assim o 6 é o símbolo numérico da inquietação do perdido. Sem o Cordeiro, nunca podem encontrar descanso".52

Precisamos dar-nos conta de que Apocalipse 13:11-17 descreve simbolicamente o engano final do mundo no futuro. A formação da "imagem" da besta ainda é uma realização incompleta. Também, a marca da besta ainda não foi imposta à humanidade. Dar-nos conta disto deve impedir que qualquer intérprete seja dogmático quanto ao futuro cumprimento de Apocalipse 13:11-17.

Hans K. LaRondelle

Referências

1 D. Ford, Crisis! A Commentary on the Book of Revelation, t. 2, p. 582.
2 Johnsson, "The Saints' End-Time Victory Over the Forces of Evil", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 21.
3 Como por exemplo, Beale, The Use of Daniel in Jewish Apocalyptic Literature and in the Revelation of St. John, p. 247.
4 Ellul, The Subversion of Christianity, cap. 2.
5 Lecky, History of the Rise and Influence of the Spirit of Rationalism in Europe, t. 2, p. 45. Também está no SDA Bible Students' Source Book (O livro fonte adventista do sétimo dia dos estudantes da Bíblia], p. 740.
6 Thomas e Gertrude Sartory, In der Hölle Brennt Kein Feuer [Nenhum fogo queima no inferno] (Munich, 1968), pp. 88, 89. Citado por H. Küng, Eternal Life? [Vida eterna?] (Garden City, Nova York, 1984), p. 132.
7 Publicado em Hamburgo pela Editora Rowohlt Reinbeck, 5 ts. (até o século X), 1986-1997.
8 Shea, "Time Prophecies of Daniel 12 and Revelation 12-13", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 1, pp. 353-359; as duas entrevistas pertencem às pp. 358, 359.
9 A. F. Johnson, Revelation, p. 129.
10 Guinness, Romanism and the Reformation, p. 234.
11 Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 2, p. 731.
12 Ver a documentação em Aulard, Christianity and the French Revolution, p. 151.
13 Ver a documentação em Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 2, p. 756.
14 Ibid., p. 750.
15 Maxwell, "The Mark of the Beast", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 125.
16 Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 2, pp. 741-748.
17 Von Ranke, Historia de los papas en la época moderna. Trad. Eugenio Imaz (México: Fondo de Cultura Económica, 1943), p. 724.
18 J. F. Broderick, "Papacy" [O papado], New Catholic Encyclopedia [A Nova Enciclopédia Católica] (Washington, D-C-: Catholic University of America; 17 ts.), t. 10 (1967), p. 965.
19 A. LaTreille, "A Revolução Francesa", New Catholic Encyclopedia, t. 6, p. 191.
20 Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 2, p. 763.
21 Ibid., p. 750.
22 Broderick, "O papado", New Catholic Encyclopedia, t. 10, p. 966.
23 The New Encyclopedia Britannica [Nova Enciclopédia Britânica] (Chicago: University of Chicago Press, 1992, 15a ed.), T. 26, p. 892.
24 Ibid.
25 7 CBA 832.
26 McCready Price, El tiempo del fin, p. 43.
27 Ibid., p. 41 (o itálico é meu).
28 Ibid.
29 Ibid., p. 43.
30 Ibid, p. 42.
31 Ibid., p. 69.
32 Ibid., p. 44.
33 Ellen White, GC 579, 581.
34 Were, The Woman and the Beast in the Book of Revelation, p. 59.
35 Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 4, p. 1118.
36 CBA 834.
37 Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, t. 4, p. 1118.
38 Johnsson, "The Saints' End-Time Victory Over the Forces of Evil", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 29.
39 Charles, The Revelation of St. John, t. 1, p. 358.
40 Johnsson, "The Saints' End-Time Victory Over the Forces of Evil", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 28.
41 A. F. Johnson, Revelation, p. 133.
42 Ibid., p. 134.
43 Minear, I Saw a New Earth, p. 119.
44 Ver Fitzer, "Sfragís", Theological Dictionary of the New Testament [Dicionário teológico do Novo Testamento] (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1964-1976; Gerhard Kittel, ed.; 10 ts.; trad. do alemão por G. W. Bromiley), T. 7, pp. 939-953.
45 J. J. von Allmen, em Brady, The Contribution of British Writers between 1560 and 1830 to the Interpretation of Revelation 13:16-18, p. 301.
46 Irineu, Contra hereges, livro V, cap. 30, parágrafo 3.
47 Ellul, The Subversion of Christianity, p. 98.
48 H. Bietenhard, "Nome", Diccionario teológico del Nuevo Testamento (L. Coenen, ed.), t. III, p. 175.
49 Alan Johnson, "Revelation" [Apocalipse], The Expositor's Bible Commentary [O Comentário Bíblico do Expositor] (F. Gabelein, ed. Grand Rapids, MI: Zondervan, 1981; 12 ts.), T. 12, p. 534.
50 Neall, The Concept of Character in the Apocalypse with Implications for Character Education, p. 154. .
51 Johnsson, "The Saints' End-Time Victory Over the Forces of Evil", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 31; ver também Strand, ibid., p. 222.
52 Naden, The Lamb Among the Beasts. Finding Jesus in the Book of Revelation, p. 200.

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