sábado, 22 de agosto de 2009

O outro lado da cruz

A morte na cruz não era, no tempo de Cristo, algo de estranho ou anormal. A crucificação era um método de punição bem conhecido, e os Romanos eram mestres na arte da tortura e massacre. Milhares haviam já morrido crucificados e muitos outros morreram assim depois de Cristo. Era um método muito usado em escravos, ladrões e outros criminosos, sendo normalmente destinada aos piores condenados.

A crucificação foi usada em outros impérios, além do romano: o Rei Dario (Pérsia) terá ordenado a crucificação de 200 pessoas e Alexandre (Grécia) umas 2.000. A maior crucificação de que há registo ocorreu em 71AC, ao tempo de Pompeu, em Roma. Dominada a revolta de 200.000 escravos sob o comando de Espártaco, as legiões romanas, furiosas, num só dia, crucificaram perto de 6.000 dos revoltosos vencidos.

No ato de crucificação a vítima era pendurada de braços abertos numa cruz de madeira, amarrada ou presa nela por pregos perfurantes nos punhos e pés. O peso das pernas sobrecarregava a musculatura do abdómen que, cansada, tornava-se incapaz de manter a respiração, levando à morte por asfixia. Para abreviar a morte os torturadores às vezes fraturavam as pernas do condenado, removendo totalmente sua capacidade de sustentação, acelerando o processo que levava à morte. Nos momentos que precedem a morte, falar ou gritar exigia enorme e angustiante esforço.

A morte de cruz era uma morte vergonhosa. Era um símbolo de culpa e escárnio, pois que destinada à escumalha da pior espécie. Até mesmo tocar na cruz era considerado um acto indigno. Por essa razão, o único homem que teve o privilégio raro de ajudar Jesus a carregar a Sua cruz, fê-lo após a isso ter sido forçado: ‘obrigaram a certo Simão Cireneu, pai de Alexandre e Rufo, o qual passava por ali, vindo do campo, a que carregasse a cruz’ (Marcos 15:21).

Jesus estava perfeitamente consciente de tudo isto, e muito mais. Ele viveu toda a Sua vida, com o conhecimento do que iria acontecer. A Sua morte não Lhe foi uma surpresa – Ele próprio a tinha planeado e previsto desde a fundação do mundo, tendo-a desde cedo anunciado a Seus seguidores: ‘assim como Moisés levantou a Serpente no deserto, da mesma forma importa que o Filho do homem seja levantado’ (João 3:14).

Jesus sabia precisamente o significado de tudo aquilo – ao contrário, de todos os outros que o rodeavam. Ele sabia o que se estava passar e o que iria ainda passar-se Jesus sabia, principalmente, da necessidade e da razão de tudo aquilo decorrer daquela forma.

Durante quase toda a sua vida, Jesus trabalhou com a madeira: construiu mesas, bancos, cadeiras… Ele conhecia o cheiro da madeira; e cada vez que o sentia, na Sua mente surgia a imagem do que lhe iria acontecer. No dia em que Ele nasceu, ele foi colocado num berço de palhas, suportado por quatro paus cruzados entre si. Logo à nascença, um madeiro O suportou, indicando que, mais tarde, seria noutro madeiro que Ele daria a vida pelo pecador.
Ao longo da sua vida, quando ele olhava para os Seus pulsos, ele sabia que eles seriam em breve atravessados por dois pregos gigantes; quando a Sua mãe o ensinava a contar pelos dedos, Ele sabia que aqueles mesmos dedos curariam cegos e seriam depois pisados e esmagados; quando Ele reclinava alguém no Seu peito para o confortar, Ele sabia que esse peito seria cortado por uma lança afiada; quando Ele colocava as mãos no rosto em oração, Ele sabia que esse rosto seria desfigurado pelo espancamento de que seria vítima; quando passava as mãos pela cabeça, sabia que ali seria enterrada uma violenta coroa de espinhos…

No entanto, a certeza do que Lhe estava reservado ainda mais à frente desse dia, foi o motivo de todo o Seu ministério! Ele via aqueles que ‘olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual pelo gozo que lhe estava proposto suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e está assentado à destra de Deus’ (Hebreus 12:2).

Ele poderia ter-Se salvado a Si mesmo quando orava no jardim, mas não o fez; Ele poderia ter-Se salvado a Si mesmo no deserto, mas não o fez; Ele poderia ter-Se salvado a Si mesmo quando perante as autoridades, mas não o fez; finalmente, Ele poderia ter-Se salvado a Si mesmo quando pendurado na cruz, mas não o fez…

Este foi um ato voluntário, motivado pelo amor ao homem. Este foi o mais belo ato de amor na História do Universo!

Nenhuma cena na História da humanidade teve um fundo tão escuro, tão negro, e no entanto, nenhuma outra cena foi um espectáculo tão brilhante do perfeito e justo caráter de Deus!

Isto porque, além do horror da cena, a cruz tinha um outro lado que ninguém conseguia ver, mas que ocupava a mente do Salvador:

a) contra ódio, estava o suspiro do amor de Deus;
b) contra a tragédia, estava o grito de triunfo eterno;
c) contra as trevas do pecado, estava o brilho do perdão de Deus;
d) contra a maldição, estava o resplandecer da maior bênção de Deus;
e) contra o desespero, estava um raio de esperança.

A única coisa que sobrava em meio a sangue, suor, lágrimas, espinhos, dor e angústia, era o amor de Deus, revelado na Pessoa de Jesus! Por isso, todo aquele que se achega à cruz em busca de salvação, percebe este contraste, e recebe as bênçãos eternas que dali emanam.

Normalmente, todos os criminosos têm direito às suas últimas palavras. As de Jesus (não criminoso, embora condenado como tal) podiam ter sido palavras de desespero, vingança, angústia, dor… Mas ele escolheu proferir mais um grito de amor pelo homem: ‘Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem’ (Lucas 23:34).

Jesus estava despojado da Sua dignidade, espancado, cuspido, gozado, ridicularizado, odiado… Ainda assim, as Suas palavras foram de amor, compaixão, perdão e salvação. E se Ele chorava, não era pela dor que sentia, mas pelo pecado do homem.

Que contraste: enquanto o homem mostrava o seu pior, Deus mostrava o Seu melhor!

Uma música evangélica, interpretada pelo grupo ‘The Statler Brothers’, diz assim:

Havia lágrimas nos olhos de Jesus
Havia pregos nas palmas de Suas mãos
Havia espinhos na Sua fronte
E somente Deus podia saber
Quanta dor Ele poderia suportar

Havia sangue à volta da colina
Enquanto uma mãe chorava a sua perda
Mas todos ficamos a ganhar
Com a dor que veio do Céu
No outro lado da cruz

E aquilo que Ele deu, nesse dia na cruz
Nem um pedaço de amor foi perdido
Segura a minha mão, levanta-te e diz
Se estiveste lá naquele dia
No outro lado da cruz

No outro lado da cruz
O lado que ninguém conseguia ver
Estava o Espírito das coisas que estão para vir
Estava o futuro de mim e de ti
Segura a minha mão, levanta-te e diz
Se estiveste lá naquele dia
No outro lado da cruz

Antes da fundação do mundo, Jesus estava a ver o outro lado da cruz: não o lado da vergonha, mas o lado que derramou o amor de Deus, e a Sua perfeita e máxima revelação.

Nesse lado, não era o sangue de Cristo que escorria do madeiro; era o amor de Deus! Nesse lado não estava a morte e a desgraça; estava a vida e a vitória!

E essa grande, incomparável vitória Ele oferece a quem quiser receber: 'mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por meio Daquele que nos amou' (Romanos 8:37).

FILIPE REIS
Nascido e educado na Igreja Adventista do Sétimo Dia e batizado em março de 1989, aos 13 anos. Vive em Vila Nova de Gaia, Portugal. Serviu vários anos como Diretor da Escola Sabatina e Ancião na Igreja de Pedroso, Portugal, entre outras funções. Em breve iniciará a formação em Teologia no Colégio Adventista de Sagunto (Espanha), para servir como Pastor. Editor do Blog O Tempo Final

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