quarta-feira, 23 de abril de 2008

Por Que Choramos Pela Isabella

Nestes últimos dias, o país mergulhou num clima de comoção, seguido de luto, apreensão, revolta e indignação popular. No centro de tudo isso, o assassinato de Isabella Nardoni, uma criança de apenas cinco anos de idade.

Sem reduzir em nada o peso da tragédia que se abateu sobre várias famílias, causando essa comoção nacional, é preciso suscitar e responder algumas perguntas que têm que ver diretamente com essa forma de reação do povo ao crime brutal – quase sem paralelos no Brasil de hoje.

É verdade que “A morte de uma criança nos fere a todos; é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz”. [1]

Todos vemos nesta criança linda e meiga crainça, que teve a vida ceifada prematuramente, uma filha, uma sobrinha, prima ou neta. No entanto, “morrem duas crianças, como Isabella [...] assassinadas por dia no país. E mais milhares de jovens, principalmente pobres, principalmente pretos, nos guetos de nossas metrópoles. Mas por eles e por elas, só choram seus parentes e amigos. Ninguém mais liga a mínima”. [2]

Hoje mesmo, enquanto assistia o noticiário do telejornal da tarde, almoçando tardiamente como sempre, vi a notícia sendo dada – no estilo “vapt vupt” – do assassinato bárbaro de um menino lindo, de apenas quatro aninhos de idade em Bragança, Pará.

Ele desapareceu da casa dos avós no Sábado (19) e o seu corpo foi encontrado na segunda-feira (21) em um lago da região, apresentando sinais de abuso sexual. Imediatamente, foi preso um suspeito de ter cometido o crime que, por sinal, conhecia o garoto e era “amigo” da família.



Os Bárbaros Atacam


Sendo que, como vimos, não se trata de algo incomum e de caráter inédito aquilo que, infelizmente, aconteceu com a menina Isabella, a pergunta é: O que fez, então, com que este trágico incidente ganhasse contornos nacionais?

As revistas, jornais, o rádio e a TV mal falam de outros assuntos; gente estranha se comove ou se enraivece a ponto de ir à sua missa de sétimo dia ou esperar, horas, diante dos prédios dos familiares do pai e da madrasta da vítima (suspeitos de terem cometido o crime) para os hostilizarem.

Tanto quanto a brutalidade insana e injustificável perpetrada contra uma criança dócil e indefesa, o que nos causa repulsa e horror é a atitude troglodita de centenas de pessoas que – no melhor estilo dos hunos, hérulos, ostrogodos e outras tribos bárbaras do passado – querem a todo custo promover a execução dos possíveis criminosos.

Nesse momento, enquanto escrevo, eu me lembro de uma senhora – aparentemente pacata – que faltou ao serviço e fez algumas pequenas viagens dos bairros da periferia de São Paulo, capital, até o “epicentro” da crise.

Diante da TV, aquela mulher simples transformou-se numa leoa indomável e, com todas as letras, disse que queria “esganar o Alexandre Nardoni e, depois, pisar em cima do seu cadáver”.


Tentando Achar Respostas


Nas palavras de Nelson Ascher, colunista da Folha de S. Paulo, a pergunta, noutras palavras, passa a ser a seguinte: “Qual seria a razão para que a maioria, embora disposta a aceitar resignada tantas mortes por doenças ou acidentes mortais como obra do destino, revolte-se diante de uma única, desde que perpetrada por mãos humanas?” [3]

Abrindo um parêntesis, peço a compreensão dos leitores porque, neste caso, mais do que elaborar um texto, procuro aqui, neste espaço, montar um quebra-cabeças com a opinião de psicólogos, psicanalistas, criminalistas e jornalistas para tentar obter ao menos algumas respostas plausíveis para aquilo que o Brasil está vivenciando nestes últimos dias.

“Crianças continuam, é claro, morrendo diariamente ao redor do Planeta, seja de doenças para as quais não faltam prevenção e cura, seja devido à subnutrição ou por causa de acidentes. Mortes assim quase nunca desencadeiam tamanha comoção, algo que não advém, portanto, apenas da extrema precocidade do fim”, lembra-nos Nelson Ascher. [4]

O próprio Ascher, tentando achar respostas concretas, faz suas colocações: “Dois elementos ajudam a entender essa explosão emocional. O primeiro é a proximidade. Por mais que os espíritos humanitários a julguem indigesta, a verdade é que uma morte na China nos dói menos que uma no Brasil, esta nos toca menos que uma no Estado, na cidade de São Paulo, no nosso bairro, condomínio e assim por diante, até chegar, mais pungente, ao interior de nossa família.

“O mesmo se aplica a grupos étnicos, religiosos, profissionais e a classes sociais. É provável que quem professe o amor fraterno universal lide com seus irmãos como se fossem cifras. O segundo elemento é a intencionalidade que, se provada, configuraria o caráter criminoso da morte. [...] Caso se confirmem as suspeitas, estaremos perante um crime que, para a média das pessoas, é dos mais repelentes que existem, a saber, o assassinato de uma criança indefesa pelos adultos aos quais cabia zelar por seu bem-estar”. [5]

Antes de continuar, é bom lembrar que Nelson Ascher estava escrevendo no dia 7 de abril, portanto há cerca de 11 dias antes do indiciamento do pai e madrasta de Isabella – logo no início das investigações.

Quase por essa época, precisamente no dia 10, a psicóloga Rosely Sayão escreveu sobre “Tragédias na mídia” expondo, na sua ótica, os motivos por que este crime mexeu tanto com a opinião pública brasileira, causando tanta comoção.

Rosely parte da questão dos efeitos do noticiário – de forma geral – sobre as crianças. “Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo”. [6]

E esse não é um caso isolado; pai de dois garotos, o empresário Maurício de Almeida, 36, conta a resposta que o filho mais velho, de sete anos, deu depois de receber uma repreensão: “Você, não vai me atirar pela janela, né?” [7]

Para Rosely, a grande comoção se deve, em grande parte, a um certo rompimento na questão dos valores e segurança dos vínculos familiares: “As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário”. [8]

O psicanalista Contardo Calligaris afirma que “a tragédia nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira ‘moderna’ de casar”. Segundo ele, “O casamento ‘moderno’ é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males. [...] É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos, etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz – afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer”. [9]


E o Irmão de Mayutá?


Mayutá é um indiozinho de quase dois anos de idade – bonitinho e com cara de esperto e inteligente. Segundo uma bela reportagem da jornalista Ana Paula Boni, ele deveria estar morto e enterrado, por conta da tradição de sua etnia Kamaiurá. [10]

Na lei de sua tribo, gêmeos devem ser mortos ao nascer porque são sinônimo de maldição. Paltu Kamaiurá, 37, enviou seu pai, pajé, às pressas para a casa da família de sua mulher, Yakuiap, ao saber que ela havia dado à luz a gêmeos. Tarde demais: Um deles já tinha sido morto pela família da mãe.

Segundo Boni, em cerca de 20 das mais de 200 etnias do país esse costume leva à morte de gêmeos, filhos de mães solteiras e crianças que nascem com qualquer tipo de deficiência. Nem se tem idéia do número de crianças mortas – infanticídio – anualmente devido à falta de controle governamental.

Quem contabiliza os óbitos e os passa para a sede da Funasa são os 34 Dseis (Distritos Sanitários Especiais Indígenas) espalhados pelo país para atender aos cerca de 460 mil índios (fiz os cálculos, dá praticamente 13.530 índios para serem tutelados, cuidados e atendidos em suas necessidades básicas, para cada um destes pequenos centro de atendimento).

Além disso, há uma discussão em curso que – caso o mundo chegasse a tanto – promete atravessar o milênio incólume e insolúvel: Deve-se respeitar o infanticídio como parte da cultura indígena ou o direito à vida, previsto no artigo quinto da Constituição, está acima de qualquer questão?

Bem, enquanto os intelectuais do PT discutem sobre os “Efeitos Deletérios das Mudanças Ocasionadas Pelo Homem Branco nas Minorias Étnicas, Notadamente as Indígenas”. Enquanto os antropólogos brasileiros ficam presos ao dilema de uma política não-intervencionista.

Enquanto, como disse o General Heleno, os engravatados de Brasília ficam tomando decisões sobre questões situadas a milhares de quilômetros – sem ao menos darem-se ao prazer lúdico ou exotismo de conhecerem a real situação dos índios. Os indiozinhos continuam sendo mortos – insana e cruelmente – em nome da tradição indígena e de uma “santa” ignorância.


“Mãe, ó Nóis na Globo!”


Antes que o leitor impaciente –e por justa causa – resolva me dar um “clique”, vou terminar fazendo um link entre o que vimos aqui e aquela regra básica do Marketing: “Quem não é visto, não é lembrado!”

É simples assim: Por que não choramos pelo irmãozinho de Mayutá? Por que não choramos pelas criancinhas do Iraque que são mortas todos os dias? Por que não choramos pelas crianças que morreram de dengue no Rio de Janeiro, vítimas da inépcia e inércia dos governantes, em pleno século XXI?

Também: Por que não choramos pelos milhões de bebês – lindos e saudáveis – que são assassinados todos os dias e, muitos deles viram matéria prima na indústria de cosméticos (leia a matéria “Uma História Repugnante” no site www.iasdemfoco.net), para satisfazer os padrões exigentes de pessoas frívolas, vazias? Por que não choramos pelos milhões de crianças africanas que estão morrendo – que nem moscas – de fome ou doenças que já foram erradicados nos países desenvolvidos há várias décadas? Por que não choramos pelas crianças que estão todos os dias disputando restos de comida com urubus nos lixões das grandes cidades?

É porque, na maioria das vezes, nós nem tomamos conhecimento da existência destes seres humanos! Responda rápido: Quantos de nós já havíamos ouvido falar desta prática criminosa entre os índios? É... aquilo que está longe dos nossos olhos, com certeza permanecerá longe do nosso coração.

Como todos vocês, eu me comovi com o drama da mãe e dos avós (principalmente os maternos, por razões óbvias) da Isabella. Eu me indignei com a brutalidade e morte cruel daquela linda menina. Eu – posso até estar errado – não vi nenhuma sinceridade naquilo que o pai e a madrasta dela falaram na entrevista de domingo (para mim, foi encenação barata e friamente calculada).

No entanto, examinando tudo sob a ótica jornalística, eu vejo que – considerados todos os fatores do drama – ele só adquiriu toda essa dimensão por causa do espetáculo televisivo. Como lembram os teóricos da Comunicação Social, os noticiários não pretendem se aprofundar na complexidade da realidade, mas aproveitar os fatos capazes de mobilizar o universo emocional do espectador.

Neste contexto, a procura pela audiência na TV é traduzida como uma obsessão pelo espetáculo. É aí que entra aquilo que conhecemos como fenômeno Agenda Setting: Onde a própria TV, através das grandes redes, determina os assuntos que estarão em pauta e a manutenção da discussão em torno deles. Nesse caso, “Aquilo que o espetáculo deixa de falar durante três dias é como se não existisse. Ele fala então de outra coisa, e é isso que, a partir daí, afinal, existe” (Guy Debord).

Nesse circo de horrores e exploração de emoções reprimidas em que se transformou a cobertura do assassinato da menina Isabella, até a polícia deu a sua notável contribuição. Na sexta-feira passada, quando o casal foi mais uma vez interrogado, ela montou cordões de isolamento e até instalou banheiros químicos, para garantir à platéia as melhores condições na hora de assistir ao espetáculo.

“Teve, inacreditável, bolo e parabéns pelo aniversário da menina assassinada - além, claro, do protocolar comércio informal de comes e bebes, obrigatório em aglomerações de todo tipo. O circo armou-se completo, em pleno dia útil da maior cidade da America do Sul”, lembra Aidano Mota. [11]

As notícias em torno da investigação do crime, depoimento de testemunhas, reconstituição (etc.) prometem monopolizar as pautas das grandes redes e a atenção dos telespectadores por mais um bom tempo.

Isso, pelo menos, até que uma nova morte – ou outro evento de grande repercussão e/ou apelo emotivo – os separe; ou, melhor, os una em “novas núpcias”. É a Agenda Setting. Faz parte do show; é o espetáculo televisivo!


Elizeu C. Lira, Coordenador Geral do Site www.iasdemfoco.net





Referências


1. Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 10 de abril de 2008.
2. Aidano André Mota, O Globo Online, 21 de abril de 2008.
3. Nelson Ascher, Folha de S. Paulo, 7 de abril de 2008.
4. Ibidem.
5. Ibidem.
6. Rosely Sayão, Folha de S. Paulo, 10 de abril de 2008.
7. Cláudia Colluci e Vinicius Queiroz Galvão, Folha de S. Paulo, 13 de abril de 2008.
8. Rosely Sayão, Folha de S. Paulo, 10 de abril de 2008.
9. Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 10 de abril de 2008.
10. Ana Paula Boni, Folha de S. Paulo, 6 de abril de 2008.
11. Aidano André Mota, O Globo Online, 21 de abril de 2008.

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