sexta-feira, 7 de março de 2014

Homilética – O Sermão Eficaz


“Senhor, ensina-nos a pregar!” Seria bom que os discípulos tivessem feito esse pedido a Cristo, tal como o fizeram com respeito à oração. Teríamos então todos os benefícios de algumas orientações práticas sobre pregação, recebidas diretamente do Mestre dos pregadores. Ao examinarmos a vida e o ensino de Jesus, descobrimos muitos princípios que podem revolucionar nosso ministério da pregação.

O poder do Espírito

Jesus testemunhou claramente que o Espírito do Senhor O ungiu para pregar (Luc. 4:18). Seria muito afirmar que não deveríamos pregar a Palavra de Deus até que fôssemos primeiramente ungidos por Seu Espírito? Jesus Cristo ordenou que Seus discípulos esperassem em Jerusalém até que recebessem a promessa do Pai (Atos 1:8). Depois da unção celestial no Pentecostes, os seguidores de Cristo saíram para pregar no poder do Espírito Santo.

Um caso exemplar é o de Estêvão, o diácono, descrito como “cheio de fé e do Espírito Santo” (Atos 6:5), e também como “cheio de graça e poder” (v. 8). Quando Estêvão pregava, seus ouvintes “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava” (v. 10). Mesmo a comunicação não-verbal de Estêvão foi uma irrefutável testemunha: “Todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo” (v. 15). Sua vida demonstrou que quando uma pessoa está cheia do Espírito, ela está cheia de poder. E prega com santa ousadia (Atos 4:29-31; 13:6-12).

Entrega e oração

Jesus, o Pregador Mestre, devotou muito tempo à prática da oração. Enquanto Ele Se preparava para pregar nas sinagogas através da Galiléia, levantava-Se cedo pela manhã, dirigia-Se a um lugar solitário e orava (Mat. 1:35-39). Antes de pregar Seu sermão estratégico sobre o pão da vida, o Senhor gastou horas em oração (Mat. 14:23-25). Para Jesus, pregação e oração estavam inextricavelmente conectadas.

Os alunos da pregação de Jesus também compreenderam que aquele que ministra a palavra também deve entregar-se à oração (Atos 6:4). Os intensos períodos de oração pelos seguidores de Jesus, antes do Pentecostes, não eram apenas uma preparação essencial para a pregação poderosa. O apóstolo Paulo afirmou a importância da oração no preparo e entrega do sermão, quando fez um pedido especial por oração intercessória: “... orando... por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho” (Efés. 6:18 e 19). Ele compreendeu que, sem oração, não poderia falar com ousadia (v. 20).

A escassez de poderosa pregação bíblica entre nós está diretamente relacionada à escassez de oração poderosa. Com seu ato de negar a Cristo, Pedro ilustra a incômoda verdade segundo a qual nós não teremos um poderoso testemunho sobre Jesus para partilhar com outros, se estivermos dormindo quando deveríamos estar orando. A lição é clara. Ore pela direção de Deus antes de começar a preparar um sermão. Ore enquanto o prepara. Ore enquanto prega. Aprenda, do exemplo de Jesus, que pregar poderosamente é resultado de muita oração, não de corre-corre. Banhe seu sermão em oração e entrega de si mesmo a Deus.

Pregação da palavra

Jesus proclamou a Palavra de Deus, por preceito e exemplo. Ousadamente declarou: “... e a palavra que estais ouvindo não é Minha, mas do Pai, que Me enviou” (João 14:24). E enquanto orava por Seus discípulos, testemunhou ao Pai: “Eu lhes tenho dado a Tua Palavra” (João 17:14). Os estudantes da pregação de Cristo compreenderam a importância de partilhar a Palavra de Deus, ao invés de suas opiniões próprias. Eles “com intrepidez, anunciavam a Palavra de Deus” (Atos 4:31), e “crescia a Palavra de Deus” (Atos 6:7).
As pessoas necessitam ouvir a Palavra de Deus, não nossas opiniões. O que Deus tem a dizer é mais importante do que nós temos a dizer.

Ouvimos muitos sermões, atualmente, que dão apenas um leve aceno à Palavra de Deus. Nos dias de hoje, sermões bíblicos, com ilustrações contemporâneas têm-se transformado em sermões contemporâneos com ilustrações bíblicas ocasionais. O resultado é falta de poder no púlpito e falta de transformação na igreja. Tais sermões podem ser divertidos, interessantes, mas não produzem mudança duradoura.

Comunicação da graça

Quando Jesus pregava, Ele não simplesmente falava a respeito da graça de Deus. Ele realmente comunicava a graça de Deus. Lucas recorda que em resposta à Sua pregação na sinagoga em Nazaré, Seus ouvintes “se maravilhavam das palavras de graça que Lhe saíam dos lábios” (Luc. 4: 22). Essa resposta da audiência é um testemunho não da finura de Sua expressão oral, mas uma resposta à essência de Sua fala. Jesus era “cheio de graça” (João 1:14) e quando Ele pregava, comunicava a graça de Deus.

Uma das mais poderosas palavras de graça do ministério da pregação de Cristo é encontrada no sermão que Ele pregou em uma determinada noite para uma pessoa: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (João 3:16 e 17).

Os aprendizes da pregação de Jesus compreenderam que foram enviados para comunicar a graça de Deus. Pedro começou Sua mensagem aos peregrinos da dispersão com as palavras “graça e paz vos sejam multiplicadas” (I Ped. 1:2). Paulo começava suas mensagens em numerosas ocasiões com as palavras: “Graça a vós outros e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Efés. 1:2). E nos aconselha: “A vossa palavra seja sempre agradável [com graça]” (Col. 4:6).
Todo sermão deveria comunicar uma clara palavra de graça. É a graça de Deus que conduz esperança. É verdade que todo sermão deveria também conter uma clara palavra de julgamento. Porém, mesmo essa palavra de julgamento deveria ser comunicada com graça em nosso coração.

Auditório atento

Jesus demonstrou uma notável conscientização de Sua audiência. Ele compreendeu que a comunicação efetiva é diálogo, não apenas monólogo. Também abordou questões que estavam na mente de Seus ouvintes (Mat. 24:3; Luc. 10:39). Interagiu com eles através de perguntas (Luc. 10:36). Pelo menos, em uma ocasião, Ele até permitiu a rude interrupção de alguém e direcionou o curso do sermão (Luc. 12:13-21).

Jesus era atento às respostas verbais e não-verbais de Seus ouvintes. Durante Seu sermão em Nazaré, Ele discerniu as mensagens não-verbais dos que estavam presentes. A linguagem corporal que acompanhou o comentário “não é este o filho de José?” sugeria um espírito resistente e falta de fé. Respondendo a esses ouvintes, Jesus disse: “Sem dúvida, citar-Me-eis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo” (Luc. 4:23). E então mudou o foco de Sua mensagem, da proclamação do ano aceitável do Senhor para a importância da fé.

Os alunos de Jesus aprenderam do seu Mestre a importância de ficar atento às reações da audiência. Os que estavam presentes no dia de Pentecostes dialogaram com Pedro enquanto ele pregava no poder do Espírito Santo. Tendo proclamado ousadamente que “a este Jesus, que vós crucificastes, Deus O fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36), Pedro fez uma pausa para ouvir a resposta da audiência. O comentário “que faremos, irmãos?” não marcou o fim do sermão. Ao contrário, foi uma parte essencial deste. Lembre-se de que toda comunicação efetiva envolve diálogo.

Um pregador não pode estar desatento à resposta dos ouvintes. Pedro continuou: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). E o apóstolo mostrou sensibilidade à resposta dos que o ouviam. O final do sermão aconteceu na água, quando cerca de três mil pessoas foram batizadas. Esse batismo foi uma parte do sermão, uma evidência clara de um diálogo transformador de vidas com Deus.

Afirmação simples e memorável

Um dia após a miraculosa alimentação de cinco mil pessoas, Jesus pregou um poderoso sermão. Ele usou uma simples e memorável afirmação para abordar Sua idéia principal: “Eu sou o pão da vida” (João 6:35). Podemos aprender muitas lições importantes dessa idéia. Primeira, é uma declaração simples, não uma sentença complexa. Segunda, é feita no sentido positivo. Não negativo.
Os pregadores são comissionados não simplesmente a transmitir informações,
mas para chegar à obediência e transformação.

Infelizmente não temos uma fita de vídeo com esse sermão de Cristo; mas os comunicadores concordam que há muitas formas de interpretação oral que podem ser usadas para enfatizar a principal idéia em um sermão. Jesus pode ter mudado Seu estilo quando disse: “Eu sou o pão da vida”. Pode ter acrescentado uma pausa, ou silêncio reflexivo. Isso realça a importância da idéia enquanto dá oportunidade para os ouvintes refletirem sobre ela. Jesus também pode ter usado uma variação de força, ou volume, para enfraquecer a idéia, como fez em outra ocasião (João 7:37).

Uso de repetição

Jesus não apenas arquitetou uma simples e memorável declaração para apresentar uma idéia principal, mas também usou a repetição para acrescentar ênfase. No sermão sobre o pão da vida, Ele repetiu Sua idéia textualmente pelo menos uma vez (João 6:35 e 38). Também a expôs através de paráfrases durante o próprio sermão: “Eu sou o pão que desceu do Céu” (João 6:41), e “Eu sou o pão vivo” (v. 51).

Se a reafirmação e a repetição de um pensamento eram importantes para Jesus, no sentido de fazer compreendida a idéia principal do Seu sermão, isso é mais importante hoje, quando ouvir atentamente está se tornando cada vez mais difícil. Devemos ter certeza de que a declaração simples e memorável de um sermão foi ouvida claramente, e foi absorvida.

Ilustrações práticas

Jesus era um mestre na ilustração de verdades espirituais. Ele freqüentemente usava ilustrações práticas da vida diária para transmitir verdades espirituais. Numa ocasião, quando falava a Seus discípulos, chamou uma criança e a colocou no meio deles. Que maneira brilhante de chamar a atenção! Ali estava uma ilustração viva da verdade que o Mestre queria transmitir. Então disse aos discípulos: “Se não... vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos Céus” (Mat. 18:3).

Jesus desenvolveu uma reputação como pregador que tirava ilustrações práticas da vida diária. Mateus lembra que “todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia” (Mat. 13:34). Ele falou sobre lançar redes, semear, ovelha perdida, entre outras coisas. Compreendia que as melhores ilustrações são encontradas no mundo onde o orador e os ouvintes estão inseridos. Quando Jesus falou sobre produzir e colher, Seus ouvintes agricultores não precisavam decodificar a mensagem. Eles estavam bem informados com os problemas de incômodo causados por pássaros, rochas, cardos, e raízes superficiais. Se Jesus estivesse dando aulas ou pregando no século 21, certamente encorajaria Seus ouvintes a usar ilustrações práticas de instrumentos da informática.

Podemos usar ilustrações práticas da vida diária, para reforçar e iluminar a idéia principal do sermão. Qualquer outra história, por melhor que seja, é simplesmente barulho irrelevante que pode causar mais prejuízo do que lucro. Não fomos chamados a entreter o povo com histórias apenas interessantes. Fomos chamados a proclamar uma Palavra que transforma vidas. Um pregador sábio aprende do exemplo de Jesus e usa ilustrações práticas, relevantes da vida diária, para ajudar a cumprir essa tarefa sagrada.

Mudança de vida

Jesus falava “como quem tem autoridade” (Mat. 7:29). Pregava no poder do Espírito Santo, partilhando a Palavra de Deus, em lugar de Suas próprias opiniões, mas também chamava a uma mudança radical de vida. Na conclusão de Seu histórico sermão da montanha, Cristo desafiou Seus ouvintes a aplicar em suas próprias vidas as verdades que tinham ouvido. Era um chamado à ação, um chamado à transformação. Disse Ele: “Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mat. 7:24).

Em contrapartida, “todo aquele que ouve estas Minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia” (Mat. 7:26). Os pregadores são comissionados não simplesmente a transmitir informações, mas para chamar à obediência e transformação.
Embora seja verdade que a transformação seja obra de Deus e não nossa, somos chamados para unir-nos a Ele nessa tarefa. Quando a palavra de Deus é fielmente proclamada, um apelo à mudança de vida não é apenas um privilégio mas uma responsabilidade. Pedro não fez apologia quando apelou à conversão, no final de sua mensagem. Chamou o povo ao arrependimento, ao batismo e à salvação (Atos 2:38-40).

Parece que hoje alguns pregadores temem apelar à mudança de vida. Temem parecer arrogantes ou autoritários. Mas a verdade, em sua própria natureza, é autoritária; exclui inevitavelmente tudo o que está errado. Um ouvinte da verdadeira Palavra de Deus precisa dar uma resposta. Não há lugar para manipulação, coerção ou jogo emocional. Entretanto, aprendemos do exemplo de Jesus que, quando a verdade é proclamada, é apropriado apelar para uma mudança de vida. Esse apelo deve ser simples, direto e claro. O resultado será maravilhoso para nós, pregadores, e para os ouvintes.

DEREK J. MORRIS
D.Min, pastor da igreja de Calimesa, Califórnia, e professor adjunto de homilética na Universidade Adventista do Sul, Collegedale, Tennessee, Estados Unidos

3 comentários:

  1. Li um livro sobre o sermão da montanha de um pastor metodista americano. Doei o livro a um presidiário e não me lembra o nome da obra ou do autor, alguém pode ajudar-me?

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  2. Desconheço o título do Livro. Um abraço e bons sermões!

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  3. Tem um bom e antigo livro, com o mesmo nome desse post: "O Sermão Eficaz" de autoria do Pr. James D. Crane e publicado pela JUERP. Vale a pena.
    Deus os abençoe.

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