quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Significado Religioso dos Salmos

O Livro de Salmos cumpre um papel único na Bíblia. Da mesma maneira que o coração tem uma função especial no corpo humano, assim os salmos funcionam nas Escrituras como a batida do coração da religião de Israel. Neste livro de orações o povo da aliança encontrou sua escada para o Céu. Ela alcança das mais baixas profundezas da agonia e sofrimento humano às alegrias mais elevadas da comunhão com Deus. Lamentos e gritos de desespero intercambiam com hinos de ação de graças e louvor devido a respostas dramáticas às súplicas intensas. Este intercâmbio vivo entre homem e Deus é talvez a razão mais profunda por que o Livro de Salmos tem sido apreciado como a jóia inestimável na Bíblia Hebraica por investigadores diante de Deus em todas as idades. Provou ser uma fonte incessante de conforto espiritual e reavivamento.

Lutero e Calvino avaliaram o Saltério sobre os outros livros da Santa Escritura. Lutero chamou o Livro de Salmos carinhosamente, "uma pequena Bíblia", porque ele viu a Bíblia inteira resumida nele de um modo bonito. Os salmos revelaram a Lutero não só as palavras e ações dos crentes hebreus, mas suas mais cordiais e profundas motivações.

Onde a pessoa encontra melhores palavras de alegria que nos Salmos de louvor e ação de graças? Lá você olha dentro do coração de todos os santos, como dentro de suaves e agradáveis jardins, sim, como dentro do próprio céu. ... Por outro lado, onde você acha mais profundamente, palavras mais dolorosas, mais lamentáveis de tristeza que nos Salmos de lamentação? Lá novamente você olha dentro dos corações de todos os santos, como dentro da morte, sim, como no próprio inferno. ... Isto lhe ensina em alegria, temor, esperança, e tristeza a pensar e falar como todos os santos pensaram e falaram. [1]

Foi dito que nos salmos pode-se olhar dentro dos corações dos santos hebreus, contudo até mesmo isso é só parte da verdade. Nos salmos de Israel a pessoa pode olhar também dentro do coração de Deus. A Bíblia, inclusive os salmos, simplesmente não é um livro sobre sentimentos piedosos de crentes. Mais que isso, também é uma revelação do próprio coração de Deus.

Não só vemos o homem lutando com Deus, mas também Deus lutando com a alma humana, comunicando ao homem Sua misericórdia e poder, revelando a ele uma nova compreensão de Sua vontade e propósitos. Os salmos não são meramente louvores subjetivos e gritos por auxílio; eles são orações inspiradas que nos ensinam como alcançar nosso Pai no Céu e como cultivar uma viva comunhão com Ele.

Nos salmos de outras nações antigas descobertos nos tempos modernos – da Suméria, de Canaã, e do Egito[2] – pode-se observar algumas diferenças básicas dos salmos de Israel. Aqueles contêm um politeísmo pronunciado e lhes falta uma consciência clara de pecado e culpa. A razão para isto é clara. Nos salmos piedosos de outras nações o homem falava livremente do próprio coração, religioso realmente mas sem as revelações de luz e amor do próprio coração de Deus. Os cânticos hebraicos inspirados deste modo estão como uma classe sozinha.

Os Salmos: Uma Expressão Única de Revelação Divina

Qual é, então, o significado religioso e moral dos salmos de Israel? Eles se erguem como exemplos inspirados de como Deus deseja que respondamos com fé às Suas revelações autênticas e de Seus feitos nos livros de Moisés. Os judeus criam que as cinco subdivisões dentro do Livro de Salmos pretendia-se que fossem o eco da fé de Israel nos cinco livros de Moisés. Embora este acordo formal não seja mais que uma coincidência de semelhança externa, é verdade que os grandes fatos históricos registrados na Torah – a criação e a queda, o dilúvio, a aliança de Deus com Abram, Isaque, e Jacó, a redenção de Israel do Egito, a entrega da lei e teofania no Sinai, e a jornada significativa pelo deserto –tudo recebem uma resposta leal nos cânticos do santuário de Israel, como pode ser visto em Salmos 8; 19; 78; 95; 104-106; 148. Deste modo a revelação de Deus por meio de Moisés foi gravada na memória de Israel por via de sua repetição em cântico, um dos meios mais efetivos para impressionar o coração com a verdade espiritual. A salmódia de Israel mostra que a religião hebraica está baseado nos cinco livros de Moisés, o Pentateuco. Porém, os salmos não só comemoram os atos redentivos de Deus do passado, mas também explicam o significado da contínua direção de Deus de Seu povo.

O significado mais vital da aliança de Deus com Israel se concentrou nas promessas messiânicas feitas originalmente aos patriarcas (Gên. 12:3; 49:10-12) para a salvação do mundo. O salmistas estavam glorificando não a Israel ou Sião ou Davi mas o Deus de Israel, porque Ele tinha escolhido Sião como o centro terrestre para o Seu reino universal ao qual todos o povos estariam sujeitos. Todos são chamados para O servir, como é notavelmente expresso nos Salmos 2 e 87. A esperança messiânica não é restringida à salvação de Israel. O Dr. A. Cohen, o comentarista judeu no Livro de Salmos, escreve:
A vindicação da nação não é senão um prelúdio para um desígnio mais amplo. Toda uma série de salmos anuncia o advento de Deus como o Juiz do mundo, cuja ordem de justiça virá a ser a causa de alegria. A aspiração final é que toda a humanidade reconhecerá o Reinado Divino; e o supremo, como também a chamada final é, Todo o ser que respira louve o Senhor. [3]

O propósito dos salmos pode ser considerado como ensinar a todos os homens como adorar Deus em Espírito e verdade, como fazer orações eficazes, em que espírito trazer sacrifícios ao Templo, como interpretar o mundo natural ao nosso redor, e o significado das leis de Israel e história ativa. Tudo isso não é evidente por si mesmo; requer uma interpretação inspirada.
Pius Drijvers diz:

Toda a vida de Israel, o desenvolvimento gradual da revelação, a delícia de saber-se como a nação escolhida de Deus, as aflições da perseguição, o desespero que é o resultado do pecado e ingratidão do homem – tudo isso é francamente experimentado e francamente expresso em cântico nos salmos. Em resumo, o todo do AT é refletido nos salmos. Não há nenhuma única experiência da alma de Israel que não seja expressa lá. Os salmos são a expressão mais plena da revelação de Deus no AT. [4]

Muitos salmos são compostos por Davi, o "doce salmista de Israel" (2 Sam. 23:1), que não só teve um coração poético e o dom de tocar lira (1 Sam. 16:18), mas também o espírito de profecia (2 Sam. 23:2-3; cf. Atos 2:30, "sendo um profeta", em relação ao Sal. 16). Provavelmente ele compôs vários salmos quando jovem enquanto ainda era pastor nas colinas solitárias da Judéia. Acompanhado de sua lira, Davi deve ter derramado sua alma sensível nas letras de adoração e louvor enquanto contemplava as obras de Deus na natureza e na história de Israel. Mais tarde, quando ele foi acusado falsamente e perseguido, seu coração solitário clamou ao seu Pastor divino por ajuda, garantia de vindicação divina, e reavivamento de alma. O propósito universal dos salmos de Davi nas orações de todos os santos futuros é bem expresso por E. G. White:

A comunhão com a natureza e com Deus, o cuidado de seus rebanhos, os perigos e os livramentos, os pesares e as alegrias, coisas que eram próprias à sua humilde condição, não somente deviam modelar o caráter de Davi, e influenciar na sua vida futura, mas também deveriam, mediante os salmos do suave cantor de Israel, e em todas as eras vindouras, acender o amor e a fé nos corações do povo de Deus, levando-os mais perto do coração sempre amante dAquele em quem vivem todas as Suas criaturas. [5]

Os salmos de Davi não só representaram sua pessoal projeção para com Deus. Despertando emoções semelhantes nos corações de todo o Israel, os cânticos sagrados de Davi estavam na providência de Deus aceita na liturgia oficial da adoração de Israel no Templo de Jerusalém. Então todo o Israel começou a cantar os cânticos e pedir as orações compostos por Davi. Quem pode contar a influência de longo alcance dessas inspiradas liturgias de cânticos sagrados que louvaram o amor fiel e a misericórdia do Deus de Israel? Eles despertaram nova coragem e lealdade para com o SENHOR (Yahweh) no coração do povo de Deus, livrando-os da idolatria e superstição. Os que ouviram e cantaram os salmos de Israel beberam de uma fonte de águas vivas brotando da presença de Deus, reavivando a alma.

O valor religioso incalculável do Saltério é basicamente de uma dupla natureza: os salmos fornecem tanto um registro autêntico dos sentimentos religiosos e insights dos santos de Israel quanto um verdadeiro padrão ou norma das emoções e pensamentos sobre Deus e o homem para a adoração de Deus por todos os homens.

O Chamado de Israel: Louvar o Senhor

Os salmos refletem a compreensão de Israel da obra de Deus na criação e redenção, de Sua providência e propósito para com o mundo e sua história. Através do livro de salmos Deus despertou Israel a buscar um conhecimento mais profundo dEle e deste modo também de si mesmos.

Os salmos de Davi passam por uma série completa de experiências, desde as profundezas da culpabilidade consciente e condenação própria, até a fé mais sublime e mais exaltada comunhão com Deus. O registro de sua vida declara que o pecado apenas pode trazer ignomínia e desgraças, mas que o amor e a misericórdia de Deus podem alcançar as maiores profundidades, que a fé erguerá a alma arrependida para que participe da adoção de filhos de Deus. De todas as declarações que se contêm em Sua Palavra, é isto um dos mais fortes testemunhos da fidelidade, da justiça e da misericórdia de Deus em Seu concerto. [6]

Os salmos refletem a sensação de Israel, não só da santidade de Deus, mas também – por meio de contraste – do egocentrismo inato ou pecaminosidade, que não têm igual na literatura de outras nações. Acima de tudo, eles testemunham do caráter surpreendente de Yahweh como o Criador e Sustentador do mundo, o Redentor de Israel, e o Juiz de todas as nações. Os salmos de Israel inflamaram fé, esperança, e amor no coração do povo de Deus em todos os tempos e os pôs em liberdade da escravidão dos deuses das idades, de materialismo e espiritualismo igualmente. Há uma experiência religiosa mais satisfatória, uma realização mais profunda da expansão da alma por Deus, que a que Asafe teve?

A quem tenho nos céus senão a ti?
E na terra, nada mais desejo além de estar junto a ti.
O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar,
mas Deus é a força do meu coração
e a minha herança para sempre.
Sal. 73:25-26, NVI)

Tais testemunhos de louvor exaltam o santo Deus de Israel. Davi diz poeticamente que Deus é “entronizado nos louvores de Israel" (Sal. 22:3, RSV). Os crentes hebreus consideraram a exaltação do seu Deus da aliança a própria essência de vida, até uma questão de vida ou de morte.

Os mortos não louvam o Senhor,
tampouco nenhum dos que descem ao silêncio.
Mas nós bendiremos o Senhor,
desde agora e para sempre! Aleluia!
Sal. 115:17, 18, NVI)

Se eu morrer, se eu descer à cova,
que vantagem haverá?
Acaso o pó te louvará?
Proclamará a tua fidelidade?
Que lucro está lá em minha destruição,
Sal. 30:9, NVI)

Quem morreu não se lembra de ti.
Entre os mortos, quem te louvará?
Sal. 6:5, NVI)

Louvando o Senhor por Sua misericórdia e bondade era a própria essência de vida para Israel. Quando o Rei Ezequias caiu seriamente doente – "a ponto de morte" – ele suplicou a Deus por restauração de vida:

Pois a sepultura não pode louvar-te,
a morte não pode cantar o teu louvor.
Aqueles que descem à cova
não podem esperar pela tua fidelidade.
Os vivos, somente os vivos, te louvam.
(Isa 38:18, 19, NVI)

Isto expressa a profunda convicção da fé de Israel de que onde há vida real, há louvor de Yahweh. Onde há morte, não há nenhum louvor! A possibilidade de uma vida que não louva Deus não está sendo considerada. Deus criou Israel para o único propósito "que eles proclamem meu louvor" (Isa 43:21). Não pode haver tal coisa como verdadeira vida sem o louvar o Criador. Sem o exaltar a Deus, o homem fica desorientado e é privado da alegria no Senhor:

Por que você está assim tão triste, ó minha alma?
Por que está assim tão perturbada dentro de mim?
Ponha a sua esperança em Deus!
Pois ainda o louvarei;
ele é o meu Salvador e o meu Deus.
(Sal. 42:11, NVI)

A versão hebraica do axioma de Shakespeare, “Ser ou não ser, eis a questão!" é, “Louvá-Lo ou não louvá-Lo, a questão!" A Bíblia Hebraica chama o Livro de Salmos "Louvores” (Tehillim), sugerindo a principal crença da religião hebréia. O salmistas consideraram os seus salmos abertos para todos os gentios para uni-los em sua adoração de Deus.
Com meus lábios louvarei o Senhor.
Que todo ser vivo bendiga o seu santo nome para todo o sempre!
(Sal. 145:21, NVI)

Há sabedoria na deliberação:
Em vez de lamentar, chorar, e desesperar, quando dificuldades nos  sobrevêm como uma inundação e ameaçam nos subjugar, se nós não apenas orássemos por ajuda de Deus, mas O louvássemos por tantas bênçãos dadas, louvá-Lo que Ele pode nos ajudar, nosso curso estaria agradando mais a Ele, e nós veríamos mais de Sua salvação. [7]

Os Salmos e Cristo

Cristo reconheceu que Sua missão, tanto em Seus sofrimentos e triunfos vindouros, foi prefigurada nas experiências do salmistas. Claro, Cristo sofreu uma realidade mais profunda de angústia de alma que Davi jamais passou. Davi, como o rei de Sião, serviu como um tipo do Messias, o seu Senhor. Parece portanto inadequado só falar de alguns salmos selecionados como salmos messiânicos. Todos os salmos possuem um valor de excessivo misterioso que pode ser discernido à luz da vida de Cristo e do Novo Testamento.

Os salmos reais não só têm em vista as virtudes do rei de Israel em Jerusalém, mas também vêem as glórias do Rei divino de Israel na perspectiva deles. O rei terrestre desaparece, então, atrás do maior Rei vindouro, o Messias de Israel. Os salmos reais exaltam o Cristo e se tornam profecias veladas do grande Filho de Deus e do Seu reino vindouro. À luz do Novo Testamento torna-se gradualmente mais claro que Jesus Cristo não é meramente Aquele sobre quem os salmos falam, mas também Aquele que inspirou os salmos.

Cristo explicou aos judeus que todas as Escrituras testemunharam dEle (João 5:39). Depois de Sua ressurreição dos mortos, Cristo apareceu aos Seus discípulos e os ajudou a entender is filamentos messiânicas na Bíblia Hebraica. Ele os reprovou até mesmo por serem demasiado lentos para discernir a ordem messiânica de dois aparecimentos de acordo com as suas Santas Escrituras.

Ele lhes disse: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os profetas falaram! Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?” E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras. (Lucas 24:25-27, NVI).

E disse-lhes: “Foi isso que eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então lhes abriu o entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras. (Lucas 24:44-45, NVI).

Jesus Cristo não foi tomado de surpresa quando um dos apóstolos de sua confiança decidiu traí-Lo com um beijo para as autoridades sanguinárias. Quando Judas levantou-se da última ceia para cumprir sua conspiração secreta, Jesus viu Judas cumprir um papel que fora predito na traição de Davi por seu conselheiro de maior confiança:
“Não estou me referindo a todos vocês; conheço os que escolhi. Mas isto acontece para que se cumpra a Escritura: ‘Aquele que partilhava do meu pão voltou-se contra mim’.
Depois de dizer isso, Jesus perturbou-se em espírito e declarou: “Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá”. (João 13:18, 21, NVI).

Jesus citou Salmo 41 no qual Davi se queixou ao Senhor:
Até o meu melhor amigo,  em quem eu confiava
e que partilhava do meu pão,
voltou-se contra mim.
(Sal. 41:9, NVI)

Foi a visão notável de Cristo ver na experiência histórica da traição de Davi (veja 2 Sam 15:12, 31) um tipo da experiência do Messias. Jesus entendeu Sua missão, então, ser um sofrimento mais profundo e traição pior do que a que o Rei Davi tinha passado. Cristo reconheceu Sua missão ser também rejeitada com ódio infundado no Salmo 69. Aqui Davi se queixou a Deus, "Os que sem razão me odeiam são mais do que os fios de cabelo da minha cabeça; muitos são os que me prejudicam sem motivo, muitos, os que procuram destruir-me." (Sal. 69:4, NVI). A experiência de Jesus de ser odiado e perseguido pelos líderes judeus é interpretado por Ele como uma extensão do ódio anterior contra Davi. Depois que os Seus milagres messiânicos fossem rejeitados, Jesus apelou para o Salmo 69:4:

“Mas agora eles as viram [as obras de Jesus] e odiaram a mim e a meu Pai. Mas isto aconteceu para se cumprir o que está escrito na Lei deles: ‘Odiaram-me sem razão’.” (João 15:24, 25, NVI).

Estes salmos do sofrimento de Davi não pareciam ter qualquer significado messiânico, mas Jesus discerniu neles um significado tipológico, levantando a necessidade de uma “cumprimento" mais profundo. Cristo também olhou além de Sua missão humilde, reivindicando a exaltação subseqüente da adoração universal que os salmos oferecem ao sofredor e perseguido Rei (veja Sal. 2:2, 7-9, 12; 22:1, 2, 22-28; 89:38-51, 26-29). Os salmos retratam o padrão do Rei de ir através do sofrimento à gloria. Cristo foi o primeiro que compreendeu os salmos reais de Israel em sua aplicação messiânica para Ele.

Os Salmos e o Cristão

Um estudioso declara com referência ao Livro de Salmos:
O livro possivelmente é mais grandemente estimado entre os cristãos do que pelos judeus. Se aos cristãos fosse permitido reter apenas um livro no Antigo Testamento, eles quase certamente escolheriam os Salmos.[8]

Nos salmos Deus ensina que Seus filhos alcançarão sua última meta de entrar no Reino de Deus só por via de humilhação e miséria. Contudo, exatamente nos vales da sombra de morte, nas profundezas de angústia e desamparo, eles experimentam a misericórdia pessoal de Deus mais plenamente. Sofrer se torna para eles algo mais que ira divina; torna-se uma oportunidade de conhecer o milagre de companheirismo íntimo com Deus (veja Sal. 23). Esta comunhão da alma com o Senhor era tão real a Davi que ele escreveu: "Porque teu amor é melhor do que a vida, meus lábios te glorificarão” (Sal. 63:3). Quase todo salmo assegura ao adorador que Deus se lembra dos oprimidos, que Ele ouve os seus gritos por ajuda, que Ele responde as orações, que Ele libertará o suplicante, que Ele vindicará o crente contra falsos acusadores e será um refúgio a todos os nEle confiam. Além disso, além de libertação do sofrimento vem a chamada a exaltar as obras do divino Libertador e glorificar o Seu nome, testemunhando de Sua graça indizível. Isto é visto como o significado mais profundo de sofrimento pela a causa de Deus (Sal. 22; 118). O Deus de Israel é o Deus da salvação presente e futura.

A maioria dos salmos foi composta para a adoração comunal de Israel de Yahweh ou adaptado para a liturgia dos festivais anuais para celebrar os atos de salvação de Yahweh na história do Seu povo da aliança.

Quando certa vez os discípulos ouviram por acaso Jesus orando intimamente ao Pai, eles ficaram tão profundamente impressionados que eles Lhe pediram: "Senhor, ensina-nos a orar!" (Lucas 11:1). Embora a oração seja uma função natural de nossa alma, não sabemos por natureza como devemos orar. Os desejos e as esperanças de nosso coração não são orações eficazes! Não sabemos como alcançar o coração de Deus, ter certeza de que Deus nos ouve. Nós temos que aprender a orar. Uma criança aprende a falar porque seu pai e sua mãe falam com ele. Ele aprende a fala dos seus pais. Assim nós aprendemos a falar com Deus porque Deus falou-nos em Sua Palavra. Por meio das orações que Deus inspirou nos corações de Davi, Asafe, Moisés, e de Cristo na Bíblia, nós podemos ter acesso a Deus. Como Bonhoeffer diz:

Nós devemos falar a Deus e ele quer nos ouvir, não na falsa e confusa fala de nosso coração, mas na fala clara e pura que Deus falou a nós em Jesus Cristo. [9]

O livro de Salmos é o livro de orações da Bíblia. Aqui nós somos ensinados, não o que nós queremos orar, mas o que Deus quer que nós oremos em nome de Jesus Cristo, Seu Filho amado.
No Novo Testamento as doxologias de Maria – o " Magnificat" – e de Zacarias –o "Benedictus" – em Lucas 1:46-55, 67-69 mostram que os hinos de Israel foram aplicados para agradecer a Deus por Seu presente cumprimento das promessas messiânicas. Os salmos também formavam uma parte essencial de adoração na igreja apostólica:
Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração. (Colossenses 3:16, NVI).

O entoar cânticos sagrados é "um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais. Quantas vezes, ao coração oprimido duramente e pronto a desesperar, vêm à memória algumas das palavras de Deus – as de um estribilho, há muito esquecido, de um hino da infância – e as tentações perdem o seu poder, a vida assume nova significação e novo propósito, e o ânimo e a alegria se comunicam a outras pessoas! ... Como parte do culto, o canto é um ato de adoração tanto como a oração.” [10]

No último livro da Bíblia é dado um vislumbre da glória celestial ao redor do trono de Deus. Anjos divinos estão cantando cânticos de adoração e ação de graças (Apoc. 4-5). A nota tônica do céu é o louvor a Deus pelo que Ele é e fez por toda a Sua criação.

Referências

1 Luther's Works (St. Louis: Concordia Publishing House), vol. 35, pp. 255, 256.
2 See J. H. Patton, Canaanite Parallels in the Book of Psalms (Baltimore: J. Hopkins Press, 1944); J. B. Pritchard, ed., Ancient Near Eastern Texts, 3d ed., pp. 573-591.
3 The Psalms, 11th ed. (London: Soncino Press, 1974), p. xiii.
4 The Psalms: Their Structure and Meaning (London: Herder, 1965), pp. 4, 5 (italics supplied).
5 Patriarcas e Profetas (Tatuí, S. P.: Casa Publicadora Brasileira), p. 642.
6 Ibid., pág. 754.
7 Life Sketches of Ellen G. White (Mountain View, Calif.: Pacific Press, 1915), p. 258.
8 John R. Sampey, in The International Standard Bible Encyclopedia (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans), vol. 4 (1915), p. 2487.
9 Psalms: The Prayerbook of the Bible (Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1970), p. 11 .
10 Ellen G. White, Educação (Tatuí, S. P.: Casa Publicadora Brasileira), pág. 168.

Por Hans K. LaRondelle

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