quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um breve exame das parábolas de Jesus


Jesus demonstrou em seus ensinos ser o mestre por excelência. Seu conhecimento e sabedoria causaram admiração aos leigos e educadores de seus dias. A metodologia de ensino era inigualável e as mais importantes universidades foram fundadas por sua causa.

Alguns de Seus ensinos mais sublimes foram expressos em linguagem figurativa como as parábolas. “Ele não poderia haver usado método de ensino mais eficaz”.[1] A reação dos ouvintes era: “Jamais alguém falou como este Homem” (João 7:46).

Um exame minucioso destes ensinos é significativo quando se evidencia que um terço do ensino de Jesus nos evangelhos sinóticos se apresentam em forma de parábolas.[2] O evangelista Marcos comprovou esse fato quando escreveu: “Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola”. (Mc 4:33-34).

O que é uma Parábola?

O conceito popular de parábola é um tipo de figura de linguagem em que se fazem comparações. No velho testamento, o termo utilizado em Hebraico é marshal, que também é usado para designar provérbio ou enigma.[3] No Novo testamento o termo é parabole e “vem do Grego para (“ao lado” ou “junto a”) e ballein (“lançar”). Assim, a história é lançada com a verdade para ilustrá-la”.[4] “No âmago do significado de parabole e marshal está a ideia de uma comparação entre duas coisas dessemelhantes. A realidade de nosso mundo é posta em contato com um mundo narrativo da parábola para alguma comparação que produza uma nova compreensão”.[5]

As parábolas de Cristo estão correlacionadas com outras figuras de linguagem. As “similitudes” geralmente falam de costumes no tempo presente fazendo uma comparação entre dois elementos e usam geralmente as expressões como, assim como, tal qual, tal como. Pedro usou uma símile quando escreveu: “...toda humanidade é como a relva...” (1 Ped 1:24).  Já as parábolas falam de um determinado momento do passado (e.g., O semeador saiu a semear. Mat 13:3). Também são perceptíveis as alegorias. “É uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal”.[6]Enquanto que uma parábola consiste num acontecimento factível, a alegoria pode ser tanto factível como fictício. “Olhando para todas as parábolas que Jesus contou e as situações variadas em que Ele as proferiu, é razoável afirmar que Ele usou uma variedade de parábolas, algumas das quais eram meros símiles que não precisavam muito de alguma explicação (todos compreendiam imediatamente o seu propósito), e outras que poderiam ser melhor descritas como metáforas ou como de natureza alegórica e precisando de explicação”.[7]

Por que Jesus falava por parábolas?

Assim como a Divindade foi revelada através da sua humanidade, ao usar os elementos da natureza em suas parábolas, Jesus fornecia um veículo poderoso para compreensão das verdades espirituais em seus ouvintes. “Tão ampla era a visão que Cristo tinha da verdade, e tão extensos os Seus ensinamentos, que cada aspecto da natureza foi utilizado para ilustrar verdades.[8] Ensinava com autoridade já que toda a criação era obra de suas mãos. “O desconhecido era ilustrado pelo conhecido; verdades divinas, com as quais o povo estava familiarizado”.[9] Mais tarde quando os ouvintes se deparavam com os objetos ilustrados vinham-lhes a mente os ensinos de Jesus.

Não eram simples ilustrações como as que estamos acostumados a ouvir num sermão. A parábola envolvia as pessoas em um nível muito aprofundado de reflexão. Eram tão penetrantes que produziam efeitos diversos. Enquanto uns entregavam o coração instantaneamente a Cristo, outros o procuravam matá-lo.

“Ele lhes disse: A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão fora tudo é dito por parábolas, a fim de que, ainda que vejam, não percebam; ainda que ouçam, não entendam; de outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados” (Marcos 4:11 e 12).

Percebe-se que o propósito das parábolas de Jesus era multifacetado. Usava para revelar e ao mesmo tempo para esconder.  Como “a multidão não julgava as parábolas; eram as parábolas que julgavam as pessoas”, [10] ao ouvinte interessado e sincero era revelado aquilo que anteriormente estava oculto, o mistério do Reino de Deus. Este grupo sentia o desejo de ganhar a salvação enquanto que o ouvinte desinteressado ouvia a parábola, mas não entendia por que o coração estava endurecido e por achar que sabia tudo. Para estes, restavam-lhes apenas o juízo.

Ellen White no livro Parábolas de Jesus, afirma que nem todos estavam preparados para aceitar e compreender suas parábolas. Assim, evitava com que a multidão incrédula lhe fizesse alguma acusação e rompesse com o seu ministério de maneira prematura. [11]

Regras para interpretação de Parábolas

No livro Compreendendo as Escrituras[12] é apresentando quatro regras básicas de interpretação:

1.  Evite alegorização - Inicialmente é importante diferenciar entre alegoria e alegorização. Como já foi citado, a alegoria usa uma metáfora ampliada para referir verdades fora do significado literal da narrativa. Já a alegorização é o processo de usar algum texto que não é alegórico por natureza e transformá-los em alegoria a fim de promover novos significados que originalmente não era a intenção do autor. O teólogo Agostinho usou a alegorização para dizer que na parábola do Bom Samaritano o homem que descia de Jericó era igual a Adão. [13] Ele não foi o único a usar este princípio interpretativo. Durante séculos este foi o método mais usado, mas o seu rompimento iniciou no movimento da reforma e terminou com o erudito alemão A. Jülicher no século passado.[14]

A alegorização facilita enxergar qualquer coisa em quase todas as parábolas. Acaba impondo um significado que o autor jamais pretendia.

2. Reúna dados históricos, culturais, gramaticais e léxicos - O mundo em que vivemos é muito diferente do mundo dos aldeões da palestina. Essa distância pode ser amenizada usando as descobertas arqueológicas, bem como a leitura de bons dicionários e comentários bíblicos e livros que retratam os costumes desta época.

3. Analise a narrativa da parábola - “As parábolas têm personagens, ações, cenários e suportes, e relações de tempo; elas têm um narrador e um leitor subentendido, um ponto de vista e um enredo. A Análise destes ajuda o leitor a ver, de forma objetiva, a maneira por que é criado o impacto emocional da narrativa e ajuda a delinear os temas e ênfases da narrativa.”[15]

Determine o auditório. Para quem Jesus está falando? Para escribas, Fariseus, às multidões, ou aos discípulos? A compreensão destas perguntas ajudará o leitor a determinar se a aplicação da parábola é para os dentro ou fora da igreja; para grupos ou pessoas. Também observe a reação dos ouvintes de Jesus, pois servirá de excelente pista para o seu significado.

4. Use o Espírito de Profecia - Depois da leitura Bíblica, esta deveria ser a primeira fonte de pesquisa. O livro Parábolas de Jesus é rico em detalhes e fornece uma interpretação correta das parábolas por ser um livro inspirado. Desta forma, grande soma de tempo em busca de respostas com outras literaturas pode ser evitada.

5. Aplique a parábola à situação de hoje - Identifique o princípio teológico ensinado por Jesus na parábola e aplique à sua vida pessoal. Lembre-se que a aplicação provém da parábola em vez de ser imposta a ela.

[1] Ellen White, Parábolas de Jesus, p. 21.
[2] Grant R. Osborne, A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2009), p.372.
[3] Ibid.
[4] Roy B. Zuck, A Interpretação Bíblica: meios de descobrir a verdade bíblica (São Paulo: Vida Nova, 1994), p. 225.
[5] George W. Reid, Compreendendo as Escrituras: uma abordagem adventista (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2007), p.232.
[6] Ver HIPERLINK: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alegoria
[7] George W. Reid, Op. Cit., 225.
[8] Ellen White, Parábolas de Jesus, p. 20.
[9] Ibid., p. 17.
[10] Warren W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo: Novo  Testamento: Vol I (Santo André:SP: Geográfica Editora, 2006), p. 157.
[11] Ellen White, Op. Cit., 21.
[12]George W. Reid, Op. Cit., 235.
[13] Ibid.
[14] Kennet Bailey, As Parábolas de Lucas (São Paulo: Vida Nova, 1995), p.25.
[15] George W. Reid, Op. Cit., 236.


PR. FÁBIO DOS SANTOS
Formado em Processamentos de Dados e Teologia no UNASP. Atualmente trabalha como Pastor da Igreja Adventista de Barretos-SP na Associação Paulista Oeste. Webmaster e Editor dos Blogs Nisto Cremos  e COMIASD

2 comentários:

  1. Gostaria muito de adquirir um cd rádionovelas com as narrações das parábolas de Jesus

    ResponderExcluir
  2. Olá Francisco.
    Não temos esse material a disposição. Acredito que a Bíblia em Áudio da Sociedade Bíblica lhe ajude.
    Um abraço!

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...