quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Por que sou vegetariano

Autor: Pastor Paulo Cordeiro



Introdução

Tendo abandonado a alimentação cárnea em agosto de 1990 e tomado, com gosto, a decisão de continuar nessa linha uns seis meses depois, certamente que compreendem que, ao longo destes últimos 19 anos, tive oportunidades de sobra para reconhecer se tinha feito uma decisão errada ou não! Pois bem, posso-vos garantir que, até ao dia de hoje, nunca me arrependi de tal decisão, bem pelo contrário!


Contudo, como no meu caso, a decisão foi tomada unicamente por mim próprio, sem a pressão de qualquer pessoa, nunca me senti igualmente no dever de coagir seja quem for a seguir os “meus passos”! Também não me incomoda absolutamente nada estar a comer ao lado de pessoas que não seguem exatamente os princípios alimentares que um dia decidi seguir!

Durante este tempo, como é óbvio, não deixei igualmente de testar se a minha decisão tinha e tem um fundamento sólido ou não! Também me apercebi que, por vezes, são utilizados alguns argumentos pouco credíveis a favor do vegetarianismo! E temo que tais argumentos, longe de convencerem outros, ainda os afastem mais da convição de que o vegetarianismo é realmente uma opção saudável de vida!

Argumentos Bíblicos

Falemos do mais importante: quais são os argumentos bíblicos válidos e quais é que não são?

O pior e mesmo falso “argumento” que se pode utilizar “em favor” do vegetarianismo é dizer-se que é pecado comer carne(1)! Tal afirmação é, contudo, absolutamente correta quando se trata de animais imundos, mas já não é correta quando se trata de animais que são considerados na Bíblia como sendo “limpos”! Em Isaías 66:17(2) lemos que, “os que… comem carne de porco, coisas abomináveis e rato serão consumidos, diz o Senhor”. Se os que “comem carne de porco, coisas abomináveis e rato serão consumidos”, então é porque comer a carne de tais animais imundos é claramente um pecado!

Mas, como disse, o mesmo não se pode dizer relativamente à ingestão de carne de animais limpos! Por uma razão muito simples: é que foi o próprio Deus que permitiu que se comesse a carne de certos animais!(3)

Mais: Deus não só permitiu que se comesse carne, mas pediu mesmo aos Seus sacerdotes que oficiavam no antigo santuário israelita que comessem a carne de alguns sacrifícios aí oferecidos(4). Esse pedido foi extensível, em certas ocasiões, ao povo em geral(5). A passagem de Levítico 19:1-12 é mesmo muito significativa, pois nela Deus apela ao Seu povo para que seja santo, fazendo o seguinte: 1) respeitando os seus pais; 2) guardando os Sábados do Senhor; 3) fugindo da idolatria; 4) oferecendo sacrifícios ao Senhor; 5) comendo a carne desses sacrifícios; 6) não colhendo a totalidade do produto das suas terras; 7) não furtando, nem mentindo nem jurando falsamente; etc.

Algum tempo antes da sua trasladação, foi o próprio Deus que enviou corvos para que alimentassem o Seu profeta Elias: "e ordenei aos corvos que ali mesmo te sustentem" (I Reis 17:4). Que tipo de alimento levaram os corvos a Elias? "Os corvos lhe traziam pela manhã pão e carne, como também pão e carne ao anoitecer; e bebia da torrente." (I Reis 17:6).

Pergunto: será que Deus não poderia "ordenar" aos corvos que levassem outro tipo de alimento a Elias? Certamente que sim! Se comer carne fosse pecado, então Deus seria Ele próprio responsável por levar Elias a cometer "pecado"! Esta afirmação é completamente ridícula(6) e é ridícula porque a sua premissa inicial (comer carne é pecado) é falsa!

E existe ainda um pormenor interessante na experiência de Elias: este iria ser trasladado (ver II Reis 2:11)! Se é verdade que "Elias, que fora trasladado para o Céu sem ver a morte, representou os que estarão vivos na Terra na ocasião da segunda vinda de Cristo, e que serão "transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta", quando "isto que é mortal se revestir da imortalidade" e "isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade" (I Coríntios 15:51-53)"(7), pergunto: será que poderemos afirmar dogmaticamente que aqueles que hoje se preparam igualmente para serem trasladados não poderão comer carne?

Penso que vivemos numa época em que a carne não deveria ser utilizada pelo povo de Deus, como demonstrarei mais adiante, contudo estes exemplos bíblicos admoestam-me a ser deveras prudente sobre a necessidade de não fazer eventuais juízos de valor sobre aqueles que (ainda) comem carne!

Por último, podemos afirmar que comer carne de animais limpos não é pecado, porque, se fosse, então o próprio Cristo seria “pecador”!

Em Génesis 18, é-nos dito, logo no início do capítulo, que “apareceu o SENHOR a Abraão” (v. 1). No versículo 3 é-nos dito que Abraão viu “três homens de pé em frente dele”. “Um deles” (dos três) promete a Abraão o seguinte: “voltarei a ti, daqui a um ano; e Sara, tua mulher, dará à luz um filho” (v. 10).

A comparação dos textos de Génesis 18:16 e 22 com o texto de Génesis 19:1, indica-nos claramente que dois daqueles “homens” que Abraão tinha visto “em frente dele” eram “anjos” (Génesis 19:1), mas o terceiro, que ficou dialogando com Abraão (Génesis 18:17-33), não indo com “os dois anjos a Sodoma” (Génesis 19:1), era o próprio Jesus Cristo! Perante os “três homens” (antes da partida dos “dois anjos” para Sodoma) colocou Abraão uma refeição que Jesus e os dois anjos que O acompanhavam comeram: “Abraão, por sua vez, correu ao gado, tomou um novilho, tenro e bom, e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo. Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles; e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram.”

É difícil imaginar que Jesus (que não apareceu junto de Abraão “em semelhança de carne pecaminosa”(8), como viria a acontecer séculos mais tarde aquando da Sua encarnação), e os dois anjos que O acompanhavam, tivessem comido de tudo o que Abraão lhes colocou à frente, exceto o “novilho” (vitelo), visto que Jesus, também já numa natureza incorruptível e gloriosa, após a Sua ressurreição(9), comeu do peixe que os seus discípulos tinham pescado(10)! Se não comeu peixe(11), pelo menos deu a comer aos Seus discípulos, tal como tinha feito com a multidão por duas vezes(12), legitimando assim a ingestão de tal alimento!

Tudo o que acabei de referir é bem resumido numa declaração de Ellen White: “Eu aconselho cada candidato à guarda do Sábado a evitar comer carne, não porque seja visto como um pecado comer carne, mas porque não é saudável. A criação animal está gemendo.”(13) Reparem nas palavras “aconselho” e “evitar”! Dificilmente se pode inferir que Ellen White estava a ser dogmática neste ponto! Pelo contrário, ela estava, como sempre esteve, em plena sintonia com a mensagem bíblica!

Dito isto, será que é de todo descabido ser-se vegetariano? De modo algum!

Qual foi a dieta dada originalmente ao ser humano? Alguns argumentam que a dieta original dada por Deus só foi válida antes da queda, ao passo que, depois da queda, a alimentação cárnea passou a fazer sentido para uma raça caída em pecado! Isto seria verdade, não fosse o fato de que Deus só permitiu que se comesse a carne de certos animais(14), mais de dezasseis séculos após a queda(15)! E a maior prova de que o alimento cárneo “não é saudável”, como diz Ellen White, é que após a sua introdução na dieta humana, a idade média do ser humano desceu para menos de 10% da média de idades dos patriarcas que não comiam carne(16)!

Não está Ellen White, uma vez mais, em plena sintonia com o que a Bíblia diz? Penso que é com este conceito fundamental em mente que devemos compreender todo o restante ensino de Ellen White no que concerne à alimentação cárnea: não é recomendável, não por ser pecado, mas por não ser saudável, nem para o corpo nem para a mente!

Este fato leva-me igualmente a afirmar que é fraco o argumento que diz que atualmente não se deve comer carne por não ser saudável, devido aos níveis de poluição hoje existentes. Claro que estes riscos existem e serão uma realidade cada vez mais notória, contudo, comer carne não é saudável hoje, como nunca o foi no passado! Hoje há riscos acrescidos, é verdade, mas isso não invalida, de modo algum, a premissa básica de que não é saudável comer a carne de animais! Houve uma diminuição brusca nas idades dos descendentes de Sem por eles comerem a carne de animais poluídos pelo meio ambiente da sua época? Certamente que não!

Mas se o comer carne em si, como vimos, não é pecado, já o mesmo não se pode dizer da gula ou glutonaria!

Jesus advertiu muito seriamente, especialmente a última geração de crentes, a precaverem-se totalmente deste “laço”! Se não quisermos que “aquele dia” venha sobre nós “repentinamente, como um laço”, então deveremos evitar cair no laço “da orgia [e] da embriaguez”(17). O apóstolo Paulo afirma perentoriamente que aqueles que se entregam aos chamados prazeres da mesa, caminham para a sua perdição(18)!

Talvez tenha sido mais a gula do que o comer carne em si que foi severamente punido por Deus na experiência do povo de Israel no deserto(19), visto que eles não apenas desejaram comer carne (“Quem nos dará carne a comer?” – Levítico 11:4), mas desejaram igualmente outro tipo de alimentos (“Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos.” – Levítico 11:5)!

Pergunto: haveria algum problema em comer pepinos, melões, cebolas e alhos, se não fosse o desejo irracional de satisfazer um apetite descontrolado, motivado pela glutonaria?

Talvez este seja um bom teste que deveria fazer-se a si próprio: qual é a razão por que ainda come carne? Será por estrita necessidade de alimento, ou por algum desejo, mesmo inconsciente, de satisfação de um apetite ainda não controlado?

A Igreja Adventista do 7º Dia e o Vegetarianismo

Oficialmente, a nossa Igreja nunca fez do vegetarianismo uma prova de fé e/ou de comunhão. Tal posição, pelo que acima apresentei, não poderia estar mais correta! Além disso, é baseada numa recomendação explícita de Ellen White: “Não nos compete fazer do uso da alimentação cárnea uma prova de comunhão”(20).

Bíblia e Simetria

Um argumento histórico-profético que considero pessoalmente de grande visão e força é o que nos obriga a reconhecer que a própria Bíblia, assim como a História nela revelada, apresentam uma incrível simetria! (Ver quadro 1).

Com isto em mente, vejam se o seguinte modelo que vos proponho não faz sentido (ver quadro 2). Se acham que faz sentido, então por ele podemos reconhecer que estamos a viver uma época da História da Terra que corresponde, “simetricamente”, ao período que existiu entre a Queda e o Dilúvio, período esse em que Deus ainda não tinha dado permissão para se comer carne. Não quero ser dogmático quanto a este modelo, contudo ele parece-me ser de uma grande coerência interna e bíblica.

Conclusão

Resta-me terminar dizendo que cada um é responsável diante de Deus neste aspeto particular da sua vida (a alimentação), como em todos os outros aspectos! Peçam a Deus que vos ilumine a mente e que vos dê a força necessária, para fazerdes eventuais alterações nos vossos hábitos, caso sintais essa necessidade! Mas que qualquer decisão tomada possa ter um firme “Assim diz o Senhor” na sua base, sob pena de vir, mais cedo ou mais tarde, a ruir completamente!

(1) Quando utilizo o termo “carne”, não deixo por isso de incluir o peixe! Dizer-se que se come “a carne de animais” aplica-se, com a mesma propriedade, quer aos quadrúpedes e aves, quer aos peixes!
(2) Todas as referências bíblicas são retiradas da versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Atualizada no Brasil, 2ª edição, 1993.
(3) Ver: Génesis 9:3-4. Quando se diz, no versículo 3, que “tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento”, subentende já a distinção entre “animais limpos” e “animais imundos” que Deus tinha deixado bem claro anteriormente (ver Génesis 7:2, 8; 8:20).
(4) Ver: Levítico 6:24-26, 29; 7:1-6, 15-17 e Números 18:8-19
(5) Ver: Levítico 19:1-12
(6) Ver: Tiago 1:13
(7) Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, capítulo 46: A Transfiguração, pág. 357
(8) Romanos 8:3
(9) Ver: I Coríntios 15:42-44
(10) Ver: João 21:9-13
(11) O que é muito pouco provável, segundo a declaração de Lucas 24:42-43.
(12) Ver: Marcos 6:41; 8:6-7
(13) Manuscript 15, 1889; 5MR (Manuscript Releases), 400.3; 16MR, 173.3 (meu sublinhado)
(14) Ver: Génesis 9:3-4
(15) Seguindo a cronologia bíblica, o dilúvio ocorreu no ano 1656 após a criação! Como não sabemos o tempo que mediou entre a criação e a queda, falo no tempo aproximado de dezasseis séculos entre a queda e o dilúvio!
(16) Comparar as idades dos descendentes de Sete, em Génesis 5, com as idades dos descendentes de Sem, em Génesis 11:10-32, e com a idade média do ser humano no tempo de Moisés, autor do Salmo 90 (ver Salmo 90:10). No tempo de David (cerca de 500 anos após o tempo de Moisés), era já ser-se “mui velho” aos 80 anos de idade (ver II Samuel 19:32, 35).
(17) Ver: Lucas 21:34-36
(18) Ver: Filipenses 3:18-19
(19) Ver: Números 11:4-34
(20) Ellen White, Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 159; Testemunhos Seletos, vol. 3, pág. 359

FILIPE REIS
Nascido e educado na Igreja Adventista do Sétimo Dia e batizado em março de 1989, aos 13 anos. Vive em Vila Nova de Gaia, Portugal. Serviu vários anos como Diretor da Escola Sabatina e Ancião na Igreja de Pedroso, Portugal, entre outras funções. Em breve iniciará a formação em Teologia no Colégio Adventista de Sagunto (Espanha), para servir como Pastor. Editor do Blog O Tempo Final

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