quinta-feira, 18 de junho de 2009

O Homem que era ímpio, mas foi considerado justo

"Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça" Rom. 4:3

Hoje vamos estudar o capítulo 4 de Romanos. Lemos inicialmente: Rom. cap. 4:1-3: "Que, pois diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça."

O apóstolo Paulo havia chegado a um grande clímax no capítulo anterior, a mais importante seção (3:21-31), o parágrafo mais importante a respeito da salvação em toda a Bíblia. Ele havia estabelecido o que é justificação pela fé: Justificação significa sermos salvos da ira de Deus pela fé através da redenção que se manifestou na propiciação, que nos vem através da graça de Deus.

Mas agora, ele nos apresenta uma outra proposição que amplia ainda mais o nosso entendimento a respeito da segurança da salvação. Qual é a sua 3ª proposição? Como ele já havia antecipado de modo aparentemente casual (1:2; 1:17), ele vai provar a seguinte proposição: "A justiça pela fé está fundamentada nas Sagradas Escrituras".

Como é que ele desenvolve essa proposição? Ele imagina um judeu argumentando: "Não seria esta uma doutrina nova, uma doutrina originada na mente do apóstolo Paulo?" Então, ele responde a esta questão apresentando o maior nome cotado entre os judeus. O nome dele é Abraão. Este homem era o próprio pai da nação israelita, o progenitor original. E ele era muito querido entre os judeus. O apóstolo, portanto, escolhe o nome mais importante da nação judaica para provar que aquilo que ele estava dizendo não era uma idéia fundada em sua filosofia, mas era uma doutrina muito antiga que pode ser provada mesmo pelo próprio pai da nação judaica.

I – JUSTIÇA IMPUTADA A ABRAÃO

Então a questão era a seguinte: Se Abrão era um homem justo, um homem reto e temente a Deus de tal modo que ele foi escolhido para ser o pai da nação judaica, como é que ele chegou a ser tão grandemente favorecido? Como é que ele alcançou esta glória de ser o herdeiro de todo o mundo? Teria ele alguma virtude que poderíamos imitar?

1) Abraão não podia se vangloriar

Você nunca leu na Bíblia que Abraão se jactou de suas obras. Abraão não podia apresentar as suas próprias obras, os seus próprios méritos diante de Deus. Não é uma questão de não querer; é uma questão de não poder, porque a justificação exclui completamente a jactância de tal modo que quando o homem começar a se vangloriar, apresentando diante de Deus alguma obra, alguma benfeitoria, ou alguma coisa que o justifique e o apresente com méritos diante de Deus, nesse exato momento ele perde o dom da graça de Deus. A salvação pela graça é de tal modo exclusiva que ninguém pode se salvar através das obras.

Realmente só há duas classes de pessoas neste mundo, só há duas religiões neste mundo: uma religião de obras e uma religião de fé; uma classe de pessoas que segue a justificação pelas obras, outra classe de pessoas que segue a justificação pela fé. Uma classe de pessoas que está se jactando, se vangloriando e procurando méritos em si próprio; e outra classe de pessoas que deixa de olhar para si mesmo para contemplar a Jesus.

É impossível ser salvo pelas obras. Disse o apóstolo Paulo aos efésios: "Pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie." (Efé. 2:8, 9). Porque se fosse pelas obras, então nós poderíamos nos gloriar. Então, os ricos poderiam comprar a salvação facilmente. Mas o cristão é aquele que não está mais se gloriando.

No capítulo 3, o apóstolo já dissera: "que se cale toda a boca" (v. 19); "Onde, pois a jactância? Foi de todo excluída" (v. 27). O fariseu da parábola se jactou de suas obras religiosas, mas voltou vazio para a sua casa, enquanto que o publicano que clamava pela propiciação de Deus voltou justificado.

Abraão não podia se vangloriar, porque ele não trabalhou para isso. Esta é uma ilustração da vida diária. Diz o v. 4: "Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida." Se você realiza um trabalho para o seu empregador, evidentemente depois do trabalho você espera receber o seu salário. Isso naturalmente é uma dívida, e ele não estará fazendo nenhum favor se ele entregar o dinheiro combinado.

Mas se ele não lhe der o dinheiro, ele pode ser levado ao tribunal. Portanto, é uma dívida. "Mas, ao que não trabalha, porém crê nAquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça." (v. 5) – então isso não é uma dívida, é um favor: esse foi o caso de Abraão. Aqui está o homem que era ímpio, mas foi considerado justo.

Um erro muito difundido é este: Abraão era um judeu justo e bom, Abraão cumpria as leis, os estatutos, os mandamentos de Deus; ele era tão íntegro, tão temente a Deus, era um homem tão pio, ele se deleitava em obedecer, e foi por isso que Deus o justificou. É isto justificação pela fé? Não; isto é justificação pelas obras.

Hoje alguém poderia dizer: Se um homem é sério, ele cumpre todos os seus deveres, as suas obrigações, ele tenta agradar a Deus, ele vive uma vida boa e piedosa, se ele faz essas coisas, ele não tem nada a temer, ele será perdoado, ele será justificado. Isso é salvação pela fé? Não, isso é justificação pelas obras.

Outro erro entre muitos cristãos é o erro da salvação pelas obras no Antigo Testamento e a salvação pela fé no Novo – o que naturalmente daria como resultado a existência de duas classes de pessoas no Céu: uma que glorifica a Cristo por sua salvação, e a outra que jactanciosamente diria: "Nós estamos aqui porque guardamos os mandamentos de Deus." Mas a própria experiência de Abraão prova que o método de salvação no passado é o mesmo dos nossos dias, porque este é o Evangelho eterno.

2) Abraão Recebeu Justiça Imputada

O que significa justiça "imputada"? Esta palavra é tão importante, que eu gostaria daqui para frente que você a mentalizasse. Quando você ouvisse a palavra justificação imediatamente a palavra imputação viesse à sua mente, porque é a própria essência da justificação pela fé. Imputação significa o ato de colocar um benefício na conta de alguém. A justiça de Deus nos é colocada em nossa conta nos livros do Céu, quando nós cremos em Jesus Cristo como nosso Salvador.

Paulo usa uma linguagem nos termos comerciais. Isso significa que é algo que nós não produzimos, que nós não temos, algo que foi colocado na nossa conta. Isso é atribuído, isso é creditado, sem mérito de nossa parte. Como alguém que deposita R$ 10.000,00 em nossa conta bancária, quando estamos devendo isso para alguém. Quando nós não temos nada para apresentar a Deus, quando nós não temos mérito nenhum, quando nós estamos numa situação miserável, então nesse momento, quando nós somos ímpios, e devedores, Deus credita esta justiça de Cristo a nosso favor e nos considera justos como se nunca dantes tivéssemos pecado.

Mas como pode Deus ser Deus e ainda justificar o ímpio? Ele não disse o contrário no passado? Sim, Ele disse: "não justificarei o ímpio." (Êxo.23:7). Como podemos resolver esta sutil e aparente contradição? A doutrina da Justificação pela Fé não diz que Deus considera o pecador um homem justo, porque isso não seria realidade. É impossível Deus na Sua justiça considerar alguém que é ímpio e pecador, como justo. Isso não é o que ensina a doutrina.

A doutrina da Justificação pela Fé ensina que, se você crê em Jesus Cristo, Deus coloca na sua conta a justiça de Cristo, e então e só depois disso, é que Ele o considera justo, por causa da justiça do "Senhor, Justiça nossa" (Jer. 23:6).

Uma menina certa vez chamou a atenção de sua mãe, dizendo: "– Mamãe, encontrei uma coisa que Deus não pode fazer." "– Mas minha filha, Deus tem todo o poder, Ele pode fazer todas as coisas. Não existe nada que Deus não possa fazer." "– Ah, mas eu descobri uma coisa que Deus não pode fazer." "– Então, minha filha, o que é?" "– Deus não pode ver os meus pecados através do sangue de Jesus."

É verdade, e é somente por causa disso que Ele vê em nós, a justiça de Cristo. Portanto, quando Deus nos contempla, se nós estamos crendo em Jesus, Ele não está condenando a você em cada pecado que você pratica – Ele está olhando para você favoravelmente em vista daquilo que Jesus Cristo fez na cruz do Calvário. Assim ocorreu com Abraão, que apesar de seus pecados tinha a Deus por perto, orientando, corrigindo e justificando.

3) Abraão Foi Justificado Por Um Ato Judicial

Justificação significa uma declaração do juiz. Agora a linguagem mudou. Você vê que antes era uma linguagem comercial, algo que se coloca na conta; agora é uma linguagem forense, uma linguagem legal, a linguagem de um tribunal. Você pode imaginar um juiz na frente das testemunhas, diante dos advogados de acusação e de defesa, e diante de uma multidão. Após o julgamento, havendo terminado o processo, o juiz dará uma sentença. A sentença do juiz será de duas uma, ele dirá: "Condenado!" Ou: "Absolvido!" A justificação significa a declaração de absolvido!

Mas quem é absolvido? O ímpio é absolvido, o pecador é absolvido, o criminoso é absolvido, perdoado, justificado, declarado justo, declarado sem nenhum crime. Isso é uma declaração de Deus – Ele nos declara justos.

Mas quem é o ímpio aqui? Paulo se refere a Abraão. Abraão é o ímpio, e todos nós somos ímpios por natureza. Abraão é justificado enquanto é ímpio. Não é o caso de primeiro Abraão se tornar justo, bom, guardador de certos mandamentos, observador de certas leis, e então depois Deus o declara justo, não! Enquanto ele é ímpio, no momento em que ele depõe a sua fé em Deus, ele é declarado justo. Deus justifica não o ímpio feito justo, não houve nenhuma transformação ainda, apenas uma declaração: Deus justifica o ímpio como ele é: justifica o ímpio enquanto é ímpio.

Nesse ponto, alguém poderia perguntar: Isso não é injustiça da parte de Deus? Não é injustiça, por quê? Porque Deus está fazendo isso pelo fato de que Ele credita a esta pessoa a justiça de Jesus Cristo.

Certa vez, um paralítico foi descido de um telhado para que Jesus o curasse. Imediatamente, o Salvador viu toda a miséria daquele homem. Viu a angústia, o desespero, viu toda a sua vida de pecado. Viu que este homem muito mais do que ser curado, ele queria ser perdoado. Ele desejava ser justificado de toda a sua impureza. Então, quando ele se aproximou, Jesus Cristo lhe disse o quê? "Filho, os teus pecados estão perdoados" (Mar. 2:5).

Isso é uma declaração; é um ato forense, é um ato legal, é a sentença do Juiz, é a declaração de Jesus de que ele está absolvido. Se antes ele era um escravo do pecado, agora ele está liberto, ele está perdoado, ele está justificado. Ele estaria pronto para entrar no Céu se ele morresse naquele momento. Este era um homem ímpio, mas agora ele foi considerado justo.

Mas alguém poderia dizer: "Se é assim, então, perdoar é muito fácil para Deus! Basta uma declaração!" Um pai adverte ao filho para não fazer uma coisa errada e o ameaça com a cinta; mas o filho desobedece várias vezes, desconsidera a sua autoridade e ainda escarnece dele. Mas o pai diz: "Ah, é apenas uma criança! Vou perdoá-lo!" E lhe dá um brinquedo. E julga que esse amor, que recompensa ao filho ingrato, é maravilhoso.

É fácil assim para Deus perdoar? É apenas uma declaração de que nós somos perdoados e tudo está resolvido? Jesus Cristo queria esclarecer esse ponto e fez uma pergunta dificílima para os judeus, que começaram a dizer: Mas Ele está blasfemando! Será que Ele não sabe que perdoar pecados é apenas uma capacidade exclusiva de Deus e de que é blasfêmia alguém ter a pretensão de perdoar pecados?"

Então Jesus Cristo leu os pensamentos daqueles homens (Mat. 9:4) e disse: "O que vos parece? O que é mais fácil: Dizer: "Levanta-te e anda!" ou dizer: "Filho, estão perdoados os teus pecados!"? Bem, os homens pensaram assim: É claro que é mais fácil dizer: "Os teus pecados estão perdoados", porque ninguém sabe se realmente estão.

Mas Jesus demonstrou exatamente o contrário: "Ora, para que vocês saibam que o Filho do Homem tem na Terra poder para perdoar pecados – disse – 'Levanta-te e anda'!", e aquele homem se pôs em pé num salto. E num grande júbilo, declarado justo e perdoado, agora curado, saiu dali, e levantou o seu leito como se fosse uma pena, glorificando a Deus a cada passo.

O que é que você realmente pensa, qual a sua resposta? É mais fácil -dizer: "Os teus pecados estão perdoados!" ou dizer: "Levanta-te e anda!"? É muito mais fácil dizer: "Levanta-te e anda". Deus criou o mundo com uma simples palavra. Ele falou e tudo se fez, Ele declarou e tudo veio à existência pela Sua palavra; não havia necessidade de nenhum sacrifício.

Entretanto, para dizer àquele homem: "Filho, os teus pecados estão perdoados", Jesus precisou deixar o trono de glória; precisou nascer neste mundo e humilhar-se, assumindo a natureza humana; humilhar-se mais ao Se expor às tentações de Satanás; humilhar-se ainda mais ao receber o desprezo, a zombaria dos Seus – aqueles a quem Ele veio salvar; humilhar-se ainda mais ao ser esbofeteado, cuspido, maltratado, injuriado, açoitado e finalmente crucificado entre dois ladrões. É necessário tanto sacrifício, infinito sacrifício para Ele poder dizer: "Filho, os teus pecados estão perdoados!"

Dizem os teólogos liberais: "É assim mesmo que Deus age: basta uma declaração e estamos perdoados!". Mas isso não pode acontecer com um Deus de justiça. Antes de uma simples declaração, Ele enviou a
Seu Filho unigênito para morrer numa infamante cruz e receber o castigo da ira de Deus que os nossos pecados atraíram.

Um homem foi condenado a morrer na cruz. Ali estava um ladrão, um homem ímpio, um homem que dedicou toda a sua vida para o crime, para o roubo, para o assalto, e agora estava morrendo ao lado de Jesus como um pecador, como um criminoso, como um transgressor da Lei de Deus. Mas naquele momento o Espírito Santo iluminou o seu entendimento, e ele se voltou para Jesus e disse: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres no Teu reino!" (Luc. 23:42).

A resposta de Jesus veio pronta e sem dilação: "Em verdade, Eu te digo hoje: estarás comigo no Paraíso!" (Luc. 23:43 – BJ). Era mais um ímpio que foi considerado justo. Isto é salvação pela fé, isso é um ato forense, um ato legal. Ele morreu na cruz, mas quando ressuscitar, irá diretamente ao Paraíso de Deus, porque Jesus Cristo declarou, deu o Seu veredito: "Estarás comigo no Paraíso!"

Agora, de fato, o perdão é apenas uma declaração que custou a vida do Filho de Deus! Isto é uma declaração dAquele que tem autoridade para perdoar pecados. Ele podia enviar Elias e Enoque diretamente para o Céu. E aqueles homens estavam lá antes mesmo que a redenção se concretizara na cruz do Calvário, porque isto é absolutamente certo e seguro.
II – JUSTIÇA IMPUTADA A DAVI

Observe agora a sabedoria do apóstolo Paulo ao introduzir um novo nome, um nome também muito apreciado pelos judeus. V.6: "E é assim que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras." Então cita o Salmo 32 (Rom. 4:7-8): "Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; Bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado."

O mesmo que aconteceu a Abraão, ocorreu a Davi. A justiça de Deus também foi imputada a Davi. Mas por que haveria? Não foi Davi o grande rei e profeta de Israel, o "homem segundo o coração de Deus" (Atos 13:22)? Por que haveria de necessitar de justificação este homem íntegro e justo?

A história de Davi é esta: assim como Abraão, ele era por natureza um homem ímpio. Ele mesmo declarou: "Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe" (Sal. 51:5). Davi estava no palácio, em tempo de guerra, quando os reis deviam acompanhar o exército, e num momento de ociosa contemplação e auto-satisfação, olhou através da janela e viu a uma mulher tomando banho no pátio de sua casa.

Imediatamente, Davi tomou providências e adulterou com Bate-Seba. E para ocultar esse ato impuro, ele colocou nas mãos de Urias, o esposo daquela mulher, a própria sentença de morte, numa carta, endereçada ao comandante, para que morresse em campo de batalha. Agora o adúltero se tornara assassino, em um flagrante abuso de autoridade. Como poderia ser justificado esse homem, o pai real do povo de Deus, o ascendente do próprio Messias? Após cometer tão hediondo pecado, porventura possui algum mérito para expiar a sua culpa?

Poderia Davi ser aceito com uma oferta valiosa em ouro, prata e pedras preciosas? Poderia relatar uma grande lista de benfeitorias para Israel? Sacrificar 10.000 cordeiros? Apresentar o seu filho primogênito e oferecê-lo para expiar o seu pecado? Nada disso adiantaria. Como então foi perdoado esse homem que não tem nenhum mérito que o recomende a um Deus justo que não faz acepção de pessoas?

Ele mesmo testifica: "Confessei-Te o meu pecado e Tu perdoaste a iniqüidade!" (Sal. 32:5). Disse Davi ao profeta Nata: "Pequei contra o Senhor!" então, o profeta lhe respondeu imediatamente: "Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás!" (2Sam. 12:13). Agora Davi podia testificar que era um homem bem-aventurado, perdoado, justificado, a quem Deus não imputava o pecado, porque o Senhor lhe imputava a justiça de Cristo. Agora, depois de uma profunda angústia, Davi podia se regozijar e dizer: "Tu ...me cercas de alegres cantos de livramento!" (Sal. 32:7).

Assim o apóstolo Paulo prova que isso é tão seguro e isso é tão certo, isso é uma doutrina antiga, isso é uma doutrina que sempre existiu, e é provado através das Escrituras que relatam as histórias de Abraão e Davi.

III – IMPLICAÇÕES DA JUSTIÇA IMPUTADA

1) A Circuncisão Não Pode Justificar

Nos vs. 9-12, Paulo desfaz um outro grande argumento contra a doutrina da salvação pela fé, que é a circuncisão, para os judeus. Eles julgavam que a circuncisão os classificavam como filhos de Deus automaticamente. Mas Paulo rebate isso, afirmando que Abraão recebeu a imputação da justiça antes do rito da circuncisão, que realmente veio 40 anos depois. Ele era um incircunciso quando creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça. Portanto, a circuncisão para os judeus ou o batismo para os cristãos não podem justificar.

2) A Lei Não Pode Justificar

Os judeus ainda estavam na dúvida. Eles diziam: "Mas e a Lei? Abraão foi um grande homem que obedeceu a Deus em todos os Seus mandamentos, estatutos e leis (Gên. 26:5). Não teria sido esta a razão por que ele foi justificado?"

Paulo diz, v. 13: "Não foi por intermédio da Lei" e dá duas razões por que isso não era possível: (1) porque se "os da Lei" é que são os herdeiros da salvação, mediante o grande pai Abraão, "anula-se a fé e cancela-se a promessa" (v. 14). Por quê? Porque a Lei e a fé são opostos no que tange à salvação; não podem co-existir: as duas coisa são exclusivas. A pretensão de salvação pelas obras da Lei exclui a justiça que vem pela fé, e o homem fica desamparado, ao anular a promessa de Deus.

A outra razão (2) é dada no v.15: "porque a lei suscita a ira; mas onde não há lei, também não há transgressão." Ou seja, a lei desperta a ira de Deus, por causa do pecado. Sua função não é salvar, mas condenar. Mas se não houvesse lei, não existiria pecado, e conseqüentemente, não haveria a necessidade de salvação, nem de sacrifício expiatório. Portanto, a Lei não pode salvar; apenas confirma a necessidade da fé na justiça de Cristo que pagou na cruz o salário do pecado, que é a transgressão da Lei.

3) A Fé Pode Justificar

No v.16, Paulo antecipa o cap 5, onde ele afirma a certeza da salvação. A única fonte de segurança se encontra na onipotente graça de Deus, na qual nós podemos estar firmes, inabaláveis, se a buscarmos com fé na justiça que Deus providenciou em Cristo Jesus.

"Essa é a razão": aqui está a razão que Paulo dá porque a justiça vem pela fé: porque se fosse pela Lei, estaríamos todos perdidos, porque ninguém pode guardar a Lei perfeitamente, e se salvar por isso. Se for pela Lei, então, não estará seguro, "porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Rom. 3:23). Mas se for pela fé, mediante a graça, então, a salvação será firme, certa e segura, tanto para judeus como para gentios, porque não dependerá de nós, mas de Deus, e Ele não pode falhar, porque é Todo-poderoso, chamado "o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem." (v. 17 de Rom.4).

4) A Natureza da Fé Que Justifica

V. 18: "Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência." Abraão ouviu esta promessa de Deus, e creu. Esta é a natureza da fé: você tem esperança, mesmo que não haja esperança à vista. Abraão não considerou as suas impossibilidades (v. 19): ele era impotente demais para gerar um único filho.

Assim em nós somos impotentes para dar os frutos da salvação. Quando olhamos para nós em nossas forças tão fracas, julgamos que nunca seremos salvos. Mas fé é dizer como disse D.L.Moody, o grande pregador americano do século 19: "Quando eu olho para mim, não vejo como posso me salvar; mas quando eu olho para Jesus, não vejo como posso me perder".

Abraão "não duvidou da promessa de Deus" (v. 20). Ele não revelou incredulidade, mesmo que parecesse impossível a realização da promessa. Sim, a fé crê no que é impossível, humanamente falando. Mas ao contrário da incredulidade, Abraão se fortaleceu em sua fé.

Como acontece isto? Como pode alguém tão fraco ter uma fé tão forte? Disse Paulo que Abraão deu "glória a Deus". Assim ele se fortaleceu na fé. Mas o que significa dar glória a Deus? Abraão considerou o poder e os atributos de Deus. Ele considerou a onipresença de Deus; portanto, Ele estaria em qualquer lugar para ajudá-lo em qualquer circunstância.

Ele considerou a onisciência de Deus; portanto, Ele sabendo de todas as coisas, pode prever todas as possibilidades, e não faria uma promessa levianamente. Abraão considerou a onipotência de Deus; portanto, nada lhe seria impossível, porque o Seu poder não tem limite. A fé enfrenta os fatos e engrandece a Deus. Isso significa dar glória a Deus e "isso também lhe foi imputado para justiça" (v. 22).

Abraão estava "plenamente convicto". (v. 21) Fé é uma certeza, fé é uma convicção. O apóstolo Paulo disse o que é a fé: "Fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem." (Heb. 11:1). Esta certeza, esta convicção você precisa ter. Sem esta convicção, sem esta certeza em Deus, como você pode se salvar?

Não esquece disso: A fé sempre glorifica a Deus. Não há nada que mais insulte a Deus do que não crer nEle. Isso é impiedade, isso é incredulidade. Fé, portanto, pode ser definida da seguinte maneira: Fé é aquilo que sempre glorifica a Deus. Fé é crer em Deus simples e unicamente porque Ele é Deus. Nada é tão insultante a Deus do que não crer nEle. Nada O glorifica tanto como crer na Sua Palavra.

IV – JUSTIÇA IMPUTADA PARA NÓS

Finalmente, o apóstolo Paulo faz uma aplicação. Vs. 23-25: "E não somente por causa dele está escrito que lhe foi imputado, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos nAquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação." Este é o seu grande clímax do cap. 4.

Paulo está dizendo que o caso de Abraão foi escrito para que você também pudesse ser justificado pela imputação da justiça de Cristo que morreu e ressuscitou para a nossa salvação eterna. Isso pode ser nosso. Sim, cada pessoa pode crer e glorificar a Deus em Jesus Cristo, como o seu poderoso Salvador. E se você crê neste Jesus Cristo, que foi entregue por causa das suas transgressões, por causa dos seus pecados, por causa das suas iniqüidades, se você crê nisso, isso lhe será também imputado e você estará tão salvo quanto Abraão.

Um clérigo visitava um cemitério e entre muitas sepulturas ricas e pobres, ele observou um homem ali ajoelhado diante de uma sepultura, chorando copiosamente. E ele se aproximou daquele homem e disse:
- Amigo, por que você está chorando? De quem são os restos mortais da pessoa que está aí? Por acaso é sua mãe?" Ele respondeu chorando:
- Não, não é minha mãe.
- Algum dos seus parentes, dos seus amigos, alguém dos seus filhos?
- Não, amigo, não foi um parente meu. Mas o senhor gostaria de saber de quem são os restos mortais daquele que está aqui? Então eu vou lhe contar a história.

E emocionado, ele contou a seguinte história:
"Pouco antes da Guerra Civil daqui dos USA, eu estava sendo convocado, através do rádio, para comparecer e finalmente ir para a guerra. Mas enquanto eu estava reunido com a minha família, quando eu dava as últimas orientações para que os filhos fossem obedientes à mamãe, quando eu orientava a mamãe sobre as coisas, sobre os negócios da vida, nesse momento alguém bate à porta.

"Fui ver quem era. Era o meu vizinho, era um jovem. Então ele disse: Amigo vizinho, eu soube que o senhor foi convocado, e eu vim aqui me oferecer para eu ser convocado no seu lugar. Porque na verdade, eu não tenho ninguém, eu não sou casado. O senhor é casado, tem a sua esposa e os seus filhos para cuidar; eu tenho apenas a minha mãe já idosa. E eu gostaria que você aceitasse essa proposta de eu ir no seu lugar. Apenas eu gostaria que, se for o caso de eu morrer no campo de batalha, você cuidasse da minha mãe até o último dia da sua vida.

"E eu aceitei. Agradeci muito o oferecimento dele. E ele foi para o campo de batalha e morreu lá. E aqui estão os restos mortais, sabe de quem? Quer saber de quem são os restos mortais que estão aqui nesta sepultura? Aqui estão os restos mortais do homem que morreu em meu lugar. Eu é que deveria estar morto aqui; mas aqui está alguém que foi morto em meu lugar."

Se você crê em Jesus, se você é capaz de crer que Ele morreu no seu lugar, que Ele tem uma justiça para você se salvar, então isso é certo, isso é seguro: Você pode descansar com a segurança da salvação.



PR. ROBERTO BIAGINI
Teólogo, Mestre em Teologia. Realizou vários cursos de Extensão Teológica da Andrews University e do Centro de Educação Contínua da DSA. Trabalhou como distrital de várias igrejas do centro, norte e sul do país. É casado com a Profª. Silvane Luckow Biagini, e tem dois filhos, Ângela e Roberto.

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...