quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Fé Evangélica e as Religiões Afro

Pai Rogério (seu nome verdadeiro foi trocado para preservar sua identidade) é um típico pai-de-santo brasileiro.

Seu terreiro no interior de São Paulo é freqëntado por inúmeras pessoas que vêem na umbanda uma resposta a seus questionamentos espirituais.

O terreiro de paipai Rogério fica aberto durante boa parte do dia, durante o qual ele exerce suas responsabilidades místicas como filho de Xangô. À noite, contudo, o terreiro faz uma pausa em suas atividades. Pai Rogério não mais é visto em sua tradicional roupa branca.

Troca as guias pelo terno e gravata e vai à igreja., onde em meio a aleluias e discursos apaixonados, pai Rogério se transforma no pastor evangélico Rogério, lider espiritual de um rebanho de cerca de 500 pessoas.

"Tudo começou há cerca de 20 anos, quando vários dos filhos de Xangô passaram a receber revelações sobre a união que os orixás promoveriam entre as principais religiões brasileiras" - conta o eufórico pastor Rogério. "Hoje temos cerca de 2700 pais-de-santo que exercem a função de pastores, e quase 10 mil filhos-de-santo que atuam como obreiros e líderes de oração em diversas igrejas ao redor do país.

Os orixás estão muito satisfeitos com o movimento evangélico no Brasil, e são eles os principais responsáveis por seu crescimento acelerado." Pai Rogério conta que após muitas décadas de perseguição por parte do Catolicismo, que é oficialmente contra o sincretismo religioso, as relações interreligiosas entre os credos afro e as religiões cristãs está começando a mudar.

Questão de Nomenclatura

"É tudo uma questão de nomenclatura." - esclarece pai Rogério. "Na realidade, a umbanda e a fé evangélica são muito parecidas. É tudo uma questão de um se familiarizar com a nomenclatura do outro." "Por exemplo, na umbanda cremos que Jesus é o filho de Deus e salvador do mundo. Só que o chamamos pelo seu nome espiritual, que é Oxalá.

Não há nenhuma diferença entre o Jesus das igrejas e o Jesus da umbanda.
Oxalá a autoridade Suprema na Umbanda. Ele é quem dá as ordens aos orixás para
virem até a Terra ajudar seus filhos. E quando os evangélicos invocam anjos e
fazem cerimônias para pedir proteção, estão na realidade invocando o que na
umbanda chamamos de orixás.

Os orixás nada mais são do que seres de luz que operam nas esferas espirituais e que olham por nós mortais. A umbanda não é uma religião independente, mas sim um complemento do cristianismo.

Somos a quarta revelação de Deus à humanidade, conforme profetizado no Apocalipse." Segundo pai Rogério, o preconceito começa a cair por terra quando os evangélicos se dão conta de que todos adoram ao mesmo Deus: "Na umbanda, nós também adoramos à Santíssima Trindade. Inclusive, as religiões afro já conheciam a Santíssima Trindade muito antes da criação do cristianismo.

Seu conhecimento foi passado por Salomão, que espalhou a espiritualidade na África. Na umbanda, sabemos que a adoração à Santíssima Trindade é uma invocação à Sagrada Família de Zambi (o Pai), Oxalá (o Filho) e Ifá (o Espírito Santo).

É fato conhecido entre os umbandistas que os primeiros bispos católicos consultavam babalorixás africanos, de onde teriam aprendido importantes conceitos como o da Santíssima Trindade."

Em meio à nossa entrevista, pai Rogério recebe um telefonema inusitado. É pai Carlos (novamente, o nome foi trocado), seu antigo filho-de-santo, hoje um pai-de-santo e obreiro de uma popular denominação evangélica.

Pai Carlos conta entusiasmado que os trabalhos na igreja vão de vento em popa. Pai Rogério conta que a cada dia que passa, mais elementos da umbanda são incorporados nos rituais das igrejas. Se o produto é o mesmo, naturalmente a embalagem é outra.

Os rituais afro ganham nomes grandiosos, termos bíblicos, antes de serem adotados com sucesso nas igrejas evangélicas. Pai Carlos está confiante de que um dia os rituais evangélicos e umbandistas sejam idênticos, e que as religiões possam finalmente se abraçarem em amor, e em prol de um objetivo maior: o da harmonia entre os homens e Deus, objetivo comum entre as duas religiões.

Na função de pastor evangélico, Rogério dá cursos de exorcismo. Segundo ele, a grande experiência da umbanda no lidar com espíritos proporciona um aprendizado valioso para aqueles que desejam praticar o exorcismo cristão. Elementos como sal grosso e folha de arruda, tão presentes na umbanda, hoje são cada vez mais comuns em algumas igrejas. Porém, o pastor Rogério adverte que é preciso saber lidar com os espíritos, por isso seu curso é tão importante.

"Se o exorcismo é feito por pessoas sem prática, ao invés de pedirem licença ao orixá para que ele deixe o corpo de uma pessoa, podem ao contrário acabar invocando o orixá sobre a pessoa, de tanto clamarem por uma manifestação."

Fato atestado pela mãe Rosa (nome trocado), filha de Iançã e mãe-de-santo há mais de 20 anos. Mãe Rosa conta que a maioria das pessoas que a procuram com problemas espirituais passaram antes por rituais de exorcismo em igrejas evangélicas. "Essas pessoas normalmente chegam carregadas ou com encosto porque participam de rituais sem orientação. Com orixá não se brinca, é coisa séria."

FIDELIDADE GARANTIDA

Mãe Rosa também conta que muitos evangélicos que a procuram estão "amarrados" a seus pastores. A amarração é um termo popular na umbanda, que descreve um elo espiritual que impede o afastamento de uma pessoa.

Contrária ao sincretismo evangélico, mãe Rosa diz que os evangélicos estão deturpando a boa prática umbandista. Adepta da chamada umbanda branca, mãe Rosa conta que freqüentemente são usados na igreja evangélica rituais da umbanda omolokô, uma vertente da umbanda que lida com trabalhos direcionados por guias para fins muitas vezes de ética questionável. "Não é certo fazerem amarração.

As pessoas procuram a religião para a liberdade, e não para serem aprisionadas." Contudo, na umbanda essa prática questionável é muito comum, especialmente a amarração de casais. Ao ser indagada sobre os rituais de fidelização, onde um evangélico é induzido a jurar compromisso eterno ao seu líder, mãe Rosa diz que esse é sem dúvida um ritual da umbanda omolokô.

"Até as palavras usadas e a forma como tudo é feito, é muito semelhante. Eu
fico chocada com tudo isso. Eles estão se apropriando da nossa religião, e estão
fazendo isso sem o menor critério."

Pai Rogério também é contra esse tipo de prática, embora admita que já foi muito procurado por pastores para ensinar a amarração de ovelhas. "A principal preocupação deles é a queda nos rendimentos dos dízimos e ofertas, que podem ocorrer pela migração das pessoas para outras igrejas.

Já ouvi até pastor dizendo que não está nem aí para a saúde espiritual da pessoa, contanto que os dízimos estejam abastecendo sua casa. Esse tipo de gente deveria ficar longe das práticas religiosas. Eles acabam incorporando espíritos ruins. Nós estamos aqui para fazer o bem, e não o mal, como ensinou Oxalá."

Em Nome da Unidade

Mestre André (nome trocado), conceituado professor de umbanda, não possui nenhuma ligação com o meio evangélico, mas é totalmente favorável à unidade entre as duas religiões: "A Umbanda é um Sistema de comunicação, entre o mundo psíquico ou espiritual e o mundo físico ou material, e é neste sistema que estão incluídos todos os seres vivos e mortos, nascidos e por nascer.

Essa comunicação pode ser empregada conjuntamente com qualquer fé religiosa. E a união entre povos, raças, e credos é a cara do Brasil." Mestre André se diz satisfeito com o progresso evangélico no Brasil. Segundo ele, as igrejas evangélicas podem conseguir aquilo que o cristianismo tradicional nunca conseguiu: um ecumenismo perfeito.

"Já perdi a conta de quantos pastores já me procuraram. Estou satisfeito de ver cada vez mais práticas da umbanda adotadas em outros meios. Penso que o futuro seja esse mesmo." Mas muitos pastores evangélicos não mostram o mesmo entusiasmo com tal unificação. Procurados por nossa equipe, alguns dos pastores que contactaram Mestre André se recusaram a dar entrevistas.

Outros disseram que buscam apenas aprofundar seus conhecimentos do mundo espiritual, sem contanto adotar uma prática umbandista. Um deles disse ainda que a idéia evangélica é a de santificar e consagrar a Deus aquilo que estava antes consagrado a demônios, isto é, a espíritos ruins.

Unções e Atos Proféticos

O pastor Marcos (nome trocado) é outro pai-de-santo que deixou as práticas da umbanda para se tornar evangélico. A opção do pastor Marcos pela religião evangélica ocorreu após alguns diáconos de sua denominação passarem a fazer consultas com ele. "Eles me convenceram de que eu poderia consagrar meus dons espirituais e proféticos ao Senhor.

E assim me levaram para Jesus." O pastor Marcos relata que as unções e atos proféticos, ambos bastante populares dentre os evangélicos, ambos têm origem nas práticas da umbanda e do candomblé. "Ato profético é um nome bíblico que se dá a um trabalho espiritual. Fazemos esses trabalhos para que Deus e seus espíritos de luz possam agir em nosso meio. A idéia é absorvida da umbanda, porém é reconsagrada ao nosso Deus.

Temos muito o que aprender com a umbanda, pois ela nos ensina como podemos exercitar na prática uma conexão com o mundo espiritual." O pastor Marcos também defende a diversidade dos atos proféticos para aprimorarem a prática espiritual. Segundo ele, cada ato profético, ou trabalho na umbanda, tem o poder de abrir uma conexão com um determinado tipo de entidade ou espírito de luz.

Assim, a cada ato profético deixa-se que esses guias aproximem o fiel de Jesus.

As unções, tidos pelos evangélicos como derramamentos do Espírito Santo, também têm sua origem na umbanda. "Na umbanda, existem os cavalos. Um cavalo é uma pessoa que recebe a manifestação de uma entidade espiritual.

A partir daí, começa a agir sob o controle dessa entidade. Nas igrejas, isso é conhecido como unção. Por exemplo, a unção do leão. Uma pessoa que recebe a unção do leão numa igreja na realidade está incorporando uma manifestação de Xangô, que é representando como um ancião com um leão do lado. E assim sucessivamente.

Só que na igreja, quem coordena a incorporação dos anjos é o Espírito Santo. Na umbanda, eles ainda não têm essa revelação. Precisamos levar Jesus para os terreiros!" conta o pastor Marcos, que tem organizado cruzadas evangelísticas para converter umbandistas.

O dom de línguas, isto é, o falar em sons estranhos através de um transe espiritual, também é muito popular nos terreiros. "Ano passado, num congresso sobre dons espirituais da nossa igreja matriz nos Estados Unidos, levei um pai-de-santo amigo meu que é especialista no falar em línguas. Ele nos ensinou muitas técnicas para falarmos as línguas dos seres espirituais.

Foi uma bênção! As pessoas podem não saber, mas quando falam em línguas, estão emprestando suas bocas para que os seres espirituais, que a umbanda chama de orixás, possam falar através delas.

Mas é preciso que o pastor saiba o que está fazendo, para evitar incorporações indesejadas." diz ainda o pastor, que já palestrou sobre o tema dos dons espirituais em diversas denominações.

A Cura por Passes

A cura de doenças e problemas físicos também é um dos principais atrativos das igrejas evangélicas. Tanto nas religiões afro quanto nas evangélicas, uma doença pode ter origem em um orixá incorporado, que esteja causando o sofrimento. Por isso, nos cursos de passe ministrados em diversos centros espíritas no país, a presença de pastores e obreiros evangélicos é cada vez mais freqüente.

O espírita Celso esclarece que o passe é uma profusão de bioenergia espiritual transmitida pela imposição de mãos, de uma pessoa sã para alguém que esteja com problemas. O passe é uma doação fluídica de amor. Numa pessoa doente, osfulcros energéticos ou chakras, giram em velocidade diferente do seu estado normal. "Imaginemos o passista portador de Magnetismo Humano.

Com técnicas dispersivas (movimentação rápida das mãos), ele atenua essas discrepâncias fluídicas. O ideal, contudo, é o passista aprender técnicas para entrar em "relação magnética" ou "contato magnético" com o paciente. No caso do passista espiritual, há uma necessidade evidente de maior poder de concentração e oração.

Mesmo aí, as técnicas dispersivas também ajudam sobremaneira." explica Celso, que já deu aulas a diversos pastores. Com a grande quantidade de pessoas buscando a cura, o conhecimento de técnicas que garantam a mesma podem representar a diferença entre uma igreja cheia e uma igreja vazia.

O pastor Ricardo, de uma grande igreja do Rio de Janeiro, esclarece que: "sem cura, não há dizimo. O dízimo é um pagamento pelos serviços espirituais. Deus é um Deus de milagre. E Ele nos chamou para que possamos espalhar seus milagres pela terra. Somos agentes do Espírito Santo."

Novas Diretrizes

Mas nem só de umbanda vive o evangélico. Outras religiões também têm relatado que seus rituais são freqüentemente copiados e reembalados pelas igrejas. Um exemplo é o horóscopo chinês, que determina a sorte da humanidade a partir do ano corrente, que já tem sua versão evangélica.

Outros credos e filosofias orientais também são aproveitados, como a Yoga e o Hinduismo. Leonardo, um dos mestres de Kundalini Yoga no Brasil, conta que já deu aulas a líderes pentecostais sobre êxtase espiritual. "O beber do divino, e se extasiar em espiritualidade é um dos princípios fundamentais Kundalini. Muitos são tomados de tamanho êxtase que chegam a cair no chão.

A energia flui pelo corpo, como uma grande corrente elétrica." Até mesmo os ciganos, tarólogos e videntes, tão populares na classe média brasileira, têm perdido espaço para os profetas evangélicos, que ao invés de bolas de cristal, baralhos e búzios, usam a Bíblia como instrumento de previsão do futuro.

E, por falar em futuro, qual será o futuro do movimento evangélico no Brasil? Será que teremos um monopólio da fé evangélica, que já domina as classes baixas e as mídias de comunicação em massa? Alguns vêem essa onda com olhar apreensivo, mas outros estão confiantes de que tal movimento possa incorporar as demais religiões num grande esforço ecumênico. Como dizem os religiosos, o futuro a Deus pertence.

NOTA: Os nomes que aparecem nesta reportagem foram trocados para preservar a identidade dos depoentes.

Artigo da revista "Religiões do Brasil" - Autor não citado

PR. YURI RAVEM
Mestre em teologia e pastor da Igreja Adventista em Pelotas - RS Casado com Andressa, mestre em educação e diretora do SENAC Pelotas - RS.
Editor Associado do Blog Nisto Cremos e Editor do Blog Igreja Adventista de Pelotas

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