sexta-feira, 8 de junho de 2012

VIII - INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE

O último livro da Bíblia é completamente diferente em estilo e composição a qualquer outro escrito do Novo Testamento. Está estruturado engenhosamente, com um equilíbrio excepcional em seu desenho literário. Sua disposição indica a unidade do livro. Uma composição tal nos proíbe isolar qualquer versículo ou seção da totalidade do livro. O Apocalipse foi destinado para lê-lo como um tudo, de maneira que seu movimento do começo até o fim possa produzir seu impacto pleno sobre nossas mentes e corações. Embora se enfoca sobre suas profecias do tempo do fim, precisamos estar inteirados de que podemos apreciar seu significado só quando recuperamos o movimento interno e a perspectiva completa de todo o Apocalipse.

Devido ao fato de que seu arranjo literário e sua mensagem teológica estão entretecidas, o possuir um conhecimento de seu plano arquitetônico contribui substancialmente à nossa compreensão de sua mensagem. João transmite sua unidade por sua construção de um modelo simétrico, um paralelismo inverso chamado quiasmo. Isto se faz evidente em primeiro lugar no fato de que o começo (prólogo; Apoc. 1:1-8) e o final (epílogo; Apoc. 22:6-21) correspondem-se mutuamente. E as sete promessas às igrejas nos capítulos 2 e 3 encontram seu contraparte nas sete visões do tempo do fim (cada uma começando com as palavras "então vi") em Apocalipse 19:11 aos 22:21. A primeira e a última séries de setes se relacionam entre si como a promessa e o cumprimento divinos, a igreja militante e a igreja triunfante. Ambas as unidades começam com uma cristofania (aparição de Cristo) esplêndida: Apocalipse 1:12-18; 19:11-16. O modelo simétrico se estende a outros duetos, que se concentram em uma seção central. Tal ensambladura literária, "uma arquitetura verdadeiramente monumental",[1] foi reconhecido por numerosos eruditos e chegou a ser um requisito indispensável para a compreensão do Apocalipse. Essa forma serve para esclarecer o significado da mensagem do Apocalipse.

Uma lição que se aprendeu de um consenso cada vez major de estudos críticos é a convicção de que o Apocalipse como um tudo é uma carta apostólico-profética, dirigida às igrejas do Senhor Jesus Cristo, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Portanto, não é legítimo separar as sete cartas de Apocalipse 2 e 3 das visões seguintes (Apoc. 4-22). Esta unidade interna do Apocalipse é reconhecida amplamente, como afirma K. A. Strand: "A maioria dos expositores reconhece que a descrição da Nova Jerusalém e a nova terra nos capítulos finais do Apocalipse, recordam (como cumprimento) as promessas feitas aos vencedores nas mensagens às sete igrejas nos capítulos iniciais".[2] O Apocalipse promete a Nova Jerusalém sobre a nova terra a todos os seguidores de Cristo em todas as igrejas.

É especialmente digno de menção o movimento da igreja no tempo de João (Apoc. 1-3) através da era cristã tão cheia de acontecimentos (Apoc. 12 e 13), até que entra sem perigo na Cidade de Deus no paraíso restaurado sobre a terra (Apoc. 21 e 22). Primeiro, o Cristo ressuscitado apresenta sua avaliação da condição da igreja apostólica nas sete cartas às sete igrejas (Apoc. 2 e 3). Mas estas mensagens não foram destinadas só para a igreja primitiva, como se o Senhor da história estivesse interessado só naquele período de tempo. As promessas de Cristo nessas cartas mostram uma progressão significativa, que assinala cada vez mais a sua segunda vinda. As mensagens das cartas de Cristo devem entender-se em mais de um nível. Primeiro, como dirigidas às igrejas do primeiro século, depois a cada membro individual da igreja em qualquer tempo durante a era da igreja, e finalmente, às diversas condições da igreja durante a era cristã. Os intérpretes historicistas ressaltaram em forma crescente este aspecto preditivo das sete cartas.[3] Hoje em dia, estes três aspectos são reconhecidos pelos expositores adventistas.[4] Esta breve declaração é representativa: "As sete igrejas, estudadas em sua ordem, concordam com a experiência predominante da igreja cristã durante sete eras sucessivas".[5]

As cartas estão vinculadas com as visões seguintes e se iluminam mutuamente com uma urgência crescente enquanto avança a história. Esta progressão está recalcada pelas visões sucessivas que João teve do templo, que seguem a seqüência dos festivais anuais do antigo tabernáculo de Israel. As primeiras visões do templo em Apocalipse 1:12-16 e nos capítulos 4 e 5 descrevem graficamente o Senhor ressuscitado como tendo completo as festas da primavera da Páscoa (Apoc. 1:5, 17, 18) e o Pentecostes (5:6-10). Depois o Apocalipse continua na visão do templo de Apocalipse 8:2-6 para revelar o ministério a longo prazo de Cristo na série das "sete trombetas" (Apoc. 8, 9 e 11 ) que levam à Festa das Trombetas de Israel, a primeira de todas as festas do ano religioso judeu. A seqüência dos festivais do outono é significativo: Festa das Trombetas, Dia da Expiação e Festa dos Tabernáculos (Lev. 23; Núm. 29). Richard M. Davidson assinala que...

"...assim como a Festa das Trombetas (também chamada Rosh Hashana) convocava ao antigo o Israel a preparar-se para o vindouro dia do juízo, o Yom Kippur, assim também as trombetas do Apocalipse põem especialmente de relevo a aproximação do Yom Kippur antitípico".[6]

A Festa das Trombetas ocorre como a culminação dos sete festivais lunares. Formam a ponte entre os festivais da primavera e o solene Dia da Expiação e a Festa dos Tabernáculos. No Apocalipse o ponto central de atração muda gradualmente ao dia do juízo final e à terra restaurada quando Jesus morará com seu povo. A sétima trombeta apresenta uma cena do templo que se centra no "arca de seu pacto" (Apoc. 11:15, 19). No tabernáculo de Israel o "arca" estava no lugar santíssimo do santuário e só era vista durante o ritual de purificação final, no Dia da Expiação (Lev. 16:15). Nesse dia, Israel era julgado e se limpavam os pecados que contaminavam o povo por meio do bode emissário (Lev. 16:19, 22; 23:29, 30). De igual maneira, Apocalipse 10 anuncia que não haverá mais tempo ou demora quando o sétimo anjo esteja a ponto de tocar a trombeta. Então, "o mistério de Deus se consumará" (Apoc. 10:6, 7).

Em Apocalipse 15 observamos a terminação da obra mediadora de Cristo no templo celestial, seguindo-se o juízo retributivo das sete últimas pragas (Apoc. 16 e 17). Em Apocalipse 19:1-10 ouvimos que "chegaram as bodas do Cordeiro e sua esposa preparou-se" (v. 7).

Apocalipse 20 e 21 introduzem o milênio de triunfo para todos os que morreram no Senhor (20:4-6). A Nova Jerusalém descende sobre uma terra renovada: "Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, e ele morará com eles" (21:3). Isto aponta ao glorioso cumprimento da festa dos tabernáculos, quando Israel celebrava sua liberação e se regozijava diante do Senhor com o ondulação dos ramos de palmeira (Lev. 23:40, 43). Este simbolismo descreve a salvação futura da igreja de Cristo, formada de todos os povos da terra (Apoc. 7:9, 10; 15:24). Devemos relacionar a estrutura do livro com seu movimento progressivo se é que vamos compreender o significado do Apocalipse.

O significado deliberado do Apocalipse não é simplesmente documentar um momento histórico da igreja no Ásia Menor ou proporcionar um estímulo apostólico para a igreja em crise nos dias da Roma imperial. Acima de tudo, coloca a cada igreja na luz examinadora dos olhos do Senhor, de maneira que cada igreja possa saber o que é que Cristo espera de seu povo. Dessa maneira, Cristo coloca tanto suas expectativas como suas responsabilidades diante de todas as igrejas. Isto desperta nossa consciência para contemplar a relação íntima que existe entre Cristo e seu povo em todos os tempos. Jacques Ellul o expressa desta maneira:

"O Senhor da igreja, quem ao mesmo tempo é o Senhor da história, não é um Deus distante, inacessível e incompreensível; é o que fala com sua igreja, é o que vive na história por meio de seu povo".[7]

Os diferentes septenários (séries de setes) – tais como as cartas, os selos, as trombetas e as taças com as últimas pragas – contêm uma luz que se projeta sobre os acontecimentos do tempo do fim. Este fenômeno reiterativo indica que o Apocalipse coloca uma ênfase particular sobre o período do tempo do fim da igreja e do mundo. Ellen White expressa esta visão mais ampla quando diz:

" Esta revelação foi dada para guia e conforto da igreja através da dispensação cristã. ... Suas verdades são dirigidas aos que vivem nos últimos dias da história da Terra, como o foram aos que viviam nos dias de João".[8]

Hans K. LaRondelle

Referências

1. J. Ellul, Apocalypse, The Book of Revelation, p. 36.
2. F. B. Holbrook, ed., Symposium on Revelation – Book 1 [Simpósio sobre o Apocalipse – Livro 1] (Silver Spring, Maryland: Biblical Research Institute, 1992), p. 31.
3. Ver Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, v. 4, pp. 848, 1118.
4. Ver D. Ford, Crisis! A Commentary on the Book of Revelation [Crise! Um Comentário sobre o Livro do Apocalipse] (Newcastle, Califórnia: Desmond Ford Publications, 1982; 2 ts.), T. 2, pp. 264-308; C. Mervyn Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones (Florida, Buenos Aires: Asociación Casa Editora Sudamericana, 1991), pp. 89-145; R. C. Naden, The Lamb Among the Beasts. Finding Jesus in the Book of Revelation [O Cordeiro Entre as Bestas. Encontrando a Jesus no Livro do Apocalipse] (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 1996), caps. 4 e 5.
5. Maxwell, Apocalipsis: sus revelaciones, p. 94.
6. Richard M. Davidson, Simpósio sobre o Apocalipse, T. 1, p. 123.
7. Ellul, Apocalypse, The Book of Revelation, p. 51.
8. Ellen White, AA 583, 584.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...