quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Quebrando O Silêncio – Eu Quero Paz

Autora: Dra. Jucineide Moreira Santos Jacinto
Diretora do Ministério da Mulher do distrito da Igreja do Colégio Adventista de São Luís (CASL)

1 – Considerações iniciais – Quebrando o Silêncio é um Projeto concebido e implementado pela IASD na América do Sul há cerca de oito anos. Ao longo do mês de agosto a IASD traz a lume a questão da violência e do abuso no lar e o 4º sábado do mês é o ápice da campanha. Nesse dia, dá-se ênfase ao assunto promovendo uma discussão ampla para a qual são convidados representantes de vários segmentos da sociedade de modo a chamar a atenção das autoridades para o problema. O Ministério da Mulher é responsável por essa ênfase.
É um tema delicado, que incomoda, e sobre o qual não gostamos de falar, mas que precisa ser tratado.

2. Objetivo – O Projeto Quebrando o Silêncio tem o objetivo de desmascarar a violência em todas as suas formas de manifestação, instruindo, orientando, enfim, dando a saída para muitas pessoas que, caladas em função de ameaças, convivem com o medo, a vergonha e muitas vezes com sentimento de culpa, em razão do que são obrigadas a fazer ou consentir que se faça com seu corpo ou o corpo de outrem. Pessoas que são violentadas, não só fisicamente, mas pelo descaso ou abandono daquele(s) que deveria(m) cuidar delas; violentadas pelo constrangimento moral, pelo cerceamento do direito de ir e vir e por tantas outras formas manifestas de abuso.

O projeto é um incentivo à denúncia. Sim, é, pois só através dela é possível, na maioria dos casos, coibir a prática do abuso. O abusador age de maneira solerte, apoiado na certeza do silêncio da vítima.

2.1 Na realização do projeto a comunidade ADVENTISTA deve se movimentar engajada, irmanada na defesa e promoção da PAZ com base no AMOR apresentado na Bíblia, de modo que todo esse esforço redunde no desenvolvimento de uma vida melhor, mais equilibrada e feliz nos lares, não só da própria Igreja, mas também da sociedade em geral. Como cristãos temos a missão de pregar ao mundo o evangelho de Amor do Pai manifesto em Cristo Jesus e, sem medo de errar, eu afirmo que esta é uma das oportunidades para a Igreja mostrar esse AMOR pelos que sofrem. O Projeto cresceu muito, tem recebido adesões de peso, principalmente na mídia, numa demonstração de que o objetivo é digno e justo.

I - A Introdução do Assunto. A violência doméstica não é uma aberração do mundo moderno. Não. Há algumas narrativas na Bíblia que retratam essa prática envolvendo os filhos de Deus. Hoje nos deteremos na análise de uma dessas narrativas.

A - Antes, é bom ressaltar que narrativas bíblicas como essa, além de informar o leitor sobre como vivia ou qual a conduta do povo de Deus nos tempos antigos, elas trazem, nem sempre de maneira explícita para quem lê, o ponto de vista, a perspectiva divina. Mas, de alguma maneira, a intenção é a de comunicar essa perspectiva. A história que analisaremos não é nada agradável, mas está registrada e retrata todo o horror da violência contra uma mulher... Abramos nossas Bíblias em II Samuel 13: (Orar antes de ler)

II – O Texto bíblico: II Sam 13 : 1 a 10

A - Tamar era irmã de Absalão e meia-irmã de Amnon. Era moça casta e já na idade para casar. Sobre ela se mantinha rígida vigilância. Jonadabe, o primo malicioso de Amnom, lhe sugere uma maneira de obter permissão de seu pai, o rei Davi, para estar a sós com Tamar que não levantará suspeita quanto as suas reais intenções.
Era comum, e ainda é, fazer-se uma refeição especial para uma pessoa doente. Em um cômodo próximo ao quarto onde estava o doente preparava-se o alimento de modo que ele assistisse esse preparo de sua cama. Ao final, o prato era levado ao doente por um servo. Mas Amnom dispensou todos e exigiu que a própria Tamar o alimentasse. Estranha ordem, mas foi interpretada como um capricho de um príncipe mimado. Levou-se em conta o seu estado de saúde e a sua posição elevada. Observem com atenção: como a história não relata se as intenções de Amnom, em relação à Princesa, já eram do conhecimento dela, deduzo que Tamar não tinha motivo algum para suspeitar de seu meio-irmão nem de temê-lo. Afinal, ela era filha do rei Davi, e, como já lemos, meia-irmã de Amnom.

B – II Samuel 13 : 11 e 14 – Quando Tamar trouxe a comida, Amnom revelou o que efetivamente queria. A reação dela frente aos avanços e proposta de Amnom foi sensata. De maneira gentil, ela repudiou o irmão chamando-o à razão. Ela protestou, ela resistiu, implorou para que não a desgraçasse com tal ato vergonhoso. Tentou persuadi-lo, sugerindo que talvez fosse possível que o rei consentisse no casamento deles, apesar de saber que casamentos entre meios irmãos eram proibidos, naquela época (Levítico 18:11) - mas Tamar não pode escapar da violência de Amnon. Para horror e desespero da moça, ele não a ouviu. Fisicamente mais forte, subjugou-a e a violentou.
Naquele momento ele estava embriagado pela lascívia, não pensava em nada além de satisfazer seus desejos, independentemente do que poderia acontecer. Forçou Tamar apesar de seus protestos e súplicas!!!

C – II Samuel 13 : 15-21 – Consumado o estupro, a atração que Amnom sentira por Tamar se transformou em aversão, a ponto de não mais querer vê-la e ordenou que fosse retirada do aposento. A reação de Tamar ao estupro e ao desprezo não foi silenciosa. Ela usou dos meios disponíveis à época para demonstrar sua vergonha, sua dor física e emocional: pranteou abertamente a sua situação, rasgando suas vestes de princesa e chorando em alta voz, colocou cinzas em sua cabeça, em profundo pesar e humilhação. Ela não se calou. Procurou o irmão e contou-lhe o que lhe acontecera. A reação de Absalão foi típica de certas pessoas, membros da família, quando confrontados com situações como essa. Ele pediu à irmã que se calasse. Que não falasse sobre o assunto. “É teu irmão”, ele disse, “Está tudo em família...” Na ótica de Absalão era preciso proteger o nome da família custasse o que custasse. O rei Davi, o seu próprio pai, apesar de ter se irado, também não fez absolutamente nada.

Aplicação homilética - Muitas mulheres hoje podem identificar-se com Tamar. São mulheres que passaram pela terrível experiência do estupro praticado por alguém que acreditavam ser da confiança delas. Pode ter sido um membro da família, o cônjuge, um amigo, um professor, um profissional da área médica... Casos como esses estão expostos na mídia regularmente...

1 - Mas, convém ressaltar que o comportamento da maioria dos abusadores tem como suporte, como base, as experiências vividas em família. Analisemos essa assertiva com relação a Amnom.

a) É visível que ele não tinha domínio próprio, o que indica que não fora disciplinado durante sua infância. Não lhes foram impostos limites, era mimado, voluntarioso. Ellen White diz: “Como os outros filhos de Davi, Amnom tinha sido deixado por conta das satisfações egoístas. Ele procurava satisfazer todo o pensamento de seu coração, sem tomar em consideração os requisitos de Deus” Patriarcas e Profetas, p.538;

b) A conduta de Davi serviu de exemplo para Amnom. Passando por cima de tudo, até mesmo da orientação divina, e usando das prerrogativas de sua posição real, Davi tomou para si a esposa de outro homem, o qual, mais tarde, viria a morrer por sua ordem para encobrir o pecado cometido;
c) Os inúmeros casamentos do rei deram origem a uma família cheia de meios irmãos e irmãs que conviviam no ambiente palaciano, porém sem o estreitamento de laços afetivos o que favorecia a ocorrência de abusos e incestos...;

d) A diversidade de religiões professadas pelas mulheres com as quais se casara Davi trouxe para a família dele uma confusão de preceitos e mesclava o errado com o certo, por isso, as orientações de Deus muitas vezes não eram levadas em conta.

É importante que saibamos que todos nós somos responsáveis pelo ambiente que proporcionamos e pelos relacionamentos que desenvolvemos no seio da nossa família. Crianças negligenciadas e abusadas hoje têm grande probabilidade de serem futuros violentos e abusadores no núcleo familiar formado por eles.

Conseguimos extrair algo educativo e significativo essa história dramática.

Uma lição que Deus quer nos mostrar é - aonde pode chegar o ser humano quando se afasta de dEle! Mesmo os que se identificam como sendo seus filhos, seus herdeiros, se deixam de olhar para o Modelo, o que serão capazes de fazer!

III - Conclusão: Não há limite para a operação do mal no coração de alguém que se afasta de Deus e permite que suas paixões tomem as rédeas de sua vida.

Deixemos a história de Tamar e olhemos para nossa sociedade hoje: valores morais foram eliminados, a família vem sendo degradada, não existe o pecado, Deus não se importa com a criatura, vale tudo, o sexo sem limites e sem compromisso é o que conta, liberdade é poder satisfazer todos os desejos...

Na história bíblica comentada hoje e no que acontece no mundo atual, amplamente divulgado pelos meios de comunicação, percebe-se que quanto mais o ser humano se afasta de Deus, mais se aproxima do ideal satânico.

E esse ideal é levar o pecador a cometer atos de vício e crueldade que até mesmo Deus em sua infinita misericórdia não pode deixar sem punição.
“Apesar do seu grande pecado, Deus tivera muita paciência com ele. Durante dois anos, lhe foi concedida oportunidade para arrependimento; mas ele continuou em pecado e, com sua culpa sobre si, foi eliminado pela morte...” perpetrada pelo seu irmão Absalão. (Patriarcas e Profetas, p.538)

Se a historia de Tamar nos causou indignação e repulsa, o objetivo de Deus foi alcançado quando permitiu que fosse escrita no livro Sagrado.

Violência e abuso são destrutivos e muitas vezes alcançam inocentes, deixando marcas indeléveis como aconteceu com a princesa Tamar e como acontece com um sem número de pessoas abusadas/violentadas por alguém em quem confiavam.

A boa notícia é que Deus está atento ao clamor dos que sofrem. Tenhamos a certeza que o Deus que ouve, o Deus que vê, esse Deus levará todas as coisas a juízo.

Atos de violência e abuso não estão em harmonia com a Palavra de Deus e deve-se lutar contra eles de todas as formas possíveis.
A Associação Geral fez a seguinte declaração a respeito do assunto: “Censuramos toda a forma de abuso sexual e violência familiar, e todo tráfico e exploração de mulheres e crianças, não importando o gênero, idade, raça, saúde ou status social e econômico.” Trecho da declaração emitida durante a Conferência Geral da IASD, realizada em St. Louis, Missouri, EUA, em julho de 2005).

Apelo: Se você sofre abuso, maus tratos ou alguma outra forma de violência; Se você estiver sendo conivente, cúmplice, desses atos e quer deixar de praticá-los, nós podemos ajudar a mudar isso. É HORA DE QUEBRAR O SILÊNCIO! É hora de se levantar e de se livrar da vergonha, do medo e do temor que têm mantido você. preso ao agressor.

O que passou, passou, não pode ser mudado, mas o futuro pode ser diferente. Podemos ajudar você. a construí-lo com base na esperança de uma nova experiência de vida. Não podemos esquecer que nós, cristãos, temos, por dever, ser pacificadores. (Rom.12:18) Temos, por dever, pregar e fomentar a PAZ no mundo. Mas, ser um pacificador não significa cruzar os braços, colocar “pano quente”, “deixar estar para ver como é que fica.” Pacificar exige que tenhamos uma posição firme e decidida ao lado do bem e da verdade. Pacificar exige que chamemos o pecado pelo nome e que repreendamos abertamente comportamentos contrários ao ordenamento divino. Pacificar exige que vivamos, na prática, a Paz que pregamos. Está em nossas mãos mudar o que há de errado. Está em nossas mãos clamar a Deus, decidir lutar, decidir vencer, decidir buscar o socorro necessário. E nessa mudança de atitudes podemos ter certeza que Deus vem em nosso socorro, Ele é nosso refugio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. (Salmos. 46:1)

Deus nos abençoe.

Pr. Emmanuel de Jesus Saraiva
Natural de São Luís – Ma. Formado em Teologia, Pedagogia e Letras. Autor de dois livros: “Memórias da África” e “A História do Adventismo no Maranhão”. Trabalhou como pastor em várias igrejas no Maranhão, dentre as quais a Igreja Central de São Luís. Foi departamental de Jovens e Educação nas Missões Costa Norte, Central Amazonas e Nordeste e diretor do Educandário Nordestino Adventista – ENA. Por seis anos foi missionário na África, como diretor do Seminário Adventista de Moçambique, onde lecionou várias disciplinas teológicas, dentre as quais Homilética e Oratória. Casado com a professora aposentada Nilde Fournier Saraiva. Tem duas filhas: Raquel e Léia. Trabalhou como pastor por 35 anos. Hoje, jubilado, mora em São Luís - MA e atua como Ancião da Igreja do Colégio Adventista de São Luís - CASL.

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