quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Qual Será o Seu Legado?

“Se eu deixar mais de dez libras, vocês e toda a humanidade serão testemunhas de que vivi e morri como ladrão e bandido”. – John Wesley.

Fazendo uma verdadeira “garimpagem” na pilha de revistas que vinha acumulando através dos meses, motivado por mais uma mudança de residência, eu me deparei a edição especial da revista Época de 3 de dezembro de 2007 que, como afirma o periódico, trouxe “A lista dos brasileiros que + fazem acontecer”.

Entre os 100 brasileiros mais influentes encontra-se o ex-marido da socialite Luma de Oliveira: Eike Batista. Considerado um paradigma do novo empresário brasileiro – de sucesso, é óbvio – Eike atua como um trator nas conquistas e expansões das suas empresas mundo a fora. Isso tem rendido para ele, inclusive, alguns processos e acusações de utilização de métodos escusos para fincar “bandeira” em algum novo empreendimento.

Diferença de perspectiva

Na reportagem – como de resto em todas as ocasiões em que aparece nas páginas de alguma revista – Eike fala sobre seus planos de ganhar montanhas de dinheiro (ele já é um dos homens mais ricos do mundo: Fortuna estimada em US$ 5 bilhões) e, enfatizando sua grande meta, afirma que quer nos próximos anos ultrapassar Bil Gates em patrimônio pessoal.

Ao ler essa declaração, eu me lembrei de um fato muito interessante que veio à tona na época da morte do Pedro de Lara, ex-jurado do Programa de Calouros do Sílvio Santos. A Elke Maravilha, disse que ele era uma pessoa muito sábia e, prova disso, certa ocasião, quando a encontrou muito triste por ter sido ofendida e humilhada pelo patrão – Sílvio Santos – o Pedro de Lara afirmou o seguinte:

“Não liga não, Elke, ele é um cara tão pobre, mas tão pobre – que só tem dinheiro na vida!”

Sempre que eu vejo esse triste espetáculo de muitos ricos brasileiros – principalmente os novos ricos: chamados “emergentes” – eu me lembro desse episódio. Nessas ocasiões, penso também na grande diferença de perspectiva entre eles – o esnobismo, o acúmulo de dinheiro “pelo dinheiro” – e a verdadeira paixão de alguns dos outros homens e mulheres mais ricos do mundo: a filantropia.

Faz algum tempo, a revista Veja trouxe uma matéria intitulada “Ricos e generosos”, onde afirmava em seu lead: “Magnatas americanos não esperam mais a morte para doar dinheiro a causas sociais, e valores chegam à casa do bilhão”.

“A filantropia atingiu dimensão inusitada nos Estados Unidos. Apenas em 2002, as doações somaram 240 bilhões de dólares, valor equivalente à metade do produto interno bruto (PIB) do Brasil”.

“O modelo do velho moribundo na cama do hospital que deixa tudo para uma fundação está superado”, diz Rick Cohen, diretor executivo do Comitê Nacional de Filantropia Responsável.

Na fotografia que abre a extensa reportagem, aparecem os sorridentes Bill e Melinda Gates – cada um com um bebê de Moçambique nos braços – que têm doado sistematicamente bilhões de dólares para saúde e educação nos países do Terceiro Mundo. “Nos últimos cinco anos, Bill e sua esposa, Melinda, doaram 22,9 bilhões de dólares, mais que a soma dos outros dezenove primeiros colocados no ranking [da filantropia]”, afirma o autor do texto.

Ele conta, ainda, que “A Fundação Bill & Melinda Gates investe em projetos de saúde e educação em países do Terceiro Mundo, inclusive o Brasil. O casal doou quase 1 bilhão de dólares para um programa de erradicação de doenças infantis, como a poliomielite, nos países pobres, por meio da vacinação. A fundação é a maior patrocinadora privada de pesquisas que buscam descobrir vacinas contra a malária e a Aids”.

Fazendo a diferença

Esse foi o título de um daqueles fantásticos artigos do administrador e escritor Stephen Kanitz. Seu nome é “grife” e sinônimo de competência e qualidade no estudo, pesquisas e gerenciamento de grandes projetos do Terceiro Setor.

Para não haver prejuízo de conteúdo na transcrição das idéias abordadas por Kanitz, reproduzo integralmente partes do que o grande guru da filantropia expõe na seção Ponto de Vista:

Ser rico, famoso ou poderoso tem sido o objetivo da maioria das pessoas, mas sempre falta algo. Recentemente, ouvi sobre uma nova postura ética de sucesso, que vale a pena resumir aqui, porque na época ninguém noticiou [lembrem-se: o que vende jornal é notícia ruim!]

Numa reunião no World Economic Fórum, em Davos, o local onde o mundo empresarial se reúne uma vez por ano em janeiro, um empresário que acabava de fazer um tremendo negócio foi convidado numa das várias sessões a expor suas idéias.

Primeiro perguntaram como ele se sentia, subitamente um bilionário. Sem pestanejar um minuto, ele afirmou que o dinheiro não lhe pertencia, e que doaria toda a sua fortuna a instituições beneficentes.

Stephen Kanitz conta ainda que a frase que mais tocou a platéia estarrecida foi esta: “Mesmo doando toda a minha fortuna”, disse o empresário, “continuará a existir uma enorme injustiça social no mundo. Eu terei tido um privilégio que muitos não terão. O privilégio de ter feito uma diferença com o meu trabalho e com a minha vida”.

Segundo essa visão, o mundo é dividido entre aqueles que fizeram ou não uma diferença com a sua vida, o dinheiro não é o objetivo final. E existem inúmeras maneiras de fazer uma diferença, desde inventar coisas, gerar novos empregos, criar novos produtos, até ajudar os outros com o dinheiro obtido.

O administrador, formado pela Harvard, termina afirmando: “O segredo da felicidade, portanto, não é ganhar dinheiro, que a maioria acabará perdendo de uma forma ou de outra. O segredo é ter feito uma diferença”.

Seguindo a sábia observação de Pedro de Lara: Pobre Vera Loyola! Pobre Sílvio Santos! Pobre Eike Batista! Esses e tantos outros dos milionários e bilionários brasileiros são tão pobres, tão pobres – de espírito, de mente e de coração – que só têm meramente dinheiro!

E você? Está fazendo a diferença junto às crianças da sua comunidade? Os pobres da periferia da cidade, os irmãos carentes da igreja, as viúvas, os idosos, os enfermos, os presidiários, os jovens que sonham em estudar num dos colégios internos adventistas – mas que não tem nem dinheiro para comer, para se alimentar direito...

A lista é longa... não cabe nesta página e nem em muitas outras páginas, mas pode caber, com certeza, em seu orçamento – se antes encontrar um lugarzinho em seu coração.

O sábio irmão Antônio Gregório, pai do meu querido amigo e irmão Toninho, dizia, do alto da vivência, experiência de vida e sabedoria dos seus mais de 90 anos: “É, Pr. Lira, mais faz quem quer fazer do que quem pode fazer!”

E aí, qual será o seu legado? O de Madre Teresa de Calcutá, ou o de Al Capone? O legado de Paulo ou o de Judas?

“Se eu deixar mais de dez libras, vocês e toda a humanidade serão testemunhas de que vivi e morri como ladrão e bandido”. – John Wesley.



Quem é Elizeu C. Lira?
Atualmente faz pós-graduação em Ciência da Religião e prepara-se para iniciar o Mestrado em Educação. É o diretor geral do site IASD em Foco

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